terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parte 20

O fim pode ser o começo. Só depende do olhar...


- Não dá mais. Quero terminar.
Fiquei parada, o fone grudado no ouvido, sem conseguir respirar. Em estado de choque, por não poder, nem querer acreditar que Olívia estava realmente dizendo aquilo.
Infelizmente, era a pura – e crua – verdade:
- Não dá mais.
Tentei argumentar. Chorei, implorei, sugeri pegar o primeiro avião para Porto Alegre para conversar pessoalmente, mas ela foi implacável:
- Acha que isso vai resolver? Você passar uns dias aqui e depois voltar pro Rio?
Inquestionável. Namorar à distância... Segundo ela:
- Impossível. Não quero mais.
Desespero. Tortura, loucura.
Pensar em ficar sem ela...
Doía, ardia, queimava.
Sufocante como me afogar... Em um copo d’água.
- Você tem outra?
Foi a pergunta absolutamente babaca que consegui formular.
Ela riu, sem parar de soluçar do outro lado. Antes de responder:
- Claro que não.
Um masoquismo cruel tomou conta de mim. Questionei tudo que tínhamos nos dito, feito e falado até então.
No fundo, a pergunta que realmente me atormentava era:
- Você ainda me ama? Ou não?
Um suspiro profundo. Seguido de uma pausa. Como se ela enxugasse as lágrimas. E subitamente se tornasse inalcançável:
- Isso não importa mais.


***
Os dias que se seguiram...
Uma espécie de névoa embaçava. Impressão de irrealidade. Como se eu operasse no automático.
Não voltei a ligar para ela. Olívia também não me procurou mais.
Cláusula tácita da última frase antes de desligarmos:
- Melhor evitar qualquer tipo de contato. Para não sofrermos mais.
Porém, a ausência forçada não trazia nenhuma espécie de alívio. Pelo contrário. Uma inquietude acima do normal fazia meu coração pulsar mais rápido. Como se na taquicardia meu corpo tentasse vencer a apatia em que havia mergulhado.
- Chega!
Foi o que Sancho disse, arrancando da minha mão o quinto cigarro que eu tinha acabado de acender no anterior.
- Existem formas mais fáceis de se matar!
Aquilo me irritou:
- Me deixa em paz, viado!
Não queria nenhum tipo de interferência que castrasse minha incoerente expressão de dor.
Sancho gostou:
- Finalmente, uma reação! Já estava a ponto de perguntar: quem é você, e o que fez com a minha amiga, sua alienígena invasora de corpos?!
Eu ri... Junto com ele.
A primeira vez depois de dias.
Depois... Caí no mais profundo e incessante choro. Coisa que também não tinha conseguido fazer até então.
Sancho me abraçou com força. Sussurrou:
- Sei que não adianta dizer, mas... Vai passar.
Concordei com a cabeça, sem conseguir fazer outra coisa além de soluçar.
Sancho não foi para casa. Dormiu comigo, na minha cama. Abraçando e embalando-me. As lágrimas só cessando porque meus olhos finalmente cederam a exaustão e se fecharam.


***
Sancho tinha razão. Realmente, por incrível que pareça, tudo passa. Até coisas que em determinado momento nos fazem pensar que são capazes de nos matar.
Tentei compensar mergulhando de cabeça no trabalho.
Infelizmente, o espetáculo que eu estava ensaiando era... Romeu e Julieta. Pouco ou nada ajudava.
Minha única satisfação era no final, quando os malditos amantes de Veneza se matavam...
Tito colocou na cabeça que eu tinha que sair com a tal da amiga dele da faculdade. A da porta da boate. Bruna...
- Ela é perfeita pra você!
Sancho ajudava:
- Não custa tentar... Já que você gosta de pirralhas...
Bruna e Olívia tinham a mesma idade.
Fui vencida pelo cansaço:
- Tudo bem. Sexta vou com vocês na Bunker. Mas não prometo mais nada.
Tito ficou saltitante:
- Fechado! A Bruna estará lá!


***
Era eu? Ou aquela boate estava insuportável?
Olhei em volta. Suspirei alto. Do meu lado, sempre sorridente, Bruna perguntou:
- Você tá bem?
Fiz que sim com a cabeça. Entediada. Do outro lado dela, uma outra garota e um rapazinho – todos tão novinhos que me davam vontade de chorar – que Bruna apresentou como:
- Minha ex e o meu ex. Eles não me largam.
Não deixava de ser engraçado. Os dois ficavam realmente atrás dela, tentando chamar atenção. Competindo por ela.
- Capachos!
Não tive como deixar de pensar.
E logo depois... Confessar para mim mesma que provavelmente, por Olívia, eu também seria capaz de me deixar pisar...
A empatia repentina me fez olhar para os dois com outros olhos. Misto de compreensão e piedade.
Foi quando do nada, Bruna me beijou nos lábios.
Correspondi sem muita vontade. Fazendo com que o beijo se tornasse breve e rápido. Bruna me olhou, um pouco sem graça... E depois beijou a ex e o ex. Um depois do outro. Como se fosse a coisa mais natural.
Um pouco demais...
Ou era eu que estava mudada?
Fosse o que fosse, me senti um peixe fora d’água.
Procurei e achei Tito fumando um baseado perto da porta do banheiro:
- Vambora?
Ele quase engasgou:
- Já? Cadê a Bruna?
Minha resposta saiu sarcástica:
- Se pegando com os ex namorados...
Não precisei insistir mais. Tito se prontificou a me levar para casa.
Assim que fechei a porta do carro, Bruna veio correndo e gritando:
- Ei! Espera!
Olhei para ela através do vidro da janela. Suada, esbaforida, o azul dos olhos cintilando. Sozinha, nem sinal da corte que a acompanhava:
- Pra onde você vai?
Respondi de forma intencionalmente antipática:
- Pra casa.
Ainda assim, ela sorriu e pediu:
- Posso ir com você?
Sem noção. A garota só podia estar drogada. Na mesma hora tive a confirmação:
- Desculpa... Eu não sou doida assim, é que eu... Tomei um ácido...
Francamente? Muita viagem...
Obviamente, não fazia sentido, nem eu tinha a menor intenção de levá-la para casa, ou qualquer outro lugar que fosse. Mas preferi amenizar, não dizendo a verdade:
- Outro dia, quem sabe.
Bruna pareceu satisfeita:
- Tá.
Virou e saiu correndo de volta para a boate.
Tito apenas disse:
- Não esquenta. Tenho outras amigas pra te apresentar.
Deixei escapar um irônico:
- Não, obrigada!


***
Um mês passou rápido. Sem que nada ou ninguém me interessasse.
Trabalhei muito, chorei mais ainda, bebi e fumei um tanto quanto demais.
A ponto de Sancho esconder a garrafa de Vodka que passei a manter – comprava uma nova antes que a antiga acabasse – no meu quarto.
- Tá virando alcoólatra agora?
Coloquei um piercing na sobrancelha esquerda. A dor física breve demais para o que eu realmente buscava: expurgar um pouco a emocional.
Fora isso o nada. Que tinha passado a me acompanhar? Não. Sempre havia estado lá. Eu apenas... Não enxergava.
E então...
Numa das muitas noites iguais, em que eu estava com Tito e Sancho numa festa, encontrei Bruna de novo.
Ela me cumprimentou muito sem graça. Totalmente diferente da vez anterior:
- Você deve me achar louca, né?
Fiz que não com a cabeça. Sem convicção nenhuma. Deixando claro que o que ela tinha dito era a pura verdade.
Bruna deu uns goles no copo que segurava.
Cachaça? Vodka?
Bom, com certeza não era água...
Como se tomasse coragem para falar:
- Naquele dia eu... Não tava no meu normal... Mas... Gostei de você e... Sei lá... Quem sabe nós...
Foi interrompida por Tito, que ofereceu um baseado enquanto perguntava:
- E aí? Se acertaram?
Rimos juntas. Estabelecendo uma espécie de cumplicidade.
Conversamos e dançamos a noite toda. Mais nada.
Na verdade, até senti vontade de beijá-la, mas... Não sei... Faltava algo.
Bruna me olhava, jogava indiretas, se atirava, e eu nada.
Até que em determinado momento, foi de uma franqueza declarada:
- Quero te beijar.
E sem esperar resposta, concretizou a vontade.
Ficar com ela trouxe uma estranha e confusa dualidade de sentimentos.
Desejo, claro. Ela era bonita, inteligente, interessante, mas... Eu não estava apaixonada. E incrivelmente, esse detalhe – antes tão pequeno e irrelevante – tinha passado a ter uma importância fundamental.
A tal ponto que fiquei aliviada quando Bruna me disse:
- Não tô me sentindo bem...
Levei Bruna ao banheiro. Entramos juntas no reservado. Assim que tranquei a porta, ela curvou o corpo num espasmo, e começou a vomitar na privada.
Segurei o cabelo castanho claro, evitando que Bruna o sujasse. Coloquei a mão na testa dela, amparando-a, sem me incomodar com o suor frio nem com outros detalhes nada agradáveis.
E foi então, naquele banheiro, sentindo uma empatia indescritível por aquela menina quase desconhecida passando mal, que finalmente percebi que começava a reencontrar algo que sequer sabia que tinha perdido: a minha alma.

Um comentário:

  1. Natália disse...

    Caramba...
    Parabéns pelo capítulo!
    Abraços!
    ◄ Responder Comentário 17 de janeiro de 2011 17:26
    Aninha aruen disse...

    muito bom,to rindo aqui da menina com os ex kkkkkk,isso é mais comum do que eu pensava(conheço casos assim...rsrsr) bjs enormes Di!! ^^
    ◄ Responder Comentário 17 de janeiro de 2011 21:18
    Chester Perdigão disse...

    NOSSA MAIS QUE CAP FOI ESSE!
    Primeiro eu levo um susto com o rompimento das duas. Que alias me deixou triste. :/
    ai depois ela conhece a nega doida que anda com os ex.*o*

    Mas esse cap foi maravilhoso, interesante e...me deixou muito ansiosa pro próximo
    Bjs Di
    ◄ Responder Comentário 18 de janeiro de 2011 18:35
    Tibet disse...

    pode parecer brega ou lugar comum... mas por que a grande maioria de nós precisa sofrer e fazer sofrer, chorar,destruir,se por do avesso pra só então exaustos da ilusão e da mediocridade começarmos a pensar no que queremos e no que não queremos!no que faz bem e no que não faz!Aonde está o erro?
    ◄ Responder Comentário 18 de janeiro de 2011 18:39
    Anônimo disse...

    Oi diedra estou adorando teu conto muito bom como tudo que vc escreve,principalmente essa parte gaúcha kekekekekek é muito dolorido quando se perde um amor parece que vc nunca mais vai amar.Mas tudo passa ainda bem. bjs RÔ
    ◄ Responder Comentário 19 de janeiro de 2011 17:

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