terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parte 14

O fim pode ser o início


Sair com Andressa e alguns amigos às sextas feiras já tinha se tornado normal.
Numa dessas noites de quase rotina, depois de termos assistido a um espetáculo, estávamos em plena Cinelândia, sentadas numa mesa enorme e cheia no Amarelinho, quando do nada, Kátia chegou.
Apresentei as duas, sem preocupação nenhuma. Afinal, estava tudo muito mais do que claro e resolvido ali.
Kátia sentou na minha frente. Puxou assunto. De vez em quando olhava de canto de olho para Andressa. Interessada. Era muito mais do que nítido.
As duas começaram a trocar sorrisos e gracinhas, e eu... Senti não uma, mas várias pontadas de ciúme.
Irracional e ridículo. Eu sabia disso, mas... Como dizer isso ao meu orgulho, amor próprio e... Haveria algo mais do que isso? Algo que eu não tinha percebido? Fiquei na dúvida.
Chegaram a trocar telefone, antes de Kátia se despedir:
- Vou indo.
Movida não sei por que mórbido masoquismo, fui eu quem a impediu:
- Fica. Vamos pra outro lugar. Porque você não vem junto?
Ela nem hesitou. Disse logo sim. E voltou a se sentar.
E eu... Me remoendo, com uma sensação muito mais do que esquisita. Misto de apreensão e ansiedade com o que poderia acontecer.
As duas flertaram abertamente na minha frente. Eu num esforço incrível, tentando não esboçar reação nenhuma.
Funcionou, porque... Depois que pagamos a conta, Kátia me puxou num canto:
- Tudo bem se eu ficar com ela?
Apesar do que eu sentia, respondi:
- Sem problema.
O oposto do que eu realmente pensava e queria. Porém, por pior que pudesse ser, preferi pagar para ver.
Cheguei na boate e deixei as duas à sós.
Sancho só faltou me sacudir:
- O que você tá fazendo? Tá louca?
Ele me conhecia como ninguém. E sabia o quanto aquilo estava sendo... Sofrido.
Como explicar a avalanche de coisas que se moviam dentro de mim?
Parecia incoerente, mas no fundo... Queria ver até aonde as duas chegavam. Cobaia viva em minha própria armadilha?
Também, mas... O mais importante, ponto primordial da terrível experiência científica era... Resolver a confusão em que eu estava metida.
Sinceramente? Escavando a fundo?
O que eu realmente esperava e queria: que Andressa rejeitasse Kátia. Que só quisesse ficar comigo.
Foi muito mais rápido do que eu pensava. Tudo bem. Não que fosse ser menos chocante se demorasse mais tempo. Talvez a tortura só fosse maior.
Boa ou má sorte minha – como definir? - a espera terminou rápido. Com a mesma velocidade com que desfraldaram o meu tormento.
Quando voltei a olhar na direção delas, as duas já estavam aos beijos.
Afirmei para mim mesma:
- Foda-se!
Mesmo assim, decepção e tristeza tomaram conta de mim.
Sentei com Sancho numa das mesas, comecei a beber Tequila. Virando um copo atrás do outro e repetindo:
- Nenhuma mulher vale nada, meu amigo.
Sabendo perfeitamente que também estava me incluindo.

***
Andressa e Kátia sumiram.
Ficaram horas trancadas no banheiro. Não era preciso muita imaginação para saber o que elas estavam fazendo lá dentro.
E quanto a mim?
Sequer olhei em redor. Ficar com ninguém era a última coisa que eu queria. Passei a noite inteira com Sancho, bebendo. O coitado me ouvindo.
Quando as duas finalmente reapareceram, os cabelos e as roupas desarrumados, cada uma com um sorrisinho satisfeito irritante ao extremo, pararam na minha frente.
Foi Kátia quem falou:
- Vamos dormir lá em casa e queremos que você venha com a gente.
Ficar com as duas? Realmente, uma tirada de gênio! De quem teria sido a idéia?
Deixei escapar uma risada sem querer. Recusei:
- Não, obrigada.
Andressa pareceu... Um pouco tensa. Talvez fosse impressão minha, não sei. O fato é que ela insistiu:
- Vamos. Sem você não tem graça.
Kátia fez uma cara de... Sei lá. Difícil dizer.
Puxou Andressa para um canto. As duas ficaram falando baixinho, não consegui ouvir o que. Pelos gestos acalorados era possível ver claramente que era algum tipo de discussão.
Sancho me deu um tapinha nas costas, enrolando as palavras ao dizer:
- Aí, hein? Tão brigando por você!
Eu estava tão irritava que quase o estapeei:
- Depois de treparem no banheiro? Não mesmo!
Ele riu, e falou:
- Amiga, infelizmente, você não entende nada! Sua inteligência emocional é zero! As duas só tão se pegando porque querem você. Não é possível que você não saiba. Qualquer um vê.
Perguntei, com uma voz muito, mas muito triste mesmo:
- Por que isso não faz eu me sentir nem um pouco melhor?
O olhar que ele me lançou... Como se pudesse me ver por dentro:
- Tá doendo tanto assim?
Meu silêncio disse tudo? Não. Sancho é que me conhecia – e muito:
- Não te disse que no fundo você tava procurando alguém?
Meus olhos se encheram de lágrimas. Ele completou:
- Também avisei que seu negócio com a Andressa tava sério demais.
Concordei:
- Eu sei.
Foi quando Andressa e Kátia voltaram a se postar na minha frente.
Kátia falou, sem disfarçar o quanto estava contrariada:
- A Andressa só vai se você for.
Olhei para Andressa. Ela estava... Com uma expressão de dor. Que aumentou quando falei amargamente:
- Por que? Vocês tão se entendendo tão bem... Precisam de mim pra que?
Andressa balbuciou um:
- Tá chateada comigo? Eu pensei que...
Que eu cortei com um:
- Chateada por que? Não temos nada. Só não tô a fim de fazer a três.
Olhei para Sancho. Ele estava olhando de uma para outra, preocupadíssimo. Suspirei fundo e prossegui:
- Meninas, por favor. Vamos parar com isso?
Mas Kátia insistiu:
- Só se você vier com a gente.
Fui firme. Repeti com todas as letras:
- Já disse que não tô afim.
Se as duas tivessem combinado e ensaiado não falariam tão juntas:
- Quer ficar só com ela? É só dizer, eu vou embora.
Repliquei:
- Não é isso.
Mas a quem eu estava enganando?
A verdade estava muito explícita.
Kátia então falou, parecendo... Não consegui definir:
- Você disse que tudo bem se eu ficasse com ela. Se não eu não teria...
Andressa nem a deixou terminar. Muito magoada ao me acusar:
- Isso foi o que? Um teste? Ou uma forma horrorosa e doentia de se livrar de mim?
Não confirmei, nem desmenti. Nem foi preciso. A resposta estava em meus olhos. Tão nítida que Andressa se exaltou:
- Não sei o que eu ainda estou fazendo aqui.
Virou, e entrou na fila para pagar a comanda. Kátia foi atrás. Conversou, jogou charme, acariciou o rosto dela. Minutos depois, estavam se beijando de novo.
Sancho ordenou:
- Olha pra mim!
Completou assim que eu o obedeci:
- Nada de auto piedade, muito menos de depressão! Se elas tão juntas é porque você quis! Você deixou! Escolheu assim!
Fui obrigada a concordar:
- Tem razão.
Mas Sancho não sossegou:
- Vamos lá, amiga! Ânimo! Lembre-se que depois de amanhã, graças a você ter me indicado pra substituir o idiota que brigou com a produção, vamos voltar a viajar o país todo!
Pura verdade. Assim que soube que estavam a procura de um ator para entrar no espetáculo que fazia com Tito e Carol, indiquei Sancho. No momento certo porque... Nosso primeiro destino: Porto Alegre em Cena.
Um dos melhores, senão o melhor festival de teatro do Brasil.
Ele continuou:
- E o que dois cariocas lindos e maravilhosos fazem em qualquer lugar que vão?
Exclamamos juntos:
- Pegam muuuuuuuuuuito!
Brindei e ri junto com meu fiel amigo.
A viagem prometia.
O que eu não desconfiava era o quanto depois dela tudo mudaria. Muito menos que era o começo do que para mim seria... Uma nova vida.

Um comentário:

  1. Aninha aruen disse...

    to amando a história...se eu fosse ela tinha ido junto com as duas....já q tá tudo meio doido mesmo...srsrs bjs enormes Di!!!
    ◄ Responder Comentário 24 de dezembro de 2010 17:48
    *el*rio* disse...

    sei que quase nao comento, mais adoro as historias, acompanho quase todas.

    continue esse trabalho maravilhoso.

    feliz natal

    bjs
    ◄ Responder Comentário 24 de dezembro de 2010 19:06
    Chester Perdigão disse...

    Nossa! cariocas são um perigo então??? XD

    Só digo uma coisa: está cada vez mais interessante!

    Bjs
    ◄ Responder Comentário 25 de dezembro de 2010 01:23
    Val disse...

    Gostava da Andressa mas, acho que ela não voltará rsrs AMANDO a história Di!
    ◄ Responder Comentário 25 de dezembro de 2010 16:24

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