terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parte 12

Para limpar, a sujeira pode e deve subir à tona


A frase de Flavinha me causou um arrepio.
Que rapidamente afastei, ao me deparar com a loirinha que, a uns três metros à esquerda, não tirava os olhos de mim.
Sorri para ela. A loirinha sorriu de volta. Caminhei na direção da garota, que fez o mesmo, até nos encontrarmos no meio da distância que já não nos separava.
- Oi.
Incrível como numa única palavra, milhares de subtextos podem estar explícitos. Naquela, um evidente:
- Estou interessada, mas não vou tomar a iniciativa.
A adrenalina correu deliciosamente, me deixando alerta, viva, quase febril de expectativa. Claro que não ia deixar transparecer nada daquilo.
Aparentando uma calma e um auto controle dignos de um Oscar, respondi com meu melhor sorriso:
- Oi.
Para que ela lesse e entendesse:
- Tudo bem. Deixa comigo.
Aproximei a boca já sabendo que a loira seria receptiva. Nossos lábios se encontraram, se provaram, se aprovaram. Ela deixou escapar um suspiro. Apertei meus braços ao redor da cintura dela, puxando-a ainda mais para mim.
Ficamos um longo tempo daquele jeito. Apenas... Nos curtindo.
Quando o beijo finalmente terminou, a cerveja na latinha em minhas mãos já estava quente.
Ela disse:
- Sei que é a coisa mais cliché, mas... Eu não te conheço de algum lugar?
Rimos juntas. Ela também não me parecia estranha. Tentei descobrir:
- Você faz teatro?
E ela:
- Cinema. Na UFF.
Estava explicado. Aliás, até fácil demais:
- Conhece o Hugo?
A loirinha olhou para cima, como se um estalo de percepção – ou memória, quem sabe? – a atingisse:
- Claro! Um dos meus melhores amigos. Já vi uma peça sua. Uma que o Hugo fez assistência de direção.
Tudo que ela dizia conferia, mas... Não lembrava dela, muito menos do nome, apesar dela lembrar do meu.
Existe algo pior do que isso? Encontrar alguém que sabe perfeitamente quem somos, e espera ser correspondida com o mesmo grau de lembrança e atenção?
Bem feito! Era isso que dava beijar primeiro e tentar descobrir o nome depois!
Minha expressão me entregou? É possível. Porque a menina sorriu com superioridade e falou:
- Meu nome é Andressa.
Criando um desconforto momentâneo. Constrangimento que sumiu por completo quando ela sussurrou:
- Tudo bem. Dessa vez vou te dar motivos pra você não esquecer de mim.
E voltou a colar os lábios nos meus.

***
- Amiga, ao invés de talco, sua mãe te passou açúcar?
Sancho falou no meu ouvido, sem conseguir se conter.
Eu até teria rido. Se a situação não fosse... Perigosa e tensa.
Estávamos em pleno Terreirão do Samba, entre a barraca da Embaixada das Caricatas e a da Martinália. Eu literalmente sentada numa das mesas, com os pés no assento da cadeira. Sancho de pé do meu lado. Carol e Flavinha na minha frente, se mordendo de raiva. As duas só faltavam se bater e para piorar... Andressa – com quem eu tinha combinado. As outras duas simplesmente haviam aparecido por lá de surpresa – tinha acabado de chegar e sem cerimônia, com a intimidade que a noite passada na casa dela havia lhe dado, estava abraçadinha em mim, de vez em quando me beijando na boca de um jeito que... Uau! Era capaz de fazer um defunto levantar.
Depois de alguns muitos goles de uma tal cachaça com cravo e canela, Flavinha não se agüentou mais. Pôs um fim na até então Guerra Fria para declarar a 3ª Guerra Mundial:
- Você passou a noite com essa aí, foi?
Andressa a ignorou? Qual nada. Passou os braços ao redor do meu pescoço e falou:
- Tô louca pra te levar pra minha casa de novo.
Alto o suficiente para Flavinha escutar.
Olhei para Sancho desesperada. Ele entendeu na hora, e rapidamente assumiu o papel de “gente, deixa disso!”.
Puxou Flavinha pelo braço, tentando afastá-la. Sem resultado:
- Não acredito que você vai me trocar por essa... Essa sem graça! Quer saber de uma coisa? No meu corpinho você não toca nunca mais!
Carol riu alto. Andressa continuou grudada em mim, como se não estivesse acontecendo nada. Sancho sugeriu:
- Vem, Flavinha. Vou te levar pra casa, você já bebeu demais.
E Flavinha ainda repetiu umas três vezes:
- No meu corpinho você não toca nunca mais!
Antes que Sancho finalmente conseguisse guiá-la em direção à saída, dizendo para mim:
- Você me deve essa!
Andressa então me largou. Afastou-se de mim, claro. Perguntou, desconfiada:
- Essa aí é o que sua? Ex namorada?
E eu:
- Claro que não.
E ela:
- Por que esse escândalo então?
Suspirei alto. Irritada por ter que explicar:
- Fiquei com ela algumas vezes, mas não temos nem nunca tivemos nada. Ela tá alterada por causa da bebida. Só isso.
E como desgraça pouca é bobagem, nesse momento levantei os olhos e me deparei com ninguém mais ninguém menos que... Cláudia.

***
- Mas que surpresa agradável!
Foram as palavras de Cláudia, olhando com um riso muito mal disfarçado.
Minha paciência já havia acabado, e reencontrar minha primeira ex mulher naquele momento foi... A gota d’água:
- Infelizmente não posso dizer a mesma coisa.
Cláudia riu cinicamente. Com a mesma provocação velada com que perguntou:
- Nossa, o que foi que eu te fiz?
Como expressar, explicar a dor da desilusão do primeiro amor fracassado? A insegurança, o medo, a desconfiança, a falta de auto estima que o fim do relacionamento com ela – a primeira e única com quem e em quem eu tinha realmente me permitido, me entregado, confiado – Havia causado?
Cicatrizes tão profundas que até aquele momento ainda coçavam e que se eu mexesse, provavelmente voltariam a sangrar.
As palavras saíram como uma represa que estourasse:
- Tirando o fato de ter me traído, me trocado e jogado fora como se eu fosse um pano de chão velho e usado? É, realmente nada.
Cláudia chegou a gargalhar:
- Sempre melodramática... Quanta bobagem! Se não tivéssemos terminado, você não teria esse harém. A discípula sempre supera a mestra, não é verdade?
Definitivamente, eu não era obrigada. Levantei. Falei para Andressa:
- Vou ao banheiro, me espera aqui?
Ela fez que sim com a cabeça. Afastei-me sem nenhuma outra palavra.

***
Quando cheguei nos banheiros químicos, nem entrei na fila. Não estava com vontade, tinha sido apenas uma desculpa para... Ah, aquilo que eu fazia melhor: fugir!
Encontrar Ve e Cláudia num espaço de menos de 48 horas não era coincidência. Aliás, eu sequer acreditava que coincidências existissem. Tinha sido como um alerta. Um aviso. De que eu estava... Perdida? Desorientada? No vácuo?
Fosse o que fosse, completamente longe do que eu queria. E afinal,  o que eu queria mesmo? Não sabia. Era essa a verdade.
Estava tão imersa em minha reflexão absolutamente fora da hora e local, que não percebi Carol se aproximar.
Quando vi, ela estava parada na minha frente, me olhando fixamente. Um pouco trôpega, mas não inteiramente bêbada.
Passou a língua sobre os lábios de forma provocante. Aproximou o rosto e pediu:
- Me beija?
Suspirei, exasperada, antes de me afastar.
Carol ficou muito mais do que revoltada:
- Qual é o problema? Você me acha feia?
Tentei me manter calma:
- Não é nada disso... Olha só...
Mas ela não me deixou falar:
- Você fica com todo mundo! Por que comigo não?
Como explicar? Não que ela não fosse interessante ou bonita, mas... Essas coisas são impossíveis de explicar. Tem pessoas que... Não batem, não te dizem nada, sei lá. Era o caso.
Além disso, gostava dela como amiga. Trabalhávamos juntas, não queria uma nova Vivian no meu local de trabalho. Resumi tudo numa única e sincera frase:
- Não quero estragar nossa amizade.
A garota virou uma fera. Só faltou bater na minha cara. Gritou, me xingou, terminou com um enfático:
- Você ainda vai implorar pra ficar comigo! E aí, eu vou te esnobar!
Deu uma virada dramática, e saiu altivamente.
A única coisa que conseguir pensar foi:
- Só posso estar pagando o meu carma!

Um comentário:

  1. Aninha aruen disse...

    nossa qt mulher meu Deus...e uma mais loca q a outra..rsrsr to adorando a historia,legal que é imprevisivel(pelo menos por enquanto) saber como vai terminar isso bjs grandes Di!
    ◄ Responder Comentário 18 de dezembro de 2010 20:45
    suelen disse...

    Do céu ao inferno. Gosto de suas histórias por que consigo relaxar com elas. O humor sempre presente e ao lado da dúvida e da procura. Parabéns.
    ◄ Responder Comentário 18 de dezembro de 2010 21:07
    Val disse...

    Colocando a leitura em dia e AMANDO!!! Eu gosto da Veronica apesar da possessividade dela rs

    Resp. a pergunta que fez: Creusa era a personagem da Juliana Paes na novela "América". A personagem se fingia de religiosa e provocava os homens de modo que só eles vissem.

    Beijos Di \o
    ◄ Responder Comentário 19 de dezembro de 2010 21:23

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