terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parte 11

Fazer o que se quer pode desagradar muita gente

Depois de passar em casa, tomar um café e um banho rápidos, fui para a filmagem com Tito, e encontrei uma Flavinha possessa:
- Posso saber onde é que você estava?
Olhei para ela sem entender nada.
Com as mãos na cintura, e os olhinhos verdes faiscando, Flavinha fez questão de explicar:
- Liguei pra você a noite inteira e nada! Não atendeu por que?
Tirei o celular - que felizmente eu tinha deixado no silencioso enquanto estava na boate – da minha bolsa e vi mais de 15 ligações dela não atendidas.
Exagerada, no mínimo.
Flavinha insistiu:
- Onde você estava?
Decidi cortar o mal pela raiz:
- Não é da sua conta.
Fui andando em direção à garrafa de café com ela atrás:
- Não é da minha conta? Se você acha que pode fazer amor comigo e depois sair por aí fazendo o que bem entende, tá muito enganada!
Ela não falou, gritou a frase. Atraindo a atenção de todos que estavam ao nosso redor.
Sinceramente? Eu detestava escândalos, mas... Era muita falta de noção!
Fazer amor? Era assim que ela chamava se relacionar sexualmente com todas as pessoas do planeta esperando que eu ficasse esperando em casa?
Retruquei, muito mais do que estressada:
- Se o problema é esse, então tá tudo terminado.
Tudo terminado, apesar de nunca haver começado...
Funcionou, porque Flavinha mudou com uma velocidade incrível. Pediu com uma voz muito doce, e bem baixinha:
- Não... Espera... Eu... fiquei com ciúmes. Porque... Quero você só pra mim. Vai me desculpar, né? Prometo que nunca mais faço isso!
As mulheres e seu inacreditável poder de reverter situações críticas e difíceis...
Flavinha já estava pendurada em meu pescoço, com seu sorriso mais lindo.
E eu... Não só perdoei, como na mesma hora esqueci. Como resistir?

***
As filmagens terminaram, mas não meus encontros com Flavinha.
Tornou-se natural eu ir para a casa dela, ou ela para a minha.
Nada sério, determinado nem definitivo. Nos víamos quando queríamos, sem compromisso. Saíamos com outras pessoas, mas não falávamos sobre isso. Simples assim.
O Carnaval chegou. O primeiro em que eu estava solteira, desde que  havia ficado com Cláudia, há seis longos anos atrás.
Sancho chegou na minha casa animadíssimo para a Banda de Ipanema. Só de sunga e tênis brancos e um quepe da marinha (que tinha surrupiado do pai dele), fantasiado de:
- Marinheiro do amor, baby! E você?
Eu? Não ia me prestar a um papel daqueles, obviamente. Impliquei:
- Se fantasiar no Carnaval é coisa de mulherzinha!
Ele riu gostosamente. Antes de retrucar:
- E eu sou o que, hein?

***
Encontramos Flavinha na concentração da Banda, como combinado:
- Que demora! Tô há séculos aqui esperando vocês!
Puxei-a pela cintura, para beijá-la, mas ela se esquivou:
- Tá maluca? E se alguém vê?
Com a maior paciência do mundo, expliquei:
- Meu amor, estamos na banda de Ipanema. Aqui o mundo é gay!
Nem assim ela se acalmou:
- Estamos no meio da rua! Tá vendo que tem um monte de velhinhas também? E se uma amiga dos meus pais ou dos meus avós vê?
Sancho intercedeu em meu favor:
- Flavinha, é Carnaval! Relaxa, baby! Se alguém conseguir ver alguma coisa no meio dessa confusão toda – falou indicando os gays fantasiados, drag queens e travestis que, com certeza, chamavam muito mais atenção do que a gente – você diz que foi brincadeira.
Nada feito. Flavinha encerrou o assunto com um convicto:
- Prefiro não arriscar.
Que conseguiu me tirar do sério.
Era Carnaval, eu estava em plena Banda de Ipanema, solteira, e sinceramente? Não ia deixar de aproveitar por causa dela. Não mesmo!
- Se é assim, então... Com licença!
Afastei-me tão rápido que Sancho quase teve que correr atrás de mim.

***
Carnaval. Banda de Ipanema. Solteira.
Combinação no mínimo explosiva. Não só eu sabia, como contava com aquilo não prestar.
Não demorou nem 10 minutos para que eu perdesse Sancho de vista.
Beijei umas três ou quatro bocas no caminho. Nada que me interessasse o bastante para merecer atenção exclusiva.
Quando cheguei na Farme, no meio da multidão que já abarrotava a rua, comecei a procurar Sancho, como tínhamos combinado.
Foi quando eu vi...
Verônica. Com o que parecia ser a nova namorada, porque... Estava abraçadinha com ela, sussurrando no ouvido da menina.
Parecia feliz. Os olhos brilhavam, e tinha nos lábios aquele sorriso lindo que tantas vezes tinha sido para mim...
Fiquei imóvel, estática, paralisada mesmo. Um tsunami de emoções e sensações me tumultuando por dentro.
Senti uma mão no meu ombro. Ouvi a voz de Sancho perguntando:
- Tudo bem?
Fiz que não com a cabeça.
Ele olhou na direção que me hipnotizava e imediatamente entendeu:
- Vem, vamos sair daqui.
Tarde demais, porque... Verônica virou a cabeça e nos viu.
Tudo aconteceu ao mesmo tempo.
O sorriso morreu nos lábios de Ve.
A garota que estava com ela olhou de mim para Ve e quando voltou a me fitar me fuzilou com os olhos.
Flavinha apareceu, furiosa, gritando:
- Escuta aqui, você tá pensando o que?
Sancho respirou fundo, sem reação como eu.
Ve se aproximou, me olhando nos olhos, daquele jeito dela sério, excitante e sempre surpreendente. Parou na minha frente e:
- Oi. Tudo bem?
- Tudo.
Foi só o que consegui responder.
Flavinha se postou do meu lado. Enlaçou os dedos nos meus. A outra garota fez o mesmo com Ve.
- Bom te ver.
- É.
Depois de um último sorriso triste, Ve se virou e sumiu.
Deixando uma intensa sensação de vazio.
- Posso saber quem era?
A voz alterada de Flavinha me tirou de meu devaneio. Respondi automaticamente:
- Minha ex.
O peso da pequena palavra me atingiu pela primeira vez. O real significado também. Um passado que infelizmente, eu não tinha aproveitado enquanto era presente.
E agora Ve ali, na minha frente. Feliz, como ela merecia. Como eu não tinha conseguido fazê-la.

***
Dentro de mim, algo profundamente dolorido lutava para transparecer.
Mas eu não ia deixar. Não mesmo!
Pensaria nisso depois, na proteção sigilosa do meu travesseiro. Nunca em plena Banda de Ipanema.
Olhei em volta, naquilo que Sancho e eu gostávamos de chamar de periscópio. Analisando o ambiente, ou melhor: as possíveis candidatas a... Ah, nem preciso dizer.
Flavinha puxou meu braço possessivamente:
- Você não tem vergonha não?
Franzi o cenho. Respondi sem nenhuma hesitação:
- Vergonha de que? Sou livre, desimpedida, solteira.
Ela chegou a gaguejar:
- Você... Você e eu... Estamos juntas. Você é... É minha...
Mas eu não facilitei:
- Sua o que? Quando é pra você sair com outras pessoas, não somos nada, não é mesmo? Pois então... Agora é a minha vez.
Soltei-me das mãos dela. Ia me afastar, quando Flavinha gritou:
- Quero namorar com você!
Olhei para os olhos verdes marejados. Em qualquer outro momento eu teria aceitado. Mas não naquele. Não só por ter encontrado Ve, e com ela a soma de todos os meus tormentos. Mas também porque... Não acreditava mais. Sabia perfeitamente que não passava de uma proposta feita no auge do desespero. Flavinha nunca iria me assumir, muito menos se contentar só comigo. Simplesmente não fazia seu estilo.
E além de tudo isso, uma certeza estranha e derradeira se apoderou de mim. Pela primeira vez, de uma forma tão inesperada que chegava a ser incrível, eu sabia o que eu queria:
- Flavinha... não.
Ela começou a chorar. Ameaçou fazer uma cena. E eu, absolutamente calma:
- Sem dramas, ok?
Com uma virada digna de filme, ela se afastou, pisando duro, depois de esbravejar:
- Você vai se arrepender!

Um comentário:

  1. Akee Yasu disse...

    Ai Dietra...
    Perfeito como sempre, eu senti o "tsunami" de emoções. -rs
    Parabéns!
    ◄ Responder Comentário 14 de dezembro de 2010 11:24
    Lilo Oliveira disse...

    Diedra querida,
    como sempre, me prendo de uma tal maneira as suas histórias que não consigo me desvencilhar...haha
    ansisa para a continuação

    Beijão, Lilo.
    ◄ Responder Comentário 14 de dezembro de 2010 13:17
    Luana disse...

    Nossa...
    Estou aqui, hipnotizada... li todas as partes em menos de 5 horas... não conseguia parar de ler...rs
    Me vi muitas vezes retratada na história... obrigada por me fazer enxergar as coisas por um outro angulo...
    Espero ansiosamente a continuação...

    Bjocas
    Lu
    ◄ Responder Comentário 14 de dezembro de 2010 16:27
    Aninha aruen disse...

    nossa que flavinha mais possessiva e grudenta aff...tem mulher que gruda mesmo ... bjs enormes Di!!!
    ◄ Responder Comentário 14 de dezembro de 2010 22:10

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