terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parte 22

A vida pode ser um sem número de fins e reinícios


As duas primeiras semanas de solteira passaram rapidamente. Mais que um alívio. A ausência que eu sentia não era a dela, e sim do peso que sem perceber tinha sido tirado da minha vida.

É, eu sei...

Terrível dizer isso.

Mas mais horrível ainda é dizer inverdades por serem politicamente corretas ou algo parecido. Adepta que sou da honestidade mais límpida.

- Muito franca!

Como meus amigos sempre dizem.

Não que o sentimento dos outros não importe. Não é absolutamente isso.

É só que...

Negar o que pensamos, somos e sentimos nada mais é do que... Hipocrisia.

O que quero dizer não é absolutamente que mudar seja algo impossível.

Mudamos, transformamos, aprimoramos.

Estamos no mundo para isso.

Desde que venha de dentro. Nunca forçado ou imposto pelos outros.

De dentro para fora.

O fluxo de todo o universo não é assim?

Então porque diabos seria diferente com um indivíduo?

Nessas duas semanas, eu fui egoísta. Não pensei em nada, nem ninguém a não ser em mim.

Confesso. Sei disso.

Mas eu precisava – e muito – ficar, estar, me reencontrar comigo.

Foi no domingo à noitinha, depois do espetáculo, quando abri a porta do camarim, que a vi.

Sentada numa das cadeiras do saguão, os olhos azuis fixos em mim.

- Bruna?

Fui tudo que consegui murmurar.

Surpresa, deliciada e... Sim, aquilo me deixou... Feliz.

- Preciso conversar com você.

Ela foi firme. Como nunca tinha sido.

Concordei com um aceno de cabeça e a segui.



***

Sentada na frente dela, numa mesa do Sindicato do Chope da Farme, observei Bruna entornar uma garrafa de vinho.

Preocupada, porque... Ela pouco ou quase não bebia.

- Chega, né? Vamos pedir uma Coca.

Tentei inutilmente impedi-la de pedir a segunda garrafa.

A voz de Bruna soou completamente arrastada quando ela me disse:

- Tô morrendo de saudade... Não quero terminar... Volta comigo...

Naquele momento, meu organismo gelou. Ficou absolutamente frio. Reação que eu não só já conhecia, como era o meu normal em situações limite. Algo que meu pai chamava de “frieza clínica”. Minha vontade foi sair correndo dali.

E o mais irônico é que se tivesse sido diferente, se ela não tivesse bebido, se não tivesse dito a frase de forma absurdamente desesperada, suplicante e... Não consigo definir... Provavelmente teria sido muito diferente o que se seguiu.

Diante da minha reação, ou melhor, minha ausência de reação, Bruna bebeu a outra garrafa quase sozinha. Ficou ainda mais alterada, implorou mais ainda. A ponto das pessoas olharem para mim.

Paguei a conta, apesar de ela insistir em ficar. Tive que carregá-la, porque estava incapaz de se equilibrar o suficiente para caminhar sozinha.

- Sem chance de você dirigir.

Ela me olhou, fazendo um esforço visível. Balbuciou:

- Meu carro...

Sem hesitação respondi:

- Deixa aí.

Ela morava a dois quarteirões. Distância que pareceu longíssima.

Tive que arrastá-la. Primeiro porque Bruna resistia e gritava:

- Não quero ir pra casa!

Depois porque começou a passar mal e teve que parar várias vezes para vomitar. Meu All Star e a barra da minha calça respingados enquanto eu afastava os cabelos dela e a segurava para não cair.

Impossível não reparar na ironia muito mais do que cruel do destino:

- Foi assim que começou, é assim que termina...



***

Não voltei a ver Bruna depois disso.

Tive notícias por alguns atores do espetáculo de quem ela tinha se tornado amiga.

Bebendo demais, se drogando demais, chorando demais... Por mim.

- Como você é insensível!

Sempre me espanto com a capacidade que algumas pessoas têm de atirar uma frase dessas na cara de outra e ainda se dizerem sensíveis, mas...

Deixa assim...

Vamos fingir que no fundo de cada mortal comum não existe uma parte que é abusivamente filha da puta e egoísta.

Que o certo é a visão maniqueísta que reduz a complexidade do universo, do mundo, do ser humano à simplicidade com que se separa o joio do trigo.

Não cedi.

Apesar da pressão quase maciça.

Toquei minha vida da melhor forma possível.

Pelas frases que perderam o efeito de tanto serem repetidas, o que eu merecia era o pior de todos os fins, porém...

Ao invés disso, recebi uma ótima notícia.

Tinha sido selecionada para representar o Brasil, e na verdade toda a América Latina, num seminário de teatro para crianças e jovens na Alemanha. Hannover, para ser mais precisa.

Fui buscar o passaporte meio como quem não acredita.

Uma viagem dessas, toda paga pelo governo Alemão, com alimentação e estadia, para quem trabalhava com teatro, algo absolutamente desprezado no Brasil... Inédito... Fantástico... Oportunidade de uma vida!... E logo da minha...

A pessoa que por todas as merdas que já tinha aprontado, menos merecia...

- Bobagem!

Foi o que Sancho disse.

- Vai e aproveita o velho mundo! Depois quero saber tudinho, tim tim por tim tim!



***

E foi assim, com a cara e a coragem, confiando no meu inglês de IBEU e Telecine, e o melhor dos meus sorrisos, que me aproximei da alemã que no aeroporto segurava a plaquinha com o meu nome escrito.

Cathrin.

Fiquei sabendo o nome dela, depois. Produtora do evento. Se fosse brasileira, eu teria certeza: era colega.

Mas em se tratando de devires alemães, não tinha como dizer se minha suspeita era certa ou não.

Até ficar bem amiga de uma das participantes do seminário, uma loirinha alemã que eu até me interessaria se não fosse o fato dela ter... Bem... Como dizer isso de forma não ofensiva?

Bom...

Ela...

Não depilava as axilas.

Apostos à parte, a loirinha... Betina, ou como preferia ser chamada: Beti... Confidenciou-me que tinha tido um casinho com Cathrin em Berlim, onde ambas residiam.

Eu até senti vontade, mas... Não fazia idéia de como investir.

Não conseguia ler os sinais, ficava insegura e... Bem... Ela era, sem sombra de dúvida, diferente de tudo o que eu conhecia.

No fim, terminei o seminário no zero a zero, tentando me convencer de que tudo bem, não era mesmo para isso que eu estava ali.

Decidi conhecer Berlim, porque afinal de contas, já estava pertinho, e tinha sido convidada para ficar no apartamento de Beti.

Mas numa tarde de folga, passeando numa cidadezinha linda chamada Lüneburg, fiz um novo desvio no meu destino.

Conversando com Rafi - o participante de Israel tão gato que todas as mulheres davam em cima, mas que rapidamente cortou o assédio anunciando: sou gay e casadíssimo! – que disse estar indo para Amsterdã, ficar na casa de uma amiga, e ao ver meu interesse, propôs:

- Quer vir comigo?

Concordei sem hesitar, porque... Tinha o que pensar?

Amsterdã é... Bem... A Disney dos homossexuais!

Combinei com Beti ir para Berlim depois, e peguei o trem com Rafi toda feliz.

Sem desconfiar do que me esperava na lendária cidade dos canais...

Um comentário:

  1. Lilo Oliveira disse...

    Gastando cada vez mais!
    esperando...
    (chega logo sexta-feira) (yn) rsrsrs

    Beijão, Diedra!
    ◄ Responder Comentário 24 de janeiro de 2011 16:45
    Aninha aruen disse...

    Amsterda....adoro....curiosa pra saber o q vai rolar lá...quanto a menina das axilas nada q um gilete ñ resolva...kkkkk bjs enorme Di!!
    ◄ Responder Comentário 24 de janeiro de 2011 20:57
    Chester Perdigão disse...

    Nossa senhor...mulher de bigode nem o diabo pode...Imagina nas axilas?!XD
    Mulher cabeluda não dá!^^
    Agora...vc me deixou curiosa com esse finalzinho hein!!!
    Tomara que essa semana passe beeeeeeem rápido!XD

    Bjs Di
    ◄ Responder Comentário 24 de janeiro de 2011 21:59
    THATHA disse...

    QUEM SERA ???? DESSA VEZ EH CUIRIOSA HEHE
    ◄ Responder Comentário 25 de janeiro de 2011 02:49
    Mery disse...

    "Vamos fingir que no fundo de cada mortal comum não existe uma parte que é abusivamente filha da puta e egoísta."

    AMEI !

    Bjo.
    ◄ Responder Comentário 26 de janeiro de 2011 12:13
    Natália disse...

    Hum... Amsterdã... Tudo de bom! Você sabe fazer um suspense! rrss...
    Espero que o próximo capítulo seja tão bom quanto os outros! E torcendo pra que essa alma seja achada, uai!
    ◄ Responder Comentário 28 de janeiro de 2011 11:47
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Lilo Oliveira
    BJ mega imenso!
    ◄ Responder Comentário 29 de janeiro de 2011 11:50
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Aninha aruen
    Amsterdã é TUUUUUUUUUDO!!!
    BJ hiper imenso!
    ◄ Responder Comentário 29 de janeiro de 2011 11:50
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Chester Perdigão
    kkk
    Peruca debaixo do braço só o Didi, né?
    rsrs
    BJ ultra imenso!
    ◄ Responder Comentário 29 de janeiro de 2011 11:51
    DIEDRA ROIZ disse...

    @THATHA
    BJ ultra imenso!
    ◄ Responder Comentário 29 de janeiro de 2011 11:52
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Mery
    Ah, eu sabia que vc ia gostar!
    A sua cara essa frase, hein, minha amiga?
    HUM!
    Tsc tsc!
    Esse lado existe, mas não é o único, né? O grande lance é não valorizá-lo, pra ele não ficar inflado... kkk
    BJ muito mais do que imenso!
    ◄ Responder Comentário 29 de janeiro de 2011 11:53
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Natália
    Espero que goste do próximo!
    Em Busca da Alma Perdida?
    kkk
    Amsterdã é algo, né?
    BJ super gigantesco!
    ◄ Responder Comentário 29 de janeiro de 2011 11:54
    Natália disse...

    Se a alma está perdida, uma hora aparece! rrss...
    Saudades imensas do Museu de Van Gogh e das feiras de queijo!
    Gostando muito do blog!Bjos
    ◄ Responder Comentário 29 de janeiro de 2011 17:54

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