terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parte 25

O essencial pode ser invisível


Talvez exista algo de anestésico que acompanhe as maiores dores. Aquilo que faz com que momentos aparentemente insuportáveis, daqueles que depois olhamos para trás e pensamos:
- Como consegui sobreviver?
Sejam sustentáveis, neutros, quase em suspenso, na hora em que os vivemos.
Véu nublado e maravilhoso do esfriamento. Proteção ou defesa cuja ausência talvez seja a razão de em certas situações enlouquecermos. Dor profunda demais para continuar como se nada acontecesse.
No meu caso sempre tive a sorte – ou a infelicidade, quem pode ao certo dizer? – de ser portadora dessa estranha espécie de distanciamento.
Claro que não é confortável. Na verdade, prefiro escondê-la. Para evitar aquilo que já escutei tantas e tantas vezes de terceiros:
- Como você é fria!
Insensível, sem sentimentos...
Rápidos são os dedos para apontar aquilo que não é a forma como eles próprios sentem.
Mas quem é capaz de medir ou julgar quem sofre mais: aquele que chora aos prantos, de forma abundante e intensa, ou quem implode, engole toda mágoa, angústia e dor, e sofre em silêncio?
Só os travesseiros sabem, só eles podem dizer. O que na calada da noite fazem as pessoas que nele se deitam...
De qualquer forma eu posso afirmar que sofrimento é algo que pode ser adiado, mas não evitado. E como uma infecção sem tratamento, só piora com o passar do tempo. Melhor mesmo é encará-lo, antes que gangrene.
 O fato de eu nunca ter chorado por Noga não quer dizer que eu tenha sofrido menos.
Na verdade o tempo todo eu sabia que era algo passageiro. E que o melhor a fazer era aproveitar cada momento.
Como ela mesma definiu, num fim de tarde nem um pouco frio:
- I told Rafi about us. (Contei a Rafi sobre nós.)
E eu:
- What did you say? (o que você disse?)
Meio sem saber o que ela tinha dito, mas sabendo muito bem o que gostaria de escutar... O oposto do que Noga respondeu:
- That we`re having fun... (Que estamos nos divertindo...)
Senti uma dorzinha, que rapidamente afastei, porque... Cada fração de segundo é preciosa quando é só o que temos...
Foi uma semana de encantamento. Embalada por CDs de musicais da Broadway: de West Side Story a Camelot, passando por The Sound of Music, South Pacific e Oaklahoma.
Inesquecível mesmo. Deixando um gosto, vontade, desejo de poder ser para sempre.
O que ela pensava, queria, sentia? E eu?
Não sei.
Nunca nos dissemos.
Evidente apenas o porquê de ser daquele jeito: o fato de nós duas sabermos que era só aquilo mesmo. Coletânea ligeira de momentos efêmeros. Que valeu muito a pena.
Cheguei a sugerir mudar meus planos, e passar com ela os dois dias que me restavam antes de voltar para o Brasil, mas Noga recusou:
- You can`t miss Berlin! (Você não pode deixar de conhecer Berlim!)
E assim, deixei Amsterdã carregando um certo... Peso? Não, o oposto... Uma leveza insípida... Como se o peito pudesse explodir por não ter nada dentro...
Vazio que me acompanhou nesses últimos dias de Europa. Por mais que Beti tentasse me animar, me mostrando Berlim inteira.
Meus pensamentos estavam longe, na dolorosa certeza daqueles olhos cinzas que eu jamais voltaria a rever.
Perda.
Sensação que tomou conta de mim no avião, e semanas depois de voltar ao Rio de Janeiro. Como se minha vida de antes não valesse mais a pena.
Comecei a questionar o que realmente queria, desejava, precisava. O que fazer dali para frente.
Meus amigos estranharam. Algumas pessoas chegaram a comentar:
- Voltou metida à besta...
Eu só pensava em voltar. Mesmo sem entender direito porque, para quê... Mantinha meu relógio de pulso no horário de Amsterdã, numa tentativa inútil de não perder... O quê, realmente? Sequer sei dizer... Como no filme “Em Algum Lugar do Passado”... A moeda capaz de fazer com que se viaje no tempo...
Passei quase um mês sem sair de casa. Perdida em fotos, recordações, momentos... Em suspenso.
Até que Sancho não aguentou:
- Chega, né? Vamos voltar a viver?
E eu tentei.
Juro que tentei.
Mas os lugares e pessoas já não pareciam os mesmos. O que eu não entendia é que na verdade, quem tinha mudado era eu...

***

- Não creio! E você não comeu?
Como explicar?
A menina era linda. Dezoito aninhos. Para meus 32 anos, praticamente um bebê. Há alguns meses apaixonadinha por mim. Depois de muita, mas muita insistência mesmo, e uns copos a mais de álcool na veia, acabei ficando com ela.
Num certo ponto em que a coisa já tinha esquentado e muito, sussurrou no meu ouvido:
- Sou virgem. Quero que você seja a primeira.
Olhei para os olhinhos ansiosos da menina. Percebi que sequer sabia o nome dela. E o quanto aquilo parecia... Vazio.
Sem o menor sentido.
Dei uma desculpa qualquer. Com certeza ela ficou sentida. Mas ficaria mais, muito mais, se eu fizesse o que ela queria.
Sancho sacudia a cabeça de um lado para o outro me olhando, muito mais indignado do que surpreso.
- De novo?
Ele estava falando da minha recém adquirida e total incapacidade de me relacionar sem sentimentos...
- O que tá acontecendo? Isso não é você...
E não era mesmo. Não o meu antigo eu. Que pouco a pouco parecia estar... Desaparecendo.
Sim, eu estava com medo. Apavorada, melhor dizendo.
Mas no fundo sentia, previa, sabia... Que algo muito, mas muito melhor mesmo estava para acontecer...

Um comentário:

  1. Aninha aruen disse...

    to adorando...esse conto é o mais imprevisivel q eu já li seu,não dá pra imaginar como vai acabar...bjs enormes!!!
    ◄ Responder Comentário 4 de fevereiro de 2011 19:03
    Lilo Oliveira disse...

    A cada capítulo que leio, minhas palavras se perdem e não acho mais definições nem nome algum para tentar descrever o que sinto ao ler...

    posso, sem dúvida, dizer que Diedra Roiz é uma das minhas escritoras preferidas. Fato. Estpa alí, no top 3, ao lado de Lispector e Martha Medeiros.

    Ansiosa para o próximo capítulo...
    Beijão
    ◄ Responder Comentário 5 de fevereiro de 2011 11:28
    Anônimo disse...

    Adoro sua forma de escrever....sempre é muito mais que uma estória.... é uma reflexaõ, um mergulho em conceitos e sentimentos!!
    Flor
    ◄ Responder Comentário 5 de fevereiro de 2011 19:47
    Natália disse...

    Realmente surpreendente! Me faz lembrar de um pedacinho da minha vida, agora tão distante...
    Beijos e parabéns!
    PS: Levada pela empolgação de vários contos ambientados no Rio, eu e a esposa + uns amigos vamos nesse carnaval pra lá! Valeu pelo indireto incentivo!
    ◄ Responder Comentário 6 de fevereiro de 2011 10:24

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