terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parte 23

Certas coisas nem a dúvida pode impedir...

Às vezes, ao voltar o olhar para alguns momentos passados, sou tomada por uma estranha impressão de irrealidade. Como se tratasse de um sonho, divagação, ou imagens no meio da neblina. Qualquer coisa, menos a minha vida.
Amsterdã é um momento assim.
Aqueles que me conhecem bem, e sabem o que significou, certamente vão rir. Outros talvez, vão tentar amenizar, explicar ou distorcer:
- Efeito das drogas, amiga!
Mas sei perfeitamente que certas coisas estão além, muito além de qualquer justificativa.
Sopros no ouvido?
Gosto longínquo de segundos já vividos?
Instinto cego?
Indecifrável rotação de seres que se encontram e atraem, desencontram e repelem no constante e labiríntico pulsar em que a existência gira.
- Noga, this is my friend from Brazil. (Noga, essa é a minha amiga do Brasil.)
A frase em si não foi importante.
Já os olhos...
Cinzas.
Tão absolutamente cinzas...
Sem nada de frios. Mais um final de fogueira, quando o calor deixa de ser incandescente, mas continua ali.
Sérios. Seríssimos. Pelo menos naquele primeiro momento, quando ela estendeu a mão e disse, de uma forma absolutamente polida:
- Nice to meet you. (Prazer em conhecê-la)
E respondi, sem conseguir ser tão desprovida de reação assim:
- Nice to meet you too. (Prazer em conhecê-la também)
Sentindo-me… uma total imbecil pela frase que era... Aquela decorada na primeira aula  do IBEU, que eu jurava que nunca usaria, porque... Obviamente sempre teria algo melhor, mais inteligente e menos automático para dizer, mas que naquele momento, com a massa cinzenta congelada, desmaiada ou simplesmente inibida... Foi o que me salvou, por ser... A única coisa que saiu.
Depois de me fitar atentamente, Noga fez a pergunta que durante toda a minha estadia na Europa muitas vezes se repetiu:
- Are you Jewish? (Você é judia?)
Provavelmente por causa do meu physique… Mais precisamente o meu… Nariz.
Neguei, mas ela não pareceu muito convencida.
Porém não insistiu, como outros tantos fizeram, afirmando - com tanta certeza que quase fiquei convencida – que tinha que ter algum judeu na minha família.
Agradeci mentalmente quando entramos, porque estava começando a congelar ali.
Sei que muitas vão rir, mas para o meu ser carioca, 20 graus é frio!
O apartamento de Noga era cheio de quadros e esculturas. Todas de autoria dela. Não sei se eram boas. Quem sou eu para julgar isso? Para mim pareciam.
Naquele primeiro dia, ficamos os três sentados na sala. Tomando sopa e bebendo vinho. Os dois conversando, e eu quietinha. Escutando, colhendo dados, degustando.
Israel. A faculdade de teatro de Tel aviv, onde os dois tinham se conhecido. O Kibutz  em que Noga havia nascido e crescido, onde um conselho decidia tudo. Até se ela poderia ou não estudar artes plásticas em Amsterdã. Depois do sim, ela tinha entrado e se mantido sozinha na Europa - com o passaporte alemão herdado pela avó sobrevivente da Alemanha de Hitler - trabalhando com faxina.
Pequenas peças do quebra-cabeça que faziam com que a complexidade da vida dela - tão distante da minha – pouco a pouco fosse tomando forma e sentido.
De vez em quando ela parava de falar, olhava para mim e perguntava sorrindo, como se - apesar da minha perplexidade e estranhamento não serem explícitos - pudesse ler dentro de mim:
- More wine? (Mais vinho?)
Eu estendia a taça com a impressão de que se a soltasse o delicado objeto de vidro levitaria.
Tão surreal tudo aquilo...
Quase um filme de David Lynch...
Até que finalmente, os bocejos se tornaram impossíveis de ignorar. Noga arrumou dois colchonetes com cobertores no chão da sala, e se retirou para o quarto dela. Rafi rapidamente começou a ressonar ao meu lado, e eu... Uma estranha ansiedade tomou conta de mim... Algo inexplicável, totalmente desprovido de...
O que era aquilo?
Tentei, mas não pude definir.
Ao invés disso... Levei uma eternidade para conseguir dormir.
E quando finalmente o fiz, sonhei... Sem me lembrar com o que na manhã seguinte.

***

Não tive companhia em meus passeios turísticos. Noga saiu para trabalhar e Rafi já conhecia Amsterdã bem demais para isso.
Com um mapa na mão, coragem, vontade e todas as dicas e recomendações possíveis, minha primeira direção foi o Van Gogh Museum.
Depois de horas extasiada, observando milimetricamente cada obra disponível, e cansada de tanto babar – não sei se sou eu que sou maluca, mas... Putz! Que vontade de lamber aqueles quadrinhos super coloridos! – obsessões e viagens à parte, o efeito das pinceladas, a textura, o conjunto da obra me pareceu... Profunda e intensamente físico... Verdadeiro delírio...
Fiquei algumas horas em Dam Square vendo várias performances de artistas, observando o movimento e ainda em acreditar que estava realmente ali. Nem percebi quando a noite caiu.
Quando cheguei no apartamento, Rafi já tinha saído. Para um lugar que, segundo Noga, eu provavelmente não gostaria: uma sauna só de homens. Fui obrigada a concordar que realmente, não era aonde eu pretendia ir.
O que eu queria era conhecer um Coffee Shop. Comprar maconha sem ter que esconder na calcinha.
Claro que Noga riu quando eu disse isso. Tudo bem, me incomodou um pouquinho, afinal... Era triste saber que seria muito difícil - para não dizer impossível - impressioná-la ou interessá-la depois daquilo...
Ela explicou como chegar, mas não se ofereceu para ir comigo – nem eu pedi – por isso acabei novamente saindo sozinha.

***

Suspirei desanimada quando o loirão atrás do balcão me olhou com cara de poucos amigos quando pedi:
- A beer, please! (Uma cerveja, por favor.)
E respondeu:
- Don`t have it here. (Não temos isso aqui.)
- Só porque eu não tenho pau! - Pensei, mas não disse.
Certo alívio quando o rapaz ao meu lado perguntou em francês algo que queria dizer mais ou menos isso:
- De onde você é?
Tudo bem, falar com completos desconhecidos não é das minhas coisas preferidas. Muito menos numa língua que eu absolutamente não domino. E Louis – entender o básico, como nome, eu consigo – não falava nem entendia nada em inglês, o que era pior ainda.
Mas longe de nossa terra natal, parece que a tecla SAP liga e com ajuda de muita mímica, sempre nos comunicamos. Ou pelo menos achamos que conseguimos...
Assim, Louis e eu conseguimos nos entender, por mais que eu não saiba explicar como e que isso possa parecer esquisito.
Foi numa de minhas frases multilíngües que o garçom loirão abriu um enorme sorriso:
- Brazilian?
Fiz que sim, bastante surpreendida. Mais ainda quando ele começou a falar um português - meio macarrônico, mas totalmente inteligível - comigo.
O namorado era brasileiro – explicou.
Mudou completamente. Apresentou-se:
- Jimmy. Eu da Irlanda.
Até chamou um amigo:
- Orico...
Um brasileiro - na verdade Eurico - que me ajudou a escolher o baseado que eu queria no cardápio, me explicando que em Coffee Shops não se vendia bebida, e fazendo com que eu me sentisse arrependida de ter sido rápida demais em julgar e condenar o tão simpático Jimmy.
Ficamos fumando e jogando conversa fora. Ele com saudades do Brasil, eu não querendo nunca mais sair da Europa...
Teria ficado a noite inteira conversando, se não tivesse que pegar o último bonde para a casa de Noga.
Impensável perdê-lo, porque... Ficaria sem ter para onde ir.
Despedi-me. Eurico me deu de presente um pequeno tubo de ensaio com uma tampinha com uma folha de marijuana em cima.
- Para não amassar o baseado.
Agradeci.
Caminhei até o ponto distraída. Gelei ao passar pela polícia, depois ri. Ao lembrar que ter maconha na bolsa ali não era proibido. E perceber o quanto o nosso entorno faz marcas tão profundas que chegam a ser como um vício. Mesmo mudando o lugar, demora um tempo para que possamos nos descontaminar do que está enraizadamente estabelecido.
Quando cheguei no apartamento dela, Noga estava sozinha. Rabiscando de lápis a tela ainda em branco num cavalete no meio da sala.
Perguntei por Rafi, e ela respondeu sem desviar os olhos do que estava fazendo:
- Not before tomorrow morning. (Não antes de amanhã de manhã.)
Sentei, ou melhor, me atirei no sofá e fiquei observando os movimentos dela sem falar nada.
Depois de alguns segundos...
Ou teriam sido minutos? Horas talvez... Meu interesse crescente fazia até com que eu perdesse a noção de tempo...
Noga parou, me olhou, e batendo com a mão na testa, exclamou:
- Oh, I`m so sorry... I totally forgot… Rafi left this for you… (Me desculpe, esqueci completamente… Rafi deixou isso para você...)
Estendendo um baseado que sem brincadeira, era... Da largura de um dedo... Enrolado em forma triangular como o que eu tinha comprado no Coffee Shop. Antes que eu pudesse perguntar, Noga disse:
- Hashish, I think. (Haxixe, eu acho.)
Nunca tinha experimentado. Imediatamente me lembrei do filme “O Expresso da Meia Noite”, e estremeci. Apaguei as imagens sombrias acendendo e tragando até conseguir esquecer de mim.
Estendi para ela, que sorriu um:
- Why not? (Por que não?)
Que para mim soou um tanto quanto... Malicioso? Repleto de subtexto? Cheio de entrelinhas?
Se eu estivesse no Brasil, teria certeza de que ela estava se insinuando para mim.
Mas ali? Não podia confiar no meu instinto.
Em primeiro lugar, por Noga ser... Ter... Algo... Absolutamente desconhecido.
Em segundo por eu estar completamente... Como definir? Que o meu olhar parecia rodopiar e flutuar os sons que só então eu tinha começado a ouvir?
Linda!
A música, ela, e o jeito que olhava para mim...
Fazendo com que eu tentasse inutilmente disfarçar o quanto o meu rosto ardia com uma empolgação muito mais do que atípica:
- I Love “My Fair Lady”! (Eu adoro “Minha Querida Dama”!)
Ela deu uma gargalhada e um último trago no baseado antes de devolvê-lo para mim. Sem deixar de me fitar daquele jeito que me queimava em arrepios.
E o que eu fiz?
Cantei em alto e bom som, sem conseguir controlar, nem saber como expressar de outra forma o que estava sentindo:

“People stop and stare (As pessoas param e olham)
They don't bother me (elas não me incomodam)
For there's no where else on earth (pois não existe outro lugar na terra)
That I would rather be”...(onde eu preferiria estar)

Noga voltou a rir, e começou a me acompanhar, cantando do mesmo jeito “Broadway” que eu fazia:

“Let the time go by (Deixe o tempo passar)
I won't care if I (Eu não ligo se)
Can be here on the street where you live”(Puder ficar aqui na rua em que você mora)
(“On the street where you live”- My Fair lady - Frederick Loewe e Alan Jay Lerner)

Cantarolamos a parte instrumental também. A música terminando ao som de nossas risadas. Juntas, compartilhando aquele momento mágico, incrível.
Nossos olhos se encontraram. Os cinza enigmáticos, expressando algo que eu não soube interpretar, muito menos definir.
E então, Noga levantou rápido, cortando o breve contato. Perguntou como se não tivesse acontecido nada:
- Do you like “West Side Story”? (Você gosta de “Amor, sublime amor”?)
Tudo bem, gostar de musicais da Broadway ali poderia ser normal. Para mim, parecia algo... Surreal. Quase um sinal.
De que?
- Of course! (Lógico!) – respondi a pergunta dela, mas não a minha.
Fumamos metade do baseado cantando e interpretando o CD inteiro. Uma intimidade nova pouco a pouco se estabelecendo.
- I have to paint! (Preciso pintar!)
Foi a frase de Noga, já com o pincel em punho na frente da tela.
As pinceladas vigorosas, precisas, causaram em mim um ardor inevitável.  Atração, desejo, tesão quase palpáveis. Eu não sabia se ia desmaiar ou sufocar... O fato é que meus sentidos todos rodopiavam, inebriados. Como se os pelinhos do pincel tingissem minha pele por dentro.
Acariciando, conquistando, devorando... Subcutaneamente.
Sentimento que defini pensando alto:
- Chemical reactions in my brain! (Reações químicas no meu cérebro!)
Noga parou, me olhou, e repetiu rindo, enquanto escrevia na tela o que eu tinha dito:
- Chemical reactions in my brain!
Afastou-se para observar melhor o que tinha feito:
- I liked it! (Gostei!)
Sussurrei baixinho em português:
- Eu também...
Dolorosamente consciente do que a sentença realmente queria dizer...
Noga perguntou:
- What did you say? (O que você disse?)
Não respondi.
Como poderia?
Ao invés disso, tentei puxar o ar, me sentindo sufocar. Devagar para não perder os sentidos... Recuperar o juízo... Juntar... O pouco... Que ainda possuía...
A pontinha do cabelo dela estava... Suja de tinta... Ou era apenas... Impressão minha?
As cinzas cintilavam, brilhavam, prometiam... Tesouros escondidos... No magnífico e inebriante sorriso...
Deixando-me ainda mais perdida ao ouvir:
- Do you wanna sleep in my bed with me? (Quer dormir na minha cama comigo?)
Assenti.
E a segui.
Mesmo sem ainda saber direito o que a proposta realmente continha.

Um comentário:

  1. Lays Camargo disse...

    Absolutamente LINDO!
    Me apaixonei pelo capitulo!
    Chega logo segunda-feira!
    Beijão, Di.
    ◄ Responder Comentário 28 de janeiro de 2011 13:11
    Lilo Oliveira disse...

    Cada vez que leio, me vicio mais...
    É surreal, sabe o efeito que as pinceladas causam na personagem, é o efeito de sua escrita para mim... Algo assim, inebriante, surreal, meio mágico. rs

    Parabéns, Diedra!

    beijos!
    ◄ Responder Comentário 28 de janeiro de 2011 13:20
    Aninha aruen disse...

    que lindo...adorei a parte do convite de ir pra cama...bjss enormes di!
    ◄ Responder Comentário 28 de janeiro de 2011 23:31
    Natália disse...

    É, a Europa é isso mesmo! Simplesmente não dá pra ler, entender as pessoas... Bom, ruim, a gente se acostuma, enfim...
    ◄ Responder Comentário 28 de janeiro de 2011 23:48
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Lays Camargo
    Oi Lays!
    Td bem?
    Ah, até 2a é rapidinho...
    Espero que continue gostando!
    BJ suuuuuuuuper imenso!
    ◄ Responder Comentário 29 de janeiro de 2011 11:45
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Aninha aruen
    Gostou, né?
    kkk
    BJ ultra imenso, amiga!
    ◄ Responder Comentário 29 de janeiro de 2011 11:46
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Lilo Oliveira
    Bah, guria!
    Vc me fez ganhar o dia, viu?
    Brigadíssimo!
    Mega incentivo!
    Espero continuar conseguindo esse efeito, putz...
    BJ muito mais do que gigante!
    ◄ Responder Comentário 29 de janeiro de 2011 11:48
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Natália
    Bom...
    Não fiquei tempo suficiente pra me acostumar, mas...
    É MUITO diferente!
    BJ mega imenso!
    ◄ Responder Comentário 29 de janeiro de 2011 11:49
    Chester Perdigão disse...

    Nossa...AMEEEI o capítulo!
    Principalmente a parte do convite!!XD

    Bjs Di
    ◄ Responder Comentário 30 de janeiro de 2011 00:49
    THATHA disse...

    UAU E BOTA INTENSO NISSO BEIJOS ADOREI
    ◄ Responder Comentário 30 de janeiro de 2011 02:20

    ResponderExcluir