terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parte 10

As aparências podem enganar


Estava em casa me arrumando para sair, quando o telefone tocou. Era Sancho. Só pela voz, percebi que ele não estava nada bem:
- Amiga, posso ir praí?
Não perguntei nada, sequer hesitei. Disse apenas:
- Vem!

***
- Putaquepariucaralhofoda-se!
Foi só o que consegui dizer, depois de Sancho me contar que o namorado tinha terminado com ele para voltar para o ex.
- Ele parecia ser tão legal, tão apaixonado por você...
Sancho se atirou na minha cama, concordando:
- Nem me diga! O fantasma do ex namorado é o meu carma, definitivamente!
Já era a terceira vez que isso acontecia com ele.
Minha revolta era grande demais para que eu pudesse esconder:
- Se esse cara é idiota a ponto de não saber o que tá perdendo, não te merece!
Sancho sorriu, mas as lágrimas escorreram. Continuei:
- Se eu gostasse de homem, juro que casava com você!
A frase fez com que ele risse, enxugasse os olhos, levantasse e me beijasse no rosto, dizendo:
- Lindinha, se eu não gostasse de homem também casava com você!
Um sorriso debochado começou a se desenhar no rosto dele. Sinal de que Sancho estava voltando ao normal. Tive a certeza quando escutei:
- Podíamos morar juntos, que tal?
Não tive como deixar de dizer:
- Uhm... Pagar as contas juntos e nada de sexo. Isso sim, soa como um casamento.
Rimos juntos. Gostosamente.
A campainha tocou. Era Tito, todo produzido, exalando perfume pelos poros. Foi entrando, íntimo que era da casa agora:
- Vamos fumar um só pra dar um brilho antes!
Parou, surpreso ao ver Sancho no meu quarto.
Apresentei:
- Sancho, Tito. Tito, Sancho.
E completei:
- Não sei mais se vou, porque...
Mas Sancho me cortou:
- Por que não, baby? Por minha causa? Não mesmo! Vou com vocês. Posso?
A última frase já olhando Tito profundamente nos olhos. Tito não se fez de rogado também:
- Lógico!
Impossível não perceber o clima rolando entre eles.

***
Olhei em volta friamente. Para a repetição de um tempo que eu não fazia a menor questão de reviver.
As luzes piscando, a fumaça, o som alto quase me impedindo de ouvir o que estava pensando. Os corpos suados, se movendo no calor hipnótico dos feromônios em chamas.
Eu estava cansada. Saturada. Sem ânimo para recomeçar. Exausta só de pensar:
- Tudo outra vez.
Olhar para as desconhecidas, escolher, me aproximar, seduzir, beijar, trepar, e depois o que?
Na verdade não só o depois. O antes e o durante também me incomodavam.
Como um peixe no aquário. Sobrevive, mas vida é muito mais.
Pode alguém sentir a falta de algo que nunca teve?
O mar e sua imensidão...
Foi quando a lembrança de Ve voltou com força total.
Um único olhar. Foi o que bastou para que Sancho percebesse minha vontade de chorar:
- Para com isso! Nem eu nem você estamos aqui pra ficar mal! Já passamos por coisas piores, vamos superar!
Tito voltou do bar. Acompanhado por um amigo, que apresentou como:
- Bobby.
Bobby, por sua vez, vinha seguido por uma garota seríssima:
- Ciça.
Passei os olhos de relance, porque... ela chamava a atenção.
Não me entendam mal. Nada positivo nessa afirmação. Pelo contrário.
Os cabelos castanhos cacheados presos num coque, óculos de grau e blusa fechada até o pescoço.
Tudo nela era tímido, tenso, travado. Fazia com que parecesse... hermeticamente fechada ou... absolutamente deslocada.
A conversa transcorreu animada.
A tal Ciça absolutamente calada, sem dar uma palavra. Bebendo sem parar. Depois de virar de forma rápida e sem cerimônia um certo número de copos, começou a sorrir. E finalmente, a puxar papo, com um sorriso de quem já estava alta:
- O Bobby disse que você também atua em teatro.
Minha surpresa não poderia ser maior:
- Você é atriz?
E ela, a voz bastante enrolada:
- É, sou sim. Formada na CAL. E você?
- Uni-Rio.
Respondi olhando para Sancho e Tito. Num pedido mudo de:
- Socorro!
Os dois riram, respondendo com gestos nem um pouco velados:
- Pega!
- Vai lá!
Ciça perguntou:
- Não vai beber mais?
Indicando meu copo quase cheio. Antes que eu pudesse responder, o tirou das minhas mãos e... bebeu!
Voltei a procurar Sancho e Tito com o olhar. Tarde demais. Os dois já estavam entretidos um na boca do outro, no maior amasso.
O tal de Bobby riu, e declarou:
- Bom, já que sou o único aqui que não tá com a vida ganha, vou circular.
E desapareceu no meio da multidão.
Olhei para Ciça. Ela esvaziou o próprio copo, colocou os dois numa mesa perto de nós, e me puxou pela mão:
- Vamos dançar?
E saiu me arrastando para a pista, sem que eu tivesse como dizer não.

***
Tudo bem, eu estava assustada. Sabem Dr. Jeckyll e Mr. Hyde?
Era isso que a tal Ciça me lembrava. Do nada, assim que chegamos na pista, a menina soltou os cabelos, abriu a blusa e se tornou... ousada e louca são só palavras. Não exprimem com exatidão a transformação absurda que fui forçada a testemunhar.
Enquanto dançávamos, passou a mão em mim toda, sem pudores.
Enfiou a língua na minha boca, me empurrou em direção à parede mais próxima.
Sem um pingo da timidez de antes, conseguiu tatear milhares de lugares ao mesmo tempo. O que era aquilo, a mulher polvo?
Percorreu meu corpo por debaixo da blusa, chegou a abrir minhas calças sem se importar com quem estava assistindo ao espetáculo.
Não que eu não estivesse gostando, mas... chegava a ser engraçado. Agressiva, um pouco selvagem, e... over demais.
Resolvi corresponder à altura. Mostrar do que eu era capaz. Liguei o “foda-se!”. Num movimento rápido, troquei de lugar com Ciça.
Pressionei-a contra a parede com o meu corpo, colando a boca no pescoço que se oferecia, enquanto levantava a saia para ter melhor acesso aonde queria chegar.
A maluca gemeu alto (mais uma escandalosa na minha vida, eu merecia!) e gritou para quem quisesse ouvir:
- Quero dar pra você! Agora! Aqui! Me come!
Ia atender o pedido desesperado, quando senti uma mão tocando meu ombro. Olhei para trás e vi... o segurança da boate:
- Vou ter que pedir pra vocês se retirarem.

***
- Não! Quero que você venha comigo! Vamos trepar!
Ciça berrava, na porta da boate, se mantendo em pé apenas porque Bobby a segurava.
Pela milésima vez, tentei explicar:
- Não posso, tenho filmagem.
Sem resultado.
Ela insistiu, até eu dizer:
- Me liga.
E entregar para ela um papel com o número do meu celular - errado, é claro. Aquela noite por si só, já bastava. Nem por todo o ouro do mundo pretendia voltar a encontrá-la.
Só então Ciça permitiu que Bobby a arrastasse para casa.
Sancho e Tito me olharam e... começaram a rir da minha cara.
Estapeei os dois, xingando:
- Cretinos!
Eles riram mais ainda, se defendendo com os braços:
- Ai! Ai! Que culpa a gente tem das mulheres serem piradas!
- Essa aí então... que roubada!
Parei subitamente. Fiquei estática. Lembrei da transformação de Ciça. De Bete, a feia a Juma tarada...
Não aguentei: caí na gargalhada.

Um comentário:

  1. Anônimo disse...

    Sempre me divirto com esse manual.
    =D
    beijo, Di.
    ◄ Responder Comentário 12 de dezembro de 2010 00:56
    Aninha aruen disse...

    realmente as aparencicas enganam!!!que menina doida...kkkk bjs enormes Di e feliz aniversário!! :)
    ◄ Responder Comentário 12 de dezembro de 2010 17:37
    Chester Perdigão disse...

    ops...surgiu uma Cleusa na historia!!!!hhahahaha
    acho que vc errou o nome Diedra! não é Ciça é Cleusa!!!

    nossa amei muito! raxei demais com esse cap!XD
    Ta MARA!

    ah Parabens Diedra!^^
    tudo de bom! muitas felicidades!
    e que vc continue sendo está escritora maravilhosa! *-*

    Mega beijo
    ◄ Responder Comentário 12 de dezembro de 2010 22:49
    Mery disse...

    Apareci pra dizer que o Manual continua ótimo e pra lhe desejar felicidades pelo dia 12.

    Te mandei um cartão mas vc deve ter pensado que era vírus.

    Whatever.

    Tudo de bom e um grande beijo.
    ◄ Responder Comentário 13 de dezembro de 2010 09:54
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Anônimo
    Que bom!
    Espero que continue gostando!
    BJ super imenso!
    ◄ Responder Comentário 14 de dezembro de 2010 10:52
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Aninha aruen
    É, amiga...
    Quem vê cara não vê coração, né?
    E nem tudo que brilha é ouro...
    kkk
    Brigadú, linda!
    BJ muito mais do que imensamente gigantesco!
    ◄ Responder Comentário 14 de dezembro de 2010 10:53
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Chester Perdigão
    Oi Linda!
    Td bem?
    Pelos deuses! Quem é Cleusa? kkk
    Muito, mas muito obrigada mesmo, viu?
    BJ ultra mega hiper gigantesco!
    ◄ Responder Comentário 14 de dezembro de 2010 10:54
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Mery
    Amigaaaaaaaaaaaa
    Como te agradecer, né?
    Brigadíssimo por tudo!
    Não recebi cartão nenhum... Snif snif... Ou caiu em algum buraco negro virtual ou tá na caixa de SPAM, vou lá conferir, ok?
    Mas de qq jeito...
    Manda de novo, pleaaaaaaaaaase?
    BJ hiper mega blaster suuuuuuuuuuper gigantesco!
    ◄ Responder Comentário 14 de dezembro de 2010 10:55

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