terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parte 16

Agir sem pensar pode causar sérios arrependimentos


Os amigos de Olívia estavam sentados no  primeiro andar, ao redor de uma das mesas do lado de fora.
Ela me apresentou, e assim que eu abri a boca perceberam:
- Carioca?
Fiz que sim com a cabeça. Um dos amigos falou:
- Adoro sotaque carioca. Fala alguma coisa para eu ouvir?
Existe algo pior do que isso?
A pessoa pensar que você é algum tipo de papagaio, ou sei lá o que? Pedir:
- Fala alguma coisa aí!
Respondi, muito contrariada:
- Falar o que?
O subtexto estava quase explícito:
- Se manca, meu filho!
Olívia, numa irritação tão grande que eu não entendi, interferiu:
- Te toca! Tri ridículo isso.
O fã de sotaque carioca ficou mordido. Talvez por isso tenha dito:
- Não te faz! Como se também não quisesse ouvir... Bem no teu ouvidinho...
Ela mandou, sem se importar comigo:
- Se eu gostasse de chiado namorava uma chaleira, bicha!
Não que eu fosse bairrista, ou algo do gênero, mas... Senti-me um tanto quanto ofendida:
- Como é?
A gaúcha não pediu desculpas. Pelo contrário:
- Cariocas chiam.
Foi demais para mim:
- Vocês gaúchos é que cantam, falam super esquisito.
O risinho que ela ostentou nos lábios me fez ter total consciência de que eu tinha chiado sim, e muito.
Completei:
- Já que vocês insistem em falar “tu”, porque não conjugam o verbo direito? Não é tu vai, é tu vais, ok?
A gaúcha retrucou com um:
- Por que cariocas se acham?
Eu estava em desvantagem numérica. Verdade. Mas esqueci completamente de todo o resto. Até de que falar mal de gaúchos no meio de um monte deles era suicídio, no mínimo:
- Isso é projeção. Vocês é que se acham melhores que todo o resto.
Alguém da mesa gritou:
- Porque somos melhores mesmo!
Ela sorriu com superioridade. Eu prossegui:
- Pois fique sabendo que essa cidade é uma bostinha perto do Rio!
É, eu poderia ter apanhado. Mas não aconteceu.
A gaúcha riu na minha cara, e replicou:
- Porto Alegre é muito maior e melhor do que o Rio de Janeiro.
O quê? Era só o que faltava, né?
Sem nem parar para pensar o quanto aquilo tudo era ridículo, a maior besteira, me deixei levar pelo calor do momento:
- Que absurdo! O Rio é muito maior e melhor! É a cidade maravilhosa, baby!
Os olhos verdes me lançaram raios gélidos, de puro desprezo, antes da gauchinha dizer:
- Isso. Continua te achando mesmo...
Todos riram. E eu:
- Vou indo.
Dei dois beijinhos em Renato:
- Adorei te conhecer.
Ele respondeu, meio sem saber o que fazer:
- Eu também.
E sem voltar a olhar para ela, me retirei.

***
Sancho ouviu tudo calado. No fim, deixou escapar um perplexo:
- Inacreditável!
Respondi:
- Pois é.
Ele passou o braço ao redor do meu ombro, tentando me animar:
- Mas amanhã vamos em outro lugar e com certeza, você vai encontrar uma gaúcha mais... – deu um sorrisinho malicioso antes de completar: - Hospitaleira.
Concordei, sem animação nenhuma, porque... Olívia não me saía da cabeça.

***
Nosso espetáculo era de rua, e nossa primeira apresentação numa tal Praça da Alfândega, bem no centro da cidade. O movimento era intenso. Minha expectativa também, porque... Em cada rosto eu procurava... A gauchinha dos olhos verdes.
Já completamente arrependida por ter discutido por causa de bobagem, e mais ainda por não ter pego o telefone dela, minha única esperança era que Olívia aparecesse.
Apesar de eu não ter dito em qual espetáculo estava.
Porém, nada mais fácil. Éramos os únicos cariocas nos apresentando naquele dia.
Por outro lado... Porque ela iria me procurar depois da briguinha infantil e lamentável da véspera?
Sancho me conhecia bem demais:
- Esquece essa gaúcha!
Como se fosse fácil.
Fiz um esforço incrível para me concentrar.
Quando o espetáculo começou, a praça estava lotada. Até a TV estava lá. Jornal do Almoço, sei lá. Tipo um RJ TV de lá.
Aparentemente todos.
Menos a única que eu desejava.

***
Confesso: era estranho. Até demais.
Não tinha rolado nada além de alguns beijinhos e uma discussão para lá de exagerada. Nada que desse motivo para... O que era aquilo? Eu não sabia dizer.
Um aperto no peito, uma ausência, uma vontade de revê-la. Seria possível se sentir saudade do que nunca se teve?
Sancho ficou absolutamente preocupado. Mas tentou amenizar, dizendo:
- Você tá assim porque a menina disse não pra você. É só isso.
Tito concordou:
- É, se tivesse pegado nem ia se lembrar dela.
Suspirei sem querer, fazendo Tito sacudir a cabeça enquanto gesticulava rodopiando pelo quarto enlouquecidamente:
- Preciso conhecer essa mulher! Que poder é esse? Deve ser uma deusa!
Foi quando Carol entrou:
- Quem deve ser uma deusa?
Sancho tentou disfarçar:
- Ninguém.
Mas Tito não ia perder a tirada:
- A gaúcha poderosíssima que em uma única noite, fez sangrar o coração da nossa amiga aqui.
Declamou a frase de uma forma tão melodramática que até eu fui obrigada a rir.
Carol me olhou de um jeito estranho. Como nunca tinha feito. Sentou do meu lado e falou baixinho:
- Decidi seguir o seu conselho.
Não fazia idéia do que ela estava falando. Carol percebeu, porque... Explicou:
- Ficar com uma desconhecida. E vai ser hoje!
Meu sorriso de felicidade e alívio foi indisfarçável. Finalmente, poderíamos ser amigas. Sem eu precisar mais evitá-la, como vinha fazendo. Perfeito!
Carol me olhou de cima a baixo, com uma expressão indefinível. Depois pediu:
- Você me ajuda?
Minha resposta foi muito mais do que positiva:
- Claro que sim!

***
Antes de sair, nos reunimos com Carol no quarto que eu, Sancho e Tito dividíamos. Para:
- Dar uma calibrada. – explicou Sancho.
E Tito completou:
- Um brilho!
Bebi a Cuba Libre que Sancho serviu, e fumei o baseado que Tito apertou. Carol fez a mesma coisa. Só que... Provavelmente ela não estava acostumada, porque ficou... Muito mais do que colocada:
- Tô tontinha!
Repetia, rindo sem parar.
Sancho e eu nos entreolhamos. Mas foi Tito quem disse – baixinho, para Carol não ouvir:
- E agora? Ela tá muito louca!
Como se quisesse confirmar, Carol caiu da cadeira. E continuou rindo, sentada no chão.
- Até demais para o pouco que fumou e bebeu – pensei.
Seria psicológico? Ansiedade? Nervoso? Impossível dizer.
Propus:
- Vamos dar coca cola pra ela antes de sair.
Os dois concordaram.
Assim que Tito a levantou do chão, Carol se pendurou no meu pescoço, dizendo:
- Você acha que hoje vou conseguir ficar com a mulher que eu quero?
Os olhos fixos nos meus lábios, mas fingi não perceber:
- Claro! Vamos achar uma garota bem legal pra você.
 Sancho me olhou como quem diz:
- Tá ferrada, amiga!
E sussurrou no meu ouvido:
- Ela quer você!
Fiz um gesto de:
- Não enche!
E a obriguei a beber todo o copo de Coca cola, querendo muito que ela ficasse sóbria novamente.

***
Indubitavelmente, a boate era bem melhor do que a da véspera. Uma escadaria enorme levava à pista que, pelo som, já fervia.
Subi atrás dos três. Quando chegou no topo da escada, Sancho parou tão abruptamente, que esbarrei nele:
- Que foi, viado? Eu, hein!
Como resposta, ele deu um passo para o lado, me deixando ver - encostada no balcão em frente, sorrindo como se estivesse feliz em me ver – a gauchinha de olhos verdes.

Um comentário:

  1. Aninha aruen disse...

    que briga hein,uma com o ego maior que o da outra..kkkk muito legal,nem sempre precisamos ficar com alguem de fato pra sentir algo a mais pela pessoa...eu acho que um olhar já basta pra mexer com alguem..bjs enormes Di!!!
    ◄ Responder Comentário 4 de janeiro de 2011 01:35
    Tibet disse...

    E aí Diedra...? espero que esteja ótima, com saude e em PAZ! vc merece, querida escritora!e não perca seu chiadinho não...esse capitulo foi ótimo, já estava com saudades destas reviravoltas...que os Anjos das bibliotecas e livrarias (rsrsrs) te inspirem sempre muitos personagens incríveis para nosso deleite!Sério suas histórias sempre me fazem rir e relaxar!!!
    ◄ Responder Comentário 4 de janeiro de 2011 22:19
    Val disse...

    Muito comédia essa discussão rs Como sempre, curtindo muito o conto;)
    ◄ Responder Comentário 6 de janeiro de 2011 22:41
    Mara disse...

    Mulheres mais jovens são muito excitantes, e quando mexem com nossos sentimentos são arrebatadoras. adoro seus contos, segui o "Amor as avessas" no site mulheres coloridas da minha amiga Drica e me tornei fã. Te adoro. se quiser dá uma passadinha no meu blog também: http://mara-diario-demulher.blogspot.com/

    Bjos
    ◄ Responder Comentário 7 de janeiro de 2011 02:58

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