terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parte 07

O retorno do que se faz pode ser rápido


Depois, muito depois, Ve saiu de cima de mim e se deitou ao meu lado. Ao contrário do que sempre fazia: aconchegava-se no meu corpo, me abraçando.

Aquilo me deixou um pouco magoada, porque... Eu estava... Sensível demais. Pela primeira vez tinha me entregado a ela de corpo e alma. Ironicamente, a última coisa que queria entre nós era o que eu antes tanto desejava: espaço.
Virei para Ve. A enlacei com as pernas e os braços. Deitei minha cabeça no ombro dela. Um frio percorreu a minha espinha, dolorosa premonição que me desesperou antes mesmo que ela finalmente falasse:

- Não quer saber onde eu estava?

Na verdade eu não queria. Algo me dizia que era melhor ignorar. Mas olhei nos olhos dela e vi.

Se Ve soube que eu percebi mesmo sem perguntar? É provável. Porém, isso não a impediu de contar:

- No motel. Com um cara.

Ela tinha me traído. Isso eu havia decifrado nos olhos dela, independente de palavras. Só que... Com um homem? Mais do que inesperado. Inacreditável, e... Inaceitável.

Uma semiconsciência passou a me dominar. Como se algo subliminar me guiasse. Eu já não sabia bem o que fazia. Tudo parecia... Distante e fantástico. Como se eu estivesse fora do meu corpo e no meio de uma bruma intensa observasse.

Ouvi-me perguntar:
- Quem?

E Ve responder sem piscar:

- Você não conhece. Um cara do meu trabalho que há séculos me convida pra sair e hoje resolvi aceitar.

Minha voz novamente:

- Por que, Ve?

Ela riu ao falar:

- Não é óbvio? Eu queria me vingar.

E só então, o que mais me machucava:

- Por que com um homem?

Ve olhou para cima. Respirou fundo antes de murmurar com uma voz muito fraca e os olhos cheios de lágrimas:

- Porque eu sabia que ia te magoar mais.


A primeira coisa que fiz foi levantar e me vestir. A segunda foi ir quase correndo para a sala. Só quando me vi sozinha, longe dela, explodi num choro incontrolável.

Deixei meu corpo cair sentado no sofá. Cobri o rosto com as mãos e solucei por um tempo que pareceu interminável.

Até sentir um toque suave em meus cabelos. A mão de Ve. Que só fez com que meu sofrimento se intensificasse. Os soluços aumentaram. Nada parecia fazer sentido.

Tudo bem, eu tinha traído, dado todos os motivos, mas... Como explicar a razão para o meu emocional? Como controlar o que eu sentia? Era algo completamente passional.

Não resisti quando ela me abraçou. Não a repeli, muito menos tentei me afastar. Mas foi como se o meu corpo minguasse. Reagisse se encolhendo ao simples contato.

Comecei a sentir frio. Muito frio. Como se a realidade se turvasse.

Ve sussurrou baixinho:

- Você tá gelada!
E imediatamente me lembrei da garota de Blumenau. E das outras. Todas as outras. Muitas, uma lista interminável que só agora eu compreendia e percebia que era... Lamentável.

Ve se afastou, mas voltou muito mais do que rápida. Colocou sal debaixo da minha língua. Com certeza, eu devia estar com a pressão baixa.

Minha cabeça doía? Latejava. Implorava por ser anestesiada.

- Vem. Vamos pro quarto.

Fui guiada. Carinhosamente. Como se fosse algo precioso, que merece ser cuidado. Nada diferente do que Ve sempre fazia. Só que... Era a primeira vez que eu notava.

Compreensão triste e tardia. Vergonhosa, de fato. Mesmo depois de tudo, era Ve quem me amparava. Consolava-me. Absolutamente preocupada:

- Nunca pensei que... se soubesse que você ia ficar tão abalada, eu não...

Parou, ao ver que a frase só serviu para que as lágrimas voltassem. Beijou-me na testa, nas faces, nos lábios. Segurou meu rosto entre as mãos, olhou bem dentro dos olhos e disse:

- Você sabe que eu te amo. Não sabe?

Não respondi. Ve voltou a me beijar. Não correspondi. Naquele momento, as duas coisas pareciam impossíveis. Ela insistiu:

- Não sabe?

Recomecei a chorar. Meu corpo convulsivamente pelos soluços incontroláveis.

Vi que ela estava realmente preocupada. Mas não conseguia me controlar. Uma confusão de sentimentos se debatia dentro de mim. Mais do que um tufão, ou uma tempestade. Chovia, ventava, nevava, trovejava, queimava. Todos os fenômenos da natureza contidos num único momento de fatalidade. A única coisa que eu podia fazer era extravasar. Enquanto me deixava afundar.

- Deita aqui comigo.

Ve me puxou, me embalou nos braços dela, como se eu fosse – e estava - absolutamente incapaz. Foi reconfortante? Decerto. Mas nem assim tive alívio. A impressão que eu tinha – talvez a primeira vez em que minha percepção falha acertava - era que não passaria jamais.



Difícil explicar o que se seguiu. Nada aconteceu. Nem precisava. A relação como um todo tinha se quebrado.

Apesar de nos amarmos muito, de verdade – pela primeira vez estava absolutamente claro – era como se tivéssemos ultrapassado todos os limites do superável. A situação parecia impossível de se contornar.

Claro que tentamos fingir que nada tinha acontecido. Que estávamos quites, mas... A mágoa, os rancores, os ressentimentos estavam todos lá.

Fiquei obcecada. Uma doentia necessidade de saber como tinha sido a noite dela com o tal cara me dominava. Queria detalhes.

Ve tentou se recusar. Verdade. Mas eu a obriguei a contar. Não uma, mas várias vezes. A fazia repetir, e a história criava uma espécie de aura de excitação sado-masoquista que inevitavelmente nos levava a trepar. De um jeito muito, mas muito diferente do que fazíamos antes. Da parte dela, com uma entrega lânguida, algo de puta – era como eu interpretava - na forma com que ela me olhava, tocava, beijava. Passiva, muito passiva, o contrário do normal. E eu? Nessas horas era tomada por algo que beirava os limites da violência. Brutal. Descontava minha raiva no corpo dela. Fazia e pedia coisas na cama que nunca tinha experimentado. Ve não me negava nada. Apenas me olhava. Com uma tristeza de quem rasga a própria alma. Eu não recuava. A necessidade de alimentar, saciar o animal ferido que por dentro me arranhava muito maior do que o estado em que depois ficávamos. Completa e absolutamente mal.



Fomos nos distanciando. Fato. Mas nenhuma das duas parecia capaz de fazer algo para que isso mudasse. Talvez sequer tivéssemos vontade.

Ve começou a pegar mais plantões, e a ficar cada vez menos tempo em casa. Já não parecia ter ciúmes. Na verdade, parecia não sentir mais nada.

Eu passava os dias trancada no quarto, com o computador ligado. Fugindo da minha vida que lentamente desmoronava.

Coincidentemente – se é que coincidências existem – Sancho começou a namorar. E passamos a já não nos encaixar mais. A felicidade dele me incomodava? Não era bem isso. Era muito mais do que merecida, e por isso mesmo, eu não queria nem podia atrapalhar. Foi difícil, mas tive que me afastar.

Nunca havia me sentido tão sozinha.

Um dia, Ve chegou cedo em casa. Com uma cara muito mais triste e cansada do que o normal. Propôs:

- Vamos tomar um chopinho?

Concordei, apesar de não estar muito a fim de beber. Pelo menos poderíamos... Respirar outros ares.

Fomos para um restaurante perto da nossa casa, onde íamos tanto que o garçom – Amsterdã era o nome dele - tinha intimidade o bastante para comentar:

- Estão sumidas!

Ve respondeu com o sorriso simpático de sempre:

- Trabalhando muito.

Amsterdã sorriu de volta, acenou com a cabeça, depositou duas tulipas de chope na nossa frente e foi atender outra mesa.

Foi um momento que agora já consigo achar engraçado. Não precisou de palavras. Estava tudo lá, explícito, em nossos olhares.

A única coisa que Ve disse foi:

- Vou pra casa fazer as malas e depois pego o resto.

Levantou devagar. Talvez esperasse, desejasse que eu a impedisse? Difícil falar. Fiquei estática. Nunca fui boa em reagir rápido.

Ela ameaçou pegar a carteira na bolsa, porém eu a impedi:

- Deixa que eu pago.

Mais um olhar. Uma última, intensa, densa troca de almas que já não estavam mais interligadas. Antes de Verônica se virar e me deixar.

Fiquei olhando para o copo em minha frente, sem conseguir sentir nada. Dizem que quando uma dor é muito intensa, como um braço ou uma perna arrancada, nossa mente nos anestesia, impedindo de sentir aquilo que não somos capazes de suportar. Talvez fosse isso. Não vou saber jamais.

Peguei o chope e bebi. De uma vez só. Bati com o copo vazio na mesa, o afastando de mim. Peguei a tulipa de Ve, abandonada na frente do lugar - agora vazio – onde ela estava sentada.

O segundo de muitos copos que naquela noite eu entornaria. Só que não mais com pressa, de um só gole. Lentamente. Absolutamente devagar. Afogando aos poucos a dor imensa que já começava a me dominar.

Um comentário:

  1. Rê disse...

    Numa relação onde não existe respeito não tem o q se tentar salvar.
    Triste... muito triste.


    ◄ Responder Comentário 29 de novembro de 2010 23:16
    Aninha aruen disse...

    adorei,muito profundo...me senti na historia e fiquei triste junto...rssrs to curiosa pra saber no que vai dar isso tudo...bjs enormes Di!
    ◄ Responder Comentário 29 de novembro de 2010 23:48
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Rê
    Ai, ai...
    Bota triste mesmo, minha amiga!
    Mas como vc bem sabe, muita coisa vai rolar ainda...
    Estamos te esperando ansiosas, viu?
    BJ suuuuuuuuper gigante!!!
    ◄ Responder Comentário 30 de novembro de 2010 10:46
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Aninha aruen
    Oi Linda!
    Td bem?
    Bom... Muita coisa ainda vai acontecer...
    Que bom que continua gostando!
    BJ mega imenso!
    ◄ Responder Comentário 30 de novembro de 2010 10:47
    suelen disse...

    Gosto da descrição dos sentimentos, é rápida porém, nem um pouco efêmera.
    Ela fica, como já falei, é tátel.

    Parabéns.
    ◄ Responder Comentário 30 de novembro de 2010 18:08
    DIEDRA ROIZ disse...

    @suelen
    Vc nem imagina a felicidade que teu comentário me deu...
    Pq não é fácil, sabe?
    A gente tenta, mas nunca fica exatamente como imaginado, é uma batalha travada com as palavras que muitas vezes (pra não dizer sempre) são pouco pra exprimir sentimentos...
    Bom, eu tento.
    Vc me fez achar que estou indo pelo caminho certo.
    Muito, mas muito obrigada mesmo!
    BJ muito mais do que imenso!
    ◄ Responder Comentário 2 de dezembro de 2010 13:38

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