terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parte 26 - PENÚLTIMA PARTE

O Impulso capaz de nos trazer à Superfície pode ter que vir do Fundo do Poço


Foi numa das muitas manhãs em que acordei com um grito. O som como única forma de escapar do meu inconsciente. Agora materializado numa série de pesadelos sem fim.
O que me assombrava? Por que eu acordava ofegante e suada daquele jeito?
Não sei dizer.
Bastava abrir os olhos para que as imagens e sensações se recolhessem. Furtivamente escondidas dentro da minha cabeça.
Tão lá dentro que confesso que até hoje não lembro. 
Não me levantei. Voltei a deitar, estendi a mão e peguei o cinzeiro com um baseado já apertado dentro e o acendi com o isqueiro.
Já tinha se tornado um hábito sempre deixar um pronto para alguma emergência.
Na verdade, do instante em que acordava até o último tapinha antes de adormecer, eu fumava o tempo inteiro.
As desculpas eram várias. Muitas. Para dar um brilho ao acordar, ter mais fome antes de comer, relaxar e dormir melhor, achar mais graça em assistir TV.
A realidade era que me drogar parecia ser... A única forma de aliviar um pouco o que eu carregava no peito.  Bastava um trago para que a dor, a angústia, o vazio, a tristeza desaparecessem.
Meu corpo inteiro se enchia de cor, calor, música... Minhas veias pulsando a enorme sensação de prazer que me percorria, afastando qualquer outra coisa que não fosse aquela alegria irracional e sem perguntas.
Não durava muito, porém... Quando o efeito passava era simples: eu fumava de novo.
Sem perceber que já não conseguir fazer nada de produtivo. Sendo ainda mais específica: nada além daquilo.
Mas pensar para quê? Não era divertido. Muito pelo contrário, parecia tão... Absolutamente cansativo...
A única coisa que importava era nunca, jamais ficar de cara limpa.
“A maconha é uma porta para drogas mais pesadas!”
No meu caso, felizmente, não foi assim.
Meu objetivo não era ficar ligada. Sequer cogitei entrar em outras ondas, como fizeram alguns de meus conhecidos. Cocaína, heroína, LSD, ácido, ecstasy... Nunca me atraíram. Minha onda era afastar os demônios que me perseguiam. Conseguir abrir os olhos e não desejar não existir. Conseguir sair de casa, comer, dormir. Coisas aparentemente simples, mas que para mim tinham se tornado... Profundamente difíceis.
Sancho ficou muito preocupado comigo. Passava diariamente na minha casa como quem não quer nada. Protestava, às vezes até brigava:
- Você vai queimar todos os seus neurônios assim!
Eu sabia que ele tinha razão, mas... Fingia que não ouvia.
Incapaz de escapar da rotina nebulosa em que estava envolvida.
Incrivelmente, a primeira visão da saída veio pelas mãos menos improváveis: as de Tito.
- Vamos sair?
O convite muito mais do que inesperado – há mais de um mês que ele não aparecia para fumar comigo – não foi aceito de imediato:
- Não sei... Tô afim de ficar em casa...
Ao que ele completou:
- Ficar em casa e fumar um?
Não respondi. Nem precisava. Ele sabia que era exatamente isso.
- Há quanto tempo você não sai?
Fiz as contas mentalmente antes de responder:
- Na night uns três meses. De casa acho que uma semana mais ou menos.
Sair para quê?
Tinha internet, TV a cabo, uma pedra de quase meio quilo e até o supermercado e a locadora entregavam em casa...
- Isso se chama depressão, sabia?
Minha reação foi rir.
Deprimida, eu?
- Deprimida é o cacete! Tô muito mais do que bem e feliz!
Tito não só ignorou minha resposta. Insistiu:
- Essa felicidade continua quando você tá careta?
Ficar careta...
Taí uma coisa que não acontecia há dias... A não ser quando eu estava... Dormindo...
Mas nem o fato de eu acordar suada e gritando todas as manhas me fez concordar com meu amigo. Depressão era algo que eu não queria nem podia assumir. Parecia... Coisa de gente fraca... Ou doida... Em ambos os casos: inadmissível.
 - Depressão tem a puta que te pariu!
Ele chegou a rir. Levou na esportiva. Conhecia-me o bastante para saber o quanto eu estava... Fora de mim:
- Tudo bem... Não tá mais aqui quem falou... Vamos ou não vamos sair?
Sinceramente?
Fiquei sem graça de dizer não.

***

Nádia, a amiga que dividia o apartamento com Tito abriu a porta com um sorriso:
- Oi, sumida!
Cumprimentei um tanto quanto constrangida:
- Tudo bem?
Nádia fez que sim com a cabeça. Fez um gesto para que eu a seguisse. Enquanto atravessávamos a sala, disse:
- O Tito tá no banho. Pediu pra você esperar um pouquinho.
Foi quando finalmente percebi – é eu estava lenta, tinha fumado um antes de sair – uma mulher sentada na frente de um... O que era aquilo? Um oratório? Pelo menos parecia... As portas abertas deixando a mostra uma espécie de... Pergaminho?
Fazia menos de dois meses que eu não aparecia ali, mas... Bom, com certeza aquilo era novidade, se estivesse lá antes, nem depois de fumar toda a maconha do mundo eu deixaria de ter visto.
Nádia sentou um pouco atrás da amiga, e começou a entoar junto com ela um... Canto? Melodia?
- É um mantra. Quer fazer com a gente?
Balancei a cabeça de forma negativa, sem nenhuma hesitação. Nádia estava maluca? Só podia... Sequer conseguia entender o que elas diziam...
Fiquei ali olhando as duas vibrando aquele som que se repetia, absolutamente juntas, no mesmo tom e em uníssono.
- Vamos?
Estava tão concentrada em minha curiosidade, que não percebi quando Tito surgiu, já todo vestido.
Sugeri:
- Não quer fumar um pra dar um brilho?
E então, aconteceu a coisa mais inédita e incrível: ele recusou.
Depois, se aproximou do tal oratório, juntou as mãos e falou três vezes as palavras incompreensíveis, as mesmas que as duas recitavam sem parar.
Diante do meu olhar abismado, Tito falou:
- A Nádia se converteu ao budismo. E desde que comecei a ir nas reuniões, parei de fumar.
Tentei não dizer nada, mas depois que a porta se fechou atrás de nós e estávamos a sós no corredor esperando o elevador, não consegui segurar:
- Como assim? É tipo... Uma coisa de crente?
Tito deu uma gargalhada antes de retrucar:
- Nem um pouco igual.
Precisei replicar:
- Ué, se você não pode mais fumar...
Ele tornou a explicar, enquanto abria e segurava a porta para eu entrar no elevador:
- Poder eu posso. Nada proíbe. Eu é que não quero mais.
Aquilo me irritou ainda mais:
- Ah, tá. Assim, do nada?
Antes de se virar para mim, Tito apertou o botão no painel prateado. Então, com a maior paciência do mundo, esclareceu:
- Não é do nada. É que esse mantra eleva o estado de vida, sabe... E essas coisas  passam a não fazer mais parte... Nada forçado... É algo... Que acontece de forma natural.
Não fiquei muito convencida, mas minha curiosidade falou mais alto:
- E que diabo de mantra é esse? O que é isso que elas falam, afinal?
Foi assim, no exato momento em que o elevador parou no primeiro andar... A primeira vez que eu ouvi:
- Nam myoho rengue kyo.
Sem saber ainda que o resultado em minha vida seria... A mudança total.


Um comentário:

  1. Nathy disse...

    ótimo como sempre neh...
    pena q esta no fim...
    ◄ Responder Comentário 7 de fevereiro de 2011 11:20
    Natália disse...

    Muito bom, intenso! Cheio de expectativas de mudanças...
    Parabéns!
    ◄ Responder Comentário 7 de fevereiro de 2011 13:32
    Aninha aruen disse...

    mas já tá acabando???? aaaa :( mas fico feliz pq sei q vai ter outro!!! :) amo o Nam Myhoho Rengue Kyo ,é muito bom,minha mãe me ensinou ele qd eu era criança...(detalhe q ela nem é budista) bjs enormes Di!!
    ◄ Responder Comentário 7 de fevereiro de 2011 22:01
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Nathy
    Brigadú, linda!
    O fim desse será o começo de um novo que já comecei a escrever...
    Espero que goste!
    BJ super imenso!
    ◄ Responder Comentário 8 de fevereiro de 2011 16:46
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Natália
    Brigadíssimo!
    Tomara que goste da última parte!
    BJ mega imenso!
    ◄ Responder Comentário 8 de fevereiro de 2011 16:47
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Aninha aruen
    Amiga,
    Pois é...
    Tem que ter um fim, né?
    Daí começo a postar o inédito que comecei a escrever.
    Vou postar toda 4a feira (mais vezes por semana não dou conta...)
    BJ ultra imenso!
    ◄ Responder Comentário 8 de fevereiro de 2011 16:48
    Chester Perdigão disse...

    Nooossa amei!! *-*

    obs: sumi mas to de volta!! e o melhor é...tem mais um conto para eu ler!! XD

    Bjs Di
    ◄ Responder Comentário 20 de fevereiro de 2011 23:26

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