terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parte 19

Mudar pode ser sofrido. Porém, inevitável...


Aquele foi um dia seguinte muito diferente de todos os outros.
Em várias e diversas maneiras e sentidos.
Acompanhei Olívia até a esquina assim que acordamos – ela precisava ir para casa – com um misto de cuidado, receio e felicidade.
Uma dorzinha inexplicável, absolutamente desprovida de sentido quando ela ficou fora do alcance da minha vista.
Apaixonada?
Sim, eu estava.
Não podia – nem queria – negar.
Coloquei as mãos nos bolsos e caminhei de volta ao Apart-hotel olhando para meus próprios sapatos.
Pensando...
Quebrando a cabeça...
A cada passo.
Tentando de alguma forma entender ou resolver aquele medo que me dominava.
Eu ia embora no dia seguinte.
Como? Não conseguia imaginar.
Dei de cara com Sancho na recepção. Indo tomar o café da manhã:
- Vamos?
Respondi sem desviar minha direção do quarto vazio que lá em cima me esperava:
- Tô sem fome.
Sancho veio atrás de mim, preocupado:
- Que foi?
Saiu com muita facilidade:
- Tô pensando em ficar mais uns dias. Trocar a passagem, ainda dá tempo.
Ele nem hesitou:
- Vou ficar com você.
Perfeito, porque... Eu mal conhecia a cidade. Olívia tinha cursinho pré vestibular durante a tarde, não poderia dormir comigo todas as noites por causa dos pais e... Estar com Sancho nunca era menos do que bom demais.
Ainda assim contestei:
- Não precisa.
Mas ele, com aquele jeitinho de sempre:
- Deixa de ser metida, sapinha. Não é só por você. Também conheci um cara.
Sorriu. Fiz o mesmo. Fingi acreditar na desculpa esfarrapada. Plenamente consciente de que a intenção dele, como sempre, era me proteger e apoiar.
Inevitável o abraço...


***
Ficamos.
Uma semana a mais.
Muito pouco perto do quanto eu queria estar com ela. Na verdade, algo que me fazia entender pela primeira vez o real sentido da palavra eternidade.
Dividi com Sancho um quarto num hotel barato no Centro de Porto Alegre. Mais uma pensão. Espelunca onde de noite as prostitutas levavam os caras. Fizemos amizade com algumas delas. E com o ajudante da gerente, um travesti muito novinho, super engraçado, cujo sonho era juntar dinheiro para colocar silicone e ter “peitos de verdade”.
Passamos o final de semana em Gramado.
Sancho ficou dois dias com o tal cara que tinha conhecido. E depois teve um casinho com um amigo de Olívia, que acabou não dando em nada.
E assim, a semana passou rápido.
Na outra sexta feira estávamos no aeroporto – no sábado tínhamos espetáculo no Rio - embarcando muito contra a minha vontade.
- Quando nos veremos de novo?
Essa era a dúvida, o pavor, a pergunta básica.
- Finados.
Foi o que ficou combinado.
Era Setembro. Longe demais para minha necessidade.
Mas era o que possível no momento.
Nos despedimos sem lágrimas.
Só chorei depois do Raio X do portão de embarque. Com Sancho me abraçando, tentando em vão me consolar. Meu celular tocou. Era ela:
- Como você tá?
A resposta triste continha todas as verdades:
- Como você acha?
Olívia sussurrou do outro lado:
- Também não consigo parar de chorar...
Um sorriso. Num momento daqueles, só ela seria capaz de me arrancar.
- Gaúcha...
- O que?
Não parei para pensar. Deixei escorregar pela minha garganta, boca e sair pelos lábios o que meu coração guardava:
- Eu amo você...
Sem me importar em ser a primeira a falar, se ela ia me achar louca, ridícula, sem noção, ou qualquer outro tipo de bobagem.
Uma breve pausa. E a frase que me fez suspirar maravilhada:
- Também te amo, carioca...


***
Namorar à distância.
Só quem já experimentou sabe como é de verdade.
As dúvidas, as incertezas, as angústias, o vazio, o medo, o sofrimento, a saudade implacável. Querer alguém o tempo inteiro e simplesmente não poder ter.
Mudei completamente o meu comportamento. Recusava todas as festas e baladas. Desapareci da night.
Falava com Olivia diariamente por telefone, pontualmente após a meia noite badalar. Horário em que o pulso do telefone era bem mais barato. Como uma abóbora ao inverso, que naquele horário certo voltasse à vida, o coração batendo, o sangue nas veias a palpitar.
Depois desligava insatisfeita, querendo mais, muito mais. Contando os dias para encontrá-la.
Fui para Porto Alegre no Finados.
Passamos ano novo em Itajaí, Santa Catarina. Na casa de um amigo meu de Blumenau. Depois Porto Alegre de Novo.
Carnaval no Rio e então...
Nada.
As finanças de ambas completamente arruinadas, eu ensaiando um novo espetáculo, ela começando a faculdade. Nenhuma possibilidade de viajarmos e nos reencontrarmos antes de Julho. Como um horizonte muito distante, inatingível. Doce e angustiante presença do nada.
Volta e meia Sancho passava de noite na minha casa, na tentativa vã de me levar para a farra:
- Fala sério, amiga! Quando era casada ficava com todas, e agora que sua namorada está a quilômetros de distância resolveu virar santa?
Como explicar? Que não era uma questão de distância. Muito menos de ser ou não vigiada. Olívia era a única que eu queria. As outras já não interessavam.
Sancho ria das minhas afirmações apaixonadas. Segundo ele:
- Piegas e alucinadas!
Até que um dia, tirou o telefone da minha mão e falou com Olívia:
- Olha só: sua namorada não sai mais de casa. Fica aqui trancada chorando, parece um daqueles poetas do romantismo, sabe? É deprimente! Faz alguma coisa, gata!
Depois de ouvir o que ela falava do outro lado, ele me estendeu o fone de volta, com um sorrisinho vitorioso nos lábios.
Olívia então me disse:
- Não quero que você fique trancada em casa.
Tentei justificar:
- Mas...
Ela não me deixou completar:
- Sai com seu amigo. Se diverte. Por mim. Vai.
Obedeci, sem muita vontade.


***
Encontramos Tito na fila para entrar na boate. Com um amigo. Os dois batendo Special K na mão e cheirando. Olhou para mim e sorriu:
- Uau! Quem é vivo sempre aparece, não?
E para Sancho:
- Como conseguiu tirar ela de casa?
Sancho aproveitou para implicar:
- Segredo de melhor amigo.
Mas Tito fingiu ignorar. Virou-se novamente para mim:
- Pô, mas vai ficar a noite toda com essa cara? Assim não dá! Pera, já sei como te animar.
Voltou logo depois, acompanhado de uma garota que parecia ser muito novinha. Toda fashionzinha, dois imensos olhos azuis que grudaram em mim enquanto Tito apresentava:
- Essa é a Bruna. Faz comunicação comigo na PUC.
Cumprimentei a menina educadamente:
- Oi.
Mas não puxei assunto. Ela ficou me olhando e sorrindo, também sem falar nada. Depois se despediu, e foi embora, com a desculpa de que estava com uns amigos.
Tito ficou indignado:
- Cara, como assim? Não achou ela gata?
Não adiantou eu tentar explicar:
- Cara, eu tenho namorada.
Tito deu uma gargalhada:
- Isso nunca te impediu antes.
Meu passado... É, me condenava.
Porém, eu estava... Numa nova fase?
Ninguém entendia, nem acreditava. Nem eu.
No entanto, não existem regras, padrões, comportamentos pré-fixados. Não quando lidamos com afeto, amor, paixão. Exatamente como as pessoas: não existem duas iguais.
Olhei para Sancho e exprimi a minha real vontade:
- Vou pra casa.

Um comentário:

  1. Lilo Oliveira disse...

    Quanto mais eu leio mais aumenta minha vontade de continuar a ler...

    adorando!

    Beijão, Diedra!
    ◄ Responder Comentário 14 de janeiro de 2011 14:30
    Natália disse...

    Uau, que mudança de vida, hein?! Bacana! Adorando, como sempre!
    Bom fim de semana! Vou viajar de lua-de-mel (1 semana depois! rrsss...)!
    Bjos
    ◄ Responder Comentário 14 de janeiro de 2011 16:41
    Aninha aruen disse...

    pessoa apaixonada apesar de as vezes triste é muito fofa....to adorando a atitude dela de ñ sair e de respeitar ...bjs enorme Di!!
    ◄ Responder Comentário 14 de janeiro de 2011 22:56
    Tibet disse...

    Ainda bem que tudo muda o tempo todo... só assim podemos crescer e experimentar a vida e nela nos encontrarmos.Amo todas estas reviravoltas e possibilidades abertas! bjs
    ◄ Responder Comentário 14 de janeiro de 2011 23:17
    Anônimo disse...

    Não dá pra não comentar: Esse capítulo descreve um capítulo importante da minha vida! PERFEITOOOOOOOOO! Parabéns! Nykha
    ◄ Responder Comentário 14 de janeiro de 2011 23:39
    Val disse...

    AMANDO, Diedra. Muito fofa essa relação das duas;)
    ◄ Responder Comentário 16 de janeiro de 2011 18:47
    Chester Perdigão disse...

    "...parece um daqueles poetas do romantismo, sabe? É deprimente!..."
    Dei muita risada com isso!XD Mas não posso falo muito pq fico até pior!XD

    Está tão lindo o romance delas!*-*
    To amando!!!

    Bjs Di
    ◄ Responder Comentário 18 de janeiro de 2011 17:02

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