terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parte 15

Do céu ao inferno pode ser pouca a distância

Engraçado. Será que existe mesmo esse negócio de pressentimento?
Um sentimento de... Como definir? Quando a gente é criança na véspera do aniversário ou Natal. Um frisson sem motivo...
Bom, foi assim que desembarquei em Porto Alegre.
Com a sensação de que algo aconteceria.
Fomos recebidos pelo nosso “Anjo” (pessoa encarregada de cuidar do Grupo durante o tempo que fica no Festival) e na mesma hora ficou claro de que ele também era gay.
- Perfeito! – exclamou Sancho.
Tito não perdeu tempo. Foi logo perguntando:
- O que tem de bom pra se fazer nessa cidade hoje à noite?
O Anjo respondeu:
- Tem um ponto de encontro do pessoal do Festival.
Explicou que era uma tenda, que chamavam de “espaçonave”, “disco voador” ou algo do tipo. Não me lembro direito.
Tito passou o braço ao redor do ombro dele, e falou, íntimo:
- Não, bobinho. Queremos ir num lugar gay.
O Anjo deu um sorriso para lá de contente. Antes de responder:
- Hoje só tem um lugar aberto. É meio bagaceiro, mas...
Nos entreolhamos, rindo. O que diabos ele queria dizer?
Tito pediu que ele traduzisse:
- Bagaceiro?
O Anjo se fez entender:
- Maloqueiro, trash, não vale a pena...
Não o deixei completar:
- Não importa. Tem sempre como peneirar e sobrar algo que preste.
Sancho e Tito concordaram. E o Anjo acabou fazendo o mesmo:
- Eu levo vocês.

***
O tal lugar era no Centro da cidade. Nem precisava entrar para saber que trash era pouco. Na verdade, Sancho definiu com uma precisão de mestre:
- Parece que abriram as portas do inferno!
Muito sem graça, o Anjo tentou se desculpar:
- Eu avisei.
Mas nada teria nos preparado para aquilo. Era muito, mas muito horrível mesmo. O “Buraco da Lacraia” (pelo nome vocês já podem imaginar o que seja) piorado umas cem vezes.
As lésbicas se concentravam no primeiro andar, onde só tocava música brasileira. Depois de uma rápida olhada, sussurrei para os meninos:
- Vamos sair daqui!
E pensei:
- Correndo!
Do lado de fora, um tipo de varanda onde ficava a escada para o segundo andar, que era... a pista de dança mesmo. Música bate estaca, escuridão total, muita fumaça e umas quatro mulheres contando comigo. Era onde se concentravam os gays.
Preferi ficar por lá. Abstraí completamente de pegar. Na verdade, ficar ou não ficar, naquele momento, parecia não fazer nenhuma diferença mesmo.
Sancho e Tito rapidamente se arrumaram. Fiquei dançando com o Anjo, que era muito, mas muito fofo mesmo. Tanto que não ficou com ninguém só para me fazer companhia.
Em determinado momento, eu disse:
- Vou fumar lá fora.
Não estava nem um pouco a fim de empatar o menino

***
Encostei no muro no alto da escada, acendi um cigarro, fiquei observando o movimento. Vi um grupo subindo, todos parecendo muito novinhos.
Não prestei muita atenção à princípio.
Até que...
Impossível explicar.
Tive um arrepio. Todos os meus sentidos pareceram se aguçar quando a vi.
Novinha, muito novinha. Pelo menos, bem mais nova do que eu. Cabelos negros curtinhos. Olhos verdes, quase felinos. Jeitinho de moleque e... Vários piercings.
Diferente, muito diferente do tipo que normalmente me interessava. Verdade verdadeira.
Mas foi como se, naquele exato momento, eu percebesse qual era o meu número. Do que eu realmente gostava. Não sei.
Estou tentando explicar o inexplicável. Racionalizar aquilo que foi... Puro sentimento.
Fiquei olhando para ela hipnotizada. Na fissura mesmo.
E ela... Bom, sequer percebeu minha presença.
Cumprimentou alguns amigos na porta e... Entrou, desaparecendo na pista efervescente.
Não sabia se me recuperava ou ia direto atrás dela.
O fato é que a sorte estava do meu lado. Acaso, ou... Destino?
O que fez o amigo dela se encostar no muro ao meu lado e pedir para que eu acendesse o cigarro dele?
Pouco importava. Fui simpática. Ao extremo.
Em questão de segundos já estava na maior intimidade com:
- Renato.
Apertei a mão dele com um prazer verdadeiro – gostei dele de graça, vai entender - antes de ir ao que realmente me interessava:
- A sua amiga tem namorada?
Importava? Incrivelmente sim. Apesar de não fazer o menor sentido, porque... Aquilo não ia passar de uns beijos e – se ela fosse mesmo tudo que aparentava - uma noite memorável. Que eu não queria perder.
- Não. Solteira.
E eu, ainda sem saber o porque de tantas perguntas:
- Quantos anos ela tem?
Renato me olhou divertido:
- 20.
20? Não tive como disfarçar a careta ao pensar:
- Uma criança!
Se bem que... isso não ia me impedir, né?
Renato perguntou:
- E tu?
Não hesitei:
- 30.
Arrotei meus dez anos a mais com a certeza de que ia ouvir:
- Não parece mais de 24.
Como sempre.
Mas ainda assim... A diferença de idade pesava, era muito grande mesmo.
Como se lesse pensamentos, Renato falou:
- Minha amiga adora mulheres mais velhas. Vem, vou apresentar vocês.
E foi me puxando pela mão, driblando as pessoas no meio da pista. Até pararmos na frente dela.
Cochichou algo no ouvido da menina, que sorriu e finalmente, olhou para mim.
Nossa aproximação foi simultânea. Em uníssono. Vencemos juntas a distância e ficamos dançando, nos olhando e sorrindo.
Tudo muito estranho. Impressão de irrealidade ainda me dominando. A ponto de não me reconhecer. Em qualquer outra situação, eu já teria...
Mas ali, exatamente por eu querer tanto, parecia ser muito mais difícil.
Renato gritou:
- Vocês não vão beijar não?
Nós duas rimos e...
Nossos lábios se encontraram. Timidamente a princípio. Depois, aos poucos, aprofundando o contato, a medida em que o desejo crescia.
Sorri, deliciada ao sentir que ela tinha um piercing na língua. Incrível sensação despertada pelo metal frio, aliada ao fato da gauchinha saber usá-la a seu favor muito bem.
Perdi a noção de tudo. De quem eu era, onde estava, o que deveria ou não fazer. Movida apenas pelo que sentia.
Algo que... Não conseguia absolutamente definir.
Flutuei na inevitabilidade daquele encontro. Com uma suavidade espantada, assustada, sem entender nada. Surreal mesmo.
Uma garota que eu nunca tinha visto. Com quem não tinha trocado uma palavra. Nem o nome dela eu sabia. E no entanto... O olhar verdejante parecia profundamente conhecido. Como a lembrança de algo ainda por vir.
Fosse o que fosse, a garota com olhos de gata conseguia despertar uma sensação de felicidade que há muito eu não sentia.
Quanto tempo durou? Aquele beijo além do tempo, do espaço, da razão?
Muito menos do que eu gostaria.
E então, estávamos de volta a boate-inferninho.
Ela perguntou o meu nome. Eu disse. Ainda me sentindo perdida. Mais ainda quando ela falou, tornando quem era algo vivo:
- Olívia.
Bobamente repeti:
- Olívia.
Saboreando o nome como se através disso pudesse entender o que realmente se passava comigo.
Eu queria mais, muito mais. O segundo beijo foi completamente desmedido. Cheio de mãos, testando os limites. Ela impôs alguns. Nada demais. Correspondeu de um jeito que me fez propor:
- Vamos sair daqui?
Olívia parou. Olhou-me profundamente. E com um sorriso, perguntou:
- Como assim?
Fui explícita, como estava acostumada:
- Vamos passar a noite juntas?
Não falei, mas pensei:
- Quero muito trepar com você!
Ficou claro em meus olhos, porque... As esmeraldas me fuzilaram com um brilho de indignação certeiro, enquanto Olívia acabava comigo:
- O que tu tá pensando?
Como assim? Que mal tinha no que eu falei?
Lembrei: 20 anos...
Quem brinca com criança amanhece molhado... Bem feito!
Ela prosseguiu:
- Nem te conheço. Acha que durmo com qualquer uma? Que só porque tu é carioca é irresistível?
Eu nunca, em toda a minha vida, tinha levado um fora daqueles. Já ia virar e me afastar, quando:
- Só quer beijar se eu trepar contigo?
Boa pergunta. Ótima mesmo. A resposta era só uma. E veio em forma de um terceiro beijo. Dessa vez, sem pressa. Com gosto de... Aproveitar o momento.
Engraçado. Apesar de tudo, eu sentia, no jeito dela, que não era só eu que estava mexida. Que talvez até conseguisse mais do que simples beijinhos. Com persistência e perícia. A esperança é a última que morre, e eu estava muito a fim de insistir.
Renato nos interrompeu, batendo no ombro dela:
- Vou lá para fora.
E Olívia propôs:
- Vamos também?
Passar o resto da noite conversando com os amigos pirralhos não era bem o meu plano, mas... Acabei concordando:
- Tudo bem.
Sem nem perceber a facilidade com que a gauchinha já estava me levando.

***
- Nossa, o que foi que aconteceu?
Foi a pergunta perplexa de Sancho, quando cruzei a porta da boate sem nem olhar para trás.
Estava... Muito mais do que possessa... Enfurecida! Irada! Literalmente bufando.
Nunca, em toda a minha vida, tinha conhecido alguém tão irritante, arrogante, petulante, tão...
Interessante.
Irresistível.
Excitante.
É, a garota tinha me tirado do sério. Tanto que não tinha como negar a vontade de voltar e... Bom, pelo menos pegar o telefone dela.
Isso nunca! Quem a gauchinha metida à besta pensava que era? Melhor mesmo se nunca mais a visse!
Fui tentando inutilmente compensar a frustração andando com fúria em direção ao Apart hotel em que estávamos hospedados..
Sancho seguiu atrás de mim, calado. Os olhos muito arregalados, e um pouco esbaforido, enquanto eu seguia esbravejando...

Um comentário:

  1. Val disse...

    Que maldade nos deixar com essa curiosidade, Diedra rsrs "Só pq é carioca é irresistive" Haha ri muito rs Que o próximo capitulo venha logo \o Beijos
    ◄ Responder Comentário 27 de dezembro de 2010 18:59
    Chester Perdigão disse...

    Ameeeeeei!! *-*
    Ah eu tenho que contar que ri muito quando ela falou: "só porque tu é carioca é irresistível?" XD

    agora a pergunta é: O que a gauchinha fez pra ela sai tão brava desse jeito??

    Está maravilhoso Ci
    bjs

    ah Feliz ano novo!! Desejo que vc tenha muita paz,amor, saude, prosperidade.
    Bom...que o ano que vem seja muito melhor que esse e que vc continue sendo essa escritora MARAVILHOSA! *-*
    Bjs
    ◄ Responder Comentário 27 de dezembro de 2010 20:45
    Aninha aruen disse...

    realmente os sentimentos nos surpreendem,as vezes nos interessamos por quem e quando a gente menos espera ou por quem "nunca" faria nosso tipo...srs bjs enormes Di!!
    ◄ Responder Comentário 27 de dezembro de 2010 20:52

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