terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parte 24

O inacreditável pode estar bem mais próximo do que se imagina


Continuei ali deitada olhando para o teto, tão absolutamente imóvel que meus braços e pernas chegavam a estar doloridos.
Pelo canto do olho tentei descobrir o que ela estava fazendo. Não consegui.
Tomei coragem, virei a cabeça na direção de Noga e vi... Que ela estava dormindo.
- Idiota! Imbecil!
Xinguei a mim mesma mentalmente. Por minha completa e absoluta incapacidade de... De que?
Não conseguia entender. A mulher tinha me convidado para a cama dela. Deitado do meu lado, sorrindo, tão próxima que podia sentir os pelinhos do braço dela roçando os meus. A única coisa que nos separava era...
- A minha enorme burrice!
Bufei alto demais?
Talvez. O fato é que ela abriu os olhos e perguntou:
- Are you ok? (Você está bem?)
Só consegui responder:
- Of course!
Noga sorriu, ao repetir:
- Of course!
E mais uma vez, eu não entendi.
O que ela queria de mim?
Seria fácil. Muito fácil tentar e conseguir algo ali... Não podia haver local mais propício.
Então porque diabos eu estava insegura e nervosa como uma virgem?
Voltei a suspirar. E Noga a sorrir.
Aquilo tudo era demais para mim. Precisava reagir. Dizer algo inteligente e espirituoso, no mínimo. Infelizmente, não consegui.
Noga então se virou, deu as costas para mim. Com um insondável:
- Good night. (Boa noite)
Dormiu.
Enquanto minha mente repetia:
- Qual é o problema? O que diabos tá acontecendo comigo?

***
No dia seguinte, ao acordarmos, o mesmo suplício.
Eu querendo, desejando, precisando fazer algo, tomar algum tipo de iniciativa. Sem conseguir.
Noga se levantou, entrou na cozinha comigo atrás.
Os olhos cinzas introspectivos, ainda menos compreensíveis:
- Coffee? (Café?)
Meu sorriso foi o menos animado que eu já vi:
- Yes, please. (Sim, por favor.)
Depois da xícara de café reconfortante, e algumas frases sem maiores significados, puras banalidades, Rafi chegou. Vindo sabe-se lá de onde.
Os olhos avermelhados, o andar trôpego e um sorriso satisfeito na cara. A imagem de quem se esbaldou, caiu na gandaia, passou a noite na farra.
Antes que ele começasse a contar o que eu já imaginava, me desculpei e saí para mais um dia de turismo solitário.

***

A casa de Anne Frank.
O que dizer? Como comentar?
Sinceramente?
Atmosfera. Nada mais a declarar.
O anexo minúsculo onde Anne e as outras sete pessoas ficaram escondidas – absolutamente apertadas e sufocadas – está vazio. Sem móveis, nem nada.
Apenas placas na parede levam a mais cruel de todas as nossas percepções a funcionar. Sim, porque pior, muito pior do que ver o horror é imaginá-lo.
No final, uma sala onde vídeos sobre Auchwitz passavam, se repetindo sem parar.
Precisei voltar tudo. Três vezes fiz o percurso na casa. A cada vez, o peso daquela história parecia conseguir penetrar, arder e rasgar ainda mais a minha carne.
E no final, levei comigo mais do que a impressão da monstruosidade dos fatos... A última e derradeira frase da adolescente judia – uma entre milhares, mas merecidamente, um marco:
“Apesar de tudo, ainda acredito na bondade humana.”
Naquele momento, senti como se minha vida fosse algo fútil, inconsistente, desperdiçado.
Deixei o prédio pensativa, triste, cabisbaixa.
Dentro de mim, alguma coisa gritava. O que era?
Eu ainda não sabia explicar.

***

Rafi voltou para Israel naquela tarde. E eu... Como recusar o convite que Noga me fez  para que eu ficasse um pouco mais?
Precisava saber, descobrir, desvendar... Tudo que o mistério cinza tinha para me dar.
O resultado? Mais uma noite deitada ao lado dela, vergonhosamente paralisada. Meu ego, muito mais do que os músculos doloridos de tensão começaram a me incomodar.
Jurei para mim mesma:
- Dessa noite não passa!
Enquanto passeava, a máquina em punho registrando toda a magia dos prediozinhos colados e dos canais.
O anoitecer me encontrou cansada, mas determinada.
Voltei para casa. Tomei um banho rápido e me atirei no sofá da sala.
Noga me esperava, com uma sopa fumegante e...
- Wine? (Vinho?)
Jantamos. Bebemos. Conversamos. Fumamos.
A música de fundo me deixando... Quase em estado de... O que era aquilo que parecia pulsar por toda a sala?

“Tell me no dreams  (Não me conte sonhos)
Filled with desire (Cheios de desejo)
If you’re on fire (Se você está ardendo)
Show me!” (Mostre-me!)

Passei o baseado para Noga, que me encarava. Os lábios se movendo com a música, sem que, no entanto, um som sequer fosse pronunciado. Os olhos dela intensamente ruborizados. Pontuando, ondulando, afirmando:

“Haven’t your lips (Os seus lábios não)
Longed for my touch?  (Ansiaram pelo meu toque?)
Don’t say how much  (Não me diga o quanto)
Show me!” (Mostre-me!)
(“Show Me” – My Fair Lady - Frederick Loewe e Alan Jay Lerner)

Eu completa e absolutamente estática. Sem conseguir fazer nada.
O CD terminou, o silêncio ficou ecoando na sala.
Como um peso que sem querer se instala. Minha angústia rangia, parecia... Quase palpável. Olhei para os meus próprios sapatos. Noga aproveitou para levantar e recolher os pratos. Depois gritou já do quarto:
- I’m going to bed. (Vou pra cama.)
Não fui imediatamente atrás dela. Continuei sentada tentando organizar meus pensamentos. Sentindo uma estranha sensação de... Quem sabe ou é capaz de driblar o inevitável? Naquele momento, sob a forma do meu coração me jogando na cara:
- Você está apaixonada...
Não fazia o menor sentido. Eu mesma não acreditava. Era uma desconhecida, em quem eu sequer tinha tocado.
Mas nas córneas, na retina, em algum lugar daqueles imensos olhos cinzas eu via... Encontrava, lembrava, descobria... Alguma coisa totalmente conhecida. Como se já... Não... Ridículo, eu sei, mas... Parecia que... Eu já a tinha visto. Conhecia, ou melhor... Reconhecia... De outras vidas.
Sacudi a cabeça numa última negação. Nem um pouco definitiva. O sentimento transbordou, me fazendo rir. Apavorada e aturdida, mesmo sem conseguir me convencer, várias e várias vezes repeti:
- Tô muito doida, vai ser diferente quando estiver de cara limpa.
Levantei sem perceber. Minhas pernas me guiando aonde queriam ir.
Deitei ao lado de Noga, que não se moveu. Estava dormindo. Deixei escapar um gemido baixinho. Angústia, decepção e tristeza rapidamente se esvaindo ao sentir a perna dela encostando na minha.
Inspirei fundo? Parei de respirar. Prendi... O ar, o momento, o sentimento.
Uma eternidade naquele segundo em que fiquei sem saber como agir. Até finalmente me decidir.
Devagar. Com um cuidado preciso. Foi como meu braço venceu a distância do dela. Milímetro por milímetro.
Quando as peles finalmente se provaram, Noga abriu os olhos e sorriu para mim. Tornando tudo facílimo.
Os lábios se experimentaram. A aprovação do primeiro contado possibilitando todo o resto. Uma luz vertiginosa me percorrendo a espinha. A cada toque um novo e delicioso arrepio. Sem palavras. Todos os sons foram arfados e gemidos. Tremular de um ardor plenamente sentido. Audível.
E então, a tentativa de segurar, sem conseguir. A efemeridade se fazendo registrar. Intensa e dolorosamente me atingindo quando a noite chegou ao fim.

Um comentário:

  1. K. Ártemis disse...

    Uau! Que capítulo intenso. Queria saber o porque que isso acontece quando mudanças internas ocorrem. Sempre que algo em nosso interior muda ficamos sem ação, sem saber o que fazer. Creio que deva ser um período de adaptação para o novo.
    Adoro os tudo o que escrevi e estou de olho aqui, a pouco tempo, mas estou de olho. Bjs
    ◄ Responder Comentário 31 de janeiro de 2011 12:47
    Natália disse...

    Muito bom o capítulo! E parabéns, claro!
    ◄ Responder Comentário 31 de janeiro de 2011 14:57
    Natália disse...

    Após meu simplório 1º comentário, revi mentalmente os lugares que visitei em 1 ano de estudos na Europa. E me lembrei exatamente da sensação de entrar em um campo de concentração próximo à Munique. Me senti sufocar quando entrei na câmara de gás. Tive que sair umas 2 vezes na neve fria pra poder conseguir ver tudo, chorando copiosamente. Por isso, não pude ir à Casa da Anne Frank. Não tive peito pra encarar novamente a intolerância humana...
    ◄ Responder Comentário 31 de janeiro de 2011 18:54
    Aninha aruen disse...

    eu tbm já dormi do lado de uma menina e nao aconteceu nada...mas nem ligo muito porque se fosse pra acontecer tinha acontecido...a cada capitulo minha curiosidade aumenta...bjs enormes Di!!
    ◄ Responder Comentário 31 de janeiro de 2011 21:36
    Tibet disse...

    Vertigem e poesia!
    ◄ Responder Comentário 31 de janeiro de 2011 22:45
    Anônimo disse...

    EU JA FIQUEI SEM REAÇAO TB DESSE JEITO E MUITO ESTRANHO NAO SEI EXPLICAR RS , O CONTO TA MUITO INTERRESSATE CONTINUE ASSIM BEIJOS
    ◄ Responder Comentário 1 de fevereiro de 2011 05:15
    Chester Perdigão disse...

    Nossa que capítulo intenso e super interessante!
    Esse capítulo me deixou muito ansiosa pro próximo!! xD

    Com sempre...PERFEITO Di!

    Bjs
    ◄ Responder Comentário 2 de fevereiro de 2011 00:02
    Lilo Oliveira disse...

    desta vez cheguei meio atrasada para ler esse capítulo, rs.

    Diedra, está cada vez melhor!

    esperando ansiosa por amanhã...

    beijão
    ◄ Responder Comentário 3 de fevereiro de 2011 19:16

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