terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parte 08

Indecisão pouca pode ser bobagem
 
- Nossa, que foi que aconteceu? Você tá horrível!
Foi a frase absolutamente franca de Carol, quando cheguei no ensaio no dia seguinte.
A bebida, somada à noite em claro chorando tinha criado no meu rosto, especialmente nos olhos, um efeito de... Digamos... Holocausto.
- Minha namorada terminou comigo.
Foi minha resposta muito mais do que curta e grossa, porque além de Carol ser hetero, não tínhamos a menor intimidade.
Nosso relacionamento se limitava a bater o texto antes de marcar as cenas e algumas conversinhas banais, daquele tipo onde não se entra no pessoal. Nada mais. Provavelmente ela nem sabia que eu era lésbica.
Carol me olhou de cima abaixo. Como se nunca tivesse me visto antes. Espantada? Assustada? Pelo contrário. Parecia... Agradavelmente surpresa. Exclamou:
- Separar é sempre tão difícil, né?
E começou a desfiar uma ladainha interminável. Contou detalhadamente como os cinco últimos namoros dela tinham terminado. Volta e meia repetia:
- Os homens são todos uns filhos da puta! Não valem nada!
Fiquei ali parada, sacudindo a cabeça a tudo o que ela dizia, apesar de não estar ouvindo nada. Até Carol completar, com um olhar que deixava suas intenções claras:
- Por isso que decidi: quero muito experimentar o outro lado.
Primeiro achei que tinha entendido errado. Mas Carol fez questão de frisar:
- Mulheres. Só que... Infelizmente, ainda não tive a oportunidade.
Engoli em seco. Completamente consciente de que aquilo era a maior de todas as roubadas.
Ela completou:
- Na verdade, nunca uma mulher tinha me interessado de verdade... Até agora.
A olhada que ela me deu... Seria capaz de derreter o ártico.
Optei por me fazer de desentendida. Fitei-a com cara de quem sequer tinha ouvido a direta totalmente descarada.
Não adiantou. Carol sorriu, e prosseguiu:
- Eu preferia que minha primeira vez fosse com alguém que eu conhecesse e confiasse...
A garota estava se atirando. No meu estado normal, não pensaria duas vezes, mas... Algo dentro de mim parecia ter mudado. Não estava interessada em mais uma confusão na minha vida. Por isso respondi:
- Se você só quer experimentar, nunca com uma amiga. Provavelmente vai estragar a amizade.
Ela fez biquinho. Perguntou, fazendo charme:
- Ah... Você acha?
Fui firme:
- Pega uma desconhecida na boate. Alguém que você não precise ver mais se não gostar.
Carol se aproximou de mim. Olhando fixamente para os meus lábios:
- Com a mulher certa, claro que eu vou gostar.
Não sei se teria conseguido evitar o beijo se Tito não tivesse aparecido berrando:
- Ei, meninas! Vocês sabiam que... Ops... Atrapalho?
Suspirei aliviada. E me afastei rapidamente. Carol fez uma carinha de decepcionada, mas ficou calada.
Puxei Tito pela mão. Ele me seguiu, morrendo de rir da minha cara. Quando ficamos longe o suficiente para que Carol não ouvisse, implicou:
- Você, fugindo da raia? Lindinha, isso pra mim é novidade!
Minha resposta foi absolutamente exasperada:
- Era só o que me faltava agora: servir de cobaia!
Fazendo com que Tito gargalhasse, antes de fechar com a seguinte pérola:
- Como se fosse um grande sacrifício! Queridinha, acorda! A Ve já era, a fila anda e a Carol é uma gata!
Fui obrigada a concordar. Loirinha de olhos azuis, toda linda, deliciosamente feminina... Louca para experimentar aquilo que com certeza, eu era muito mais do que capaz de fazer ela gostar...
Suspirei, exasperada, porque... Nem assim consegui me animar.


***
Carol era persistente. Impossível negar. Mas eu realmente não estava interessada em fazer a menina. Na verdade, não estava interessada em nada. Em ninguém, para ser mais exata.
Os meses se passaram. Falei com Ve por telefone algumas vezes. Resolvemos detalhes. Contas a pagar, objetos para separar. Esse tipo de coisa que parece rasgar a alma. Ela foi três vezes a nossa antiga casa. Nas duas primeiras eu não estava. Na última, por sorte ou azar – quem é capaz de, com precisão determinar? – ficamos cara a cara.
Um estranho mal estar se estabeleceu. Sem gestos, olhares nem palavras. Ambas sabendo que o sentimento ainda existia.
Sim, nos amávamos. Estava escrito, nítido, era indisfarçável. Porém, o que tinha se quebrado era irrestaurável.
- Bom, acho que é isso.
Foi a frase de Ve, fechando a sacola onde tinha enfiado as últimas coisas dela que ainda restavam na casa.
Fitei-a. Provavelmente com o desespero estampado no olhar. A expressão dela mudou imediatamente. E o que aconteceu depois pareceu natural.
Os lábios continuaram o que os olhos começaram. Quase em câmera lenta. Foi como nos aproximamos. Os corações palpitando juntos, acelerados como o ritmo daquele beijo sem ar. Sufocado, sôfrego, extremo. Absolutamente intenso.
Minhas mãos e as dela passeando, percorrendo os corpos com a familiaridade de quem não precisa de reconhecimento, pois sabe de cor.
As roupas sendo afastadas. As peles provadas, desvendadas, saboreadas. Completamente.
Não sei como chegamos no quarto. Só percebi quando minhas costas tocaram o macio do colchão, com Ve por cima de mim.
E entre palavras sussurradas, suspiros e gemidos, fizemos um amor ardente, entregue e definitivo. Sem sabor de recomeço, volta, muito menos de segunda tentativa.
Nós duas sabíamos perfeitamente do que se tratava: uma despedida.
O doce e melancólico gosto do fim.


***
Depois daquela última vez, nunca mais vi Verônica. Ela não voltou a me procurar, e nem eu a ela.
A dor que eu carregava, no entanto, permanecia. Sempre ali, juntinho de mim.
Perdi a vontade de sair e ficar com outras. Já não via sentido naquilo. Meus amigos estranharam a princípio. Depois tentaram ajudar, com incentivos do tipo:
- Você tem que voltar à sua vida antiga!
- Sai dessa depressão!
- Uns beijos na boca, é disso que você precisa!
Mas nada adiantava. Era como se algo dentro de mim tivesse morrido.
Brocha. Frígida. Sem tesão. Nem um pingo.
A mulher mais linda e deliciosa do mundo poderia tirar a roupa na minha frente que eu nada faria. Inacreditável! Incrível!
Aproveitei para fazer o que qualquer pessoa na fossa faria: me afundei em trabalho. Concentrei na carreira todas as minhas energias.
Fiz milhares de testes, contatei conhecidos e desconhecidos, distribui currículos.
O resultado? Além do espetáculo que estava ensaiando, alguns comerciais e um curta-metragem. Meu primeiro filme. Que se passava inteirinho – adivinhem... – numa boate. Ironia do destino.
Meu personagem? Namorada de uma menina absolutamente linda.
Flavinha. Morena, olhos verdes, corpo perfeitinho.
Eu já a conhecia da Uni-Rio. Hetero. Pelo menos eu achava. Afinal de contas, na época, ela tinha um namorado.
Porém... Bom, nunca se sabe!
Logo no primeiro dia de filmagem percebi o quanto aquilo ia ser difícil. Passar 12 horas trancada numa boate escura e enfumaçada (é incrível como todo técnico fuma) maquiada, com gel no cabelo e roupa de night, a maior parte do tempo esperando (no cinema, é isso que os atores mais fazem).
Seria... Muito mais do que péssimo. Se eu não tivesse começado a dar uns tapas nos baseados que rolavam à vontade.
Eu já tinha experimentado maconha antes, sem ter achado nada demais. Porém, naquele momento, fumar parecia ser a única forma de aliviar um pouco o que eu sentia. De fazer com que eu conseguisse sorrir.
Quando o efeito passava, a ilusão de conforto também desaparecia, mas... Não me incomodava tanto, porque... Estava a apenas a alguns tragos.
Flavinha não desgrudava de mim. Ficava o tempo todo do meu lado, puxando assuntos variados e vazios.
Solícita e simpática demais. Até água para mim ela fazia questão de pegar. De vez em quando, soltava algumas indiretas não muito sutis, que eu fingia não captar.
No terceiro dia, não sei se por ter se cansado de rodeios, ou se por estar muito doida de maconha mesmo, Flavinha foi curta e grossa:
- Eu já transei com garotas, sabia?
Aproximou bem o rosto do meu, se atirando ao falar:
- Achei o máximo...
Não tive reação. Como sempre, aliás.
Fiquei paralisada, olhando para ela com uma cara de... No mínimo, abobada.
Depois de uma jogada de cabelo e um sorriso magníficos, Flavinha prosseguiu, com a mão intimamente pousada em minha coxa:
- Você tem namorada?
Fiz que não com a cabeça, depois de uma pausa considerável. Ela sorriu, dessa vez de um jeito muito mais do que safado, ao falar:
- Coincidência. Eu também tô solteiríssima.
E mandou na lata:
- Quer dormir lá em casa?

Um comentário:

  1. Aninha aruen disse...

    to amando a história,cheia de vida,apesar da depre da personagem nesse capitulo,alias depre faz parte da vida tbm...bjs enormes Di!!
    ◄ Responder Comentário 3 de dezembro de 2010 23:13

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