terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parte 21

Os olhos podem enganar, mas não eternamente


O desejo de querer mais.
Algo que sequer se sabe o que é.
Como buscar?
Impossível, a menos que se descubra o que se quer encontrar.
A falta, a ausência, o vazio.
Sem nenhum sentido, e ainda assim presente e palpável.
Como algo material.
Se existe destino - e isso é algo que eu não posso afirmar - foi assim que de repente me vi movida a... Tentar fazer da minha vida alguma coisa além do que simplesmente respirar.
Bruna...
Linda menina.
Eu não estava apaixonada, mas... Pouco a pouco, sem muito sacrifício, o carinho e cuidado que sempre senti por ela me levou a amá-la.
Um namoro límpido. Sem grandes ansiedades, expectativas, nem mágoas.
Tranquilo.
Como água parada.
Que no final sempre termina por estagnar.
No início só ficávamos. Ela também tinha saído de um relacionamento complicado.
Não estipulamos nada. Quando queríamos nos encontrávamos.
Foi o tacitamente combinado. Acordo sem palavras aparentemente coerente. Independente de qualquer coisa que não fosse a nossa vontade.
Vontade essa que se estabeleceu, desde o primeiro dia, como diária.
E assim, três meses se passaram. Com tanta suavidade que mal foram notados.
Foi numa viagem com o espetáculo em que eu estava – aquele “Romeu e Julieta” que antes tanto me incomodava e que então passou a me causar uma leve e quase prazerosa sensação nostálgica – para um festival de teatro em Minas, onde tive meu primeiro insight.
Fazendo compras com uma atriz e um ator que eram recém casados. Os dois felizes, de mãos dadas, comprando entre beijos um abajur artesanal todo de bambu para colocar no... Na...
Começaram a discutir o melhor local enquanto eu os observava atentamente com...
Inveja?
Pouco.
Simplório demais para definir a sensação que senti ao perceber que eu não tinha com quem dividir a decoração de uma casa.
Para completar, depois de mais um beijo gosmento e absolutamente apaixonado, os dois me perguntaram:
- Por que você não trouxe a sua namorada?
Gaguejei sem conseguir completar:
- A Bruna não é...
E os dois riram da minha cara:
- Ah, não? Então tá...

***
Caí nos braços dela assim que Bruna abriu a porta.
Era tarde, mas felizmente, a irmã dela não estava, tinha ido dormir na casa do namorado, ou coisa que o valha.
Deixei que as palavras me guiassem:
- Senti saudade...
Ela respondeu sussurrando na minha boca, sem me largar:
- Eu também... Tanta que pensei que não fosse aguentar...
O beijo que se seguiu foi quase mágico. Preenchido por mais do que o simples encontro das línguas, bocas e lábios.
Quando nos separamos, peguei na bolsa um pacotinho que tinha levado meio sem saber se teria coragem de entregar. Nada demais. Uma miniatura de fogão a lenha onde estava escrito: “Lembrança de Baependi/MG”.
Bruna sorriu, iluminando todo o kitchnete 4 por 4, e disse:
- Lindo!
Minhas palavras saíram com certa dificuldade. Muito menor do que a que eu esperava, claro:
- Quero mais do que só ficar...
E ela:
- Pensei que você nunca fosse falar...
O sofá cama sem abrir foi testemunha de nossa primeira vez oficialmente como namoradas...




***




Eu estava feliz. Apesar de alguns conflitos inevitáveis.
O primeiro deles: o ex e a ex que continuavam sempre atrás.
Rapidamente dei o cheque mate:
- Assim não dá.
Ela concordou imediatamente:
- Tudo bem, eu vou cortar.
E cumpriu com a palavra.
Mais do que isso: passou a não desgrudar de mim, nos tornamos inseparáveis.
Comecei a ensaiar um novo espetáculo e ela entrou na companhia como uma espécie de faz-tudo voluntária. Tirava fotos, filmava, ajudava a pintar os cenários.
Não ganhava nada, mas para compensar viajou comigo e o resto do elenco para o Festival de Blumenau e foi...
Incrível.
Nenhuma discussão, ataque de ciúmes, ou brigas.
Pelo contrário. Chegava a parecer doce o sabor da rotina.
E assim, quase dois anos se passaram.
Porém, as coisas...
Começaram a mudar?
Não. Minha ebulição interna é que voltava a novamente a transbordar.
A presença constante dela começou a me sufocar.
Não que Bruna fizesse ou dissesse algo demais. Eu é que era... Ou melhor... Não era, não conseguia ser na frente dela quem eu era de fato.
Como explicar?
Por que diabos eu mostrava algo diverso do que o meu interior necessitava?
Como por exemplo... Ficar sentada do lado dela quieta, quase sem dar uma palavra, quando minha vontade mesmo era andar pela mesa gigante de amigos e conversar um pouquinho com cada um como faria se estivesse sozinha.
Eu passo.
Não sei, não consigo explicar.
Evitar as caras feias? Reclamações do estilo:
- Você não me deu atenção a noite inteira?
Minha opção de evitar aborrecimentos só fazia me aborrecer ainda mais.
Mas eu nunca, jamais iria terminar. Acomodada que estava pela ofuscante beleza da aparência de um relacionamento perfeito, fantástico, que todos invejavam.
Então, na véspera da estréia de mais um novo espetáculo, me recusei a ir com Bruna no aniversário de uma das amigas dela da faculdade.
Queria descansar, além de não estar com a menor vontade de aturar o que sempre acontecia nas festas desse pessoal: o uso de bebida e drogas fora do normal.
Já estava dormindo quando Bruna me ligou, com a vozinha já tão minha conhecida de chantagem:
- Tô passando mal. Não tenho condições de dirigir o meu carro...
Confesso que não fui muito legal:
- Pega um taxi.
Ela insistiu:
- Tô muito mal...
Suspirei exasperada. Tentando me acalmar. Sem muito resultado:
- Você sabe que eu não sei dirigir...
E ela pediu:
- Vem me buscar...
Fui inflexível:
- Bruna, tá super tarde, e amanhã tenho espetáculo...
Fazendo com que ela perdesse completamente a calma:
- Se você não vier me buscar agora, tá tudo terminado!
Respirei fundo, tentei ser razoável. No fundo, estava com muita raiva:
- Tem certeza do que você ta falando?
As palavras dela foram gritadas:
- Ou você vem ou é o fim, tá?
Foi com uma satisfação cruel e inegável que respondi:
- Então tá.
E desliguei sem dizer mais nada.




***




O constrangimento no camarim quando me perguntaram:
- Cadê a Bruna?
E eu respondi:
- Nós terminamos.
Sem desviar os olhos do espelho enquanto me maquiava não me afetaram.
A visão de Bruna atrás do tripé da câmera na platéia – apesar de tudo ela foi filmar o espetáculo – muito menos.
Na verdade, senti um alívio imenso quando ela não me dirigiu a palavra. Mais ainda ao saber que não ia sair conosco para comemorar.
A tática de Bruna – fingir que eu não existia – até poderia ter funcionado.
Se a falta que eu sentisse dela fosse maior do que a que eu sentia de mim mesma.

Um comentário:

  1. Anônimo disse...

    Sexta e mais um capítulo maravilhoso. Realmente, quando não somos nós numa relação fica difícil mantê-la e as duas ainda duraram...
    Aguardando ansiosamente cenas do próximo capítulo.
    Ass.: Lalá
    ◄ Responder Comentário 21 de janeiro de 2011 12:57
    Anônimo disse...

    Incrível como um relacionamento pode fazer com que nós deixemos de ser nós mesmos e fazer com que vivamos aquém do que poderiamos viver.
    ◄ Responder Comentário 21 de janeiro de 2011 14:13
    Tibet disse...

    Já fiz muito isso... de ser mais light pra não constranger ou causar mal entendidos...! como se houvesse uma bula de comportamento apropriado e esperado!o tal preço que se paga!mas tá errado, cada vez que a gente age diferente do que agiria a gente mesmo estabelece uma imagem que não corresponde! depois a gente não aguenta e acaba ferindo com explosões de sufocamentos que nós mesmo criamos! haja experiência pra gente entender quem é realmente e do que precisa pra ser feliz e se sentir na propria pele!aí fica mais fácil pagar estes novos preços!
    ◄ Responder Comentário 21 de janeiro de 2011 15:42
    Aninha aruen disse...

    tranquilo demais esse relacionamento,tá mais para uma amizade mesmo...muito bom esse capitulo,é tanto relacionamento que eu to curiosa em saber qual vai dar certo no final...bjs enormes!!!!
    ◄ Responder Comentário 21 de janeiro de 2011 22:05
    Val disse...

    Gostando muitissimo do conto, Diedra!
    ◄ Responder Comentário 22 de janeiro de 2011 15:20

    ResponderExcluir