terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parte 06

Insistir no Erro pode Acabar Mal

Insustentável.
Era como a situação estava.
Queria terminar com Vivian. Mais do que isso: precisava.
Porém, não existe nada pior do que uma mulher desprezada. O simples fato de eu ter parado de atender aos telefonemas dela já a deixaram completamente descontrolada.
Para meu total desespero, ela passou a ligar freqüentemente para Verônica. Como eu sei? Verônica me contava. Estranhando, claro. Mas ainda não desconfiando de nada. Era apenas um sutil aviso de: cuidado!
Vivian tanto fez que acabamos marcando um programa a quatro. Sábado à noite, num barzinho na Farme.
Eu absolutamente tensa. Com medo até de respirar. Sentada entre Vivian e Ve, com Maura na minha frente. Esperando que Sancho chegasse.
Tinha ligado para ele escondido – o que era falar baixinho no celular, num canto da cozinha, perto das outras coisas as quais eu me prestava? -  enquanto Ve tomava banho:
- Pelo amor de deus, viado! Você tem que me ajudar!
Ele continuou sem se abalar:
- Mona, o que você quer que eu faça?
Nem eu sabia. Provavelmente nada. Mas a simples presença dele era um apoio imprescindível no meu atual estado:
- Só aparece lá.
Sancho acabou concordando. Não sem antes soltar um profético:
- Isso ainda vai acabar mal!
Fiquei lá sentada com a frase de mau agouro se repetindo como um refrão maligno em minha cabeça. Sem conseguir prestar atenção na conversa. Ve estranhou - eu ficar calada? Não era nem um pouco normal -  mas não disse nada.
Até que finalmente, Sancho chegou. Fingindo ser uma coincidência:
- Oi, meninas! Que surpresa encontrar vocês aqui!
Como um ótimo ator pode ser tão canastra fora do palco?
Ve e Vivian não me olharam, me fuzilaram. Perfeitamente cientes de que eu o havia chamado. Cada uma com seu próprio motivo, claro. Ve com seus ciúmes doentios. Vivian pela percepção de que eu tinha recrutado reforços para evitá-la.
Maura continuou tomando o chope dela tranqüilamente, sem desconfiar de nada.
Sancho sentou estrategicamente entre Vivian e eu. Deixando-me imediatamente aliviada. Sensação que durou pouco porque... Aquilo que eu estava prorrogando tornou-se inevitável: depois de mais dois chopes, precisava desesperadamente ir ao banheiro. Não tinha mais como segurar.
Tentei ser rápida. Sabendo perfeitamente do perigo que estava correndo. Ouvi a porta se abrir. Passos. Agachei, olhei por baixo da porta – a que ponto eu tinha chegado! – e reconheci os pés de Vivian.
Xinguei mentalmente. Ela não só tinha vindo atrás de mim, como me esperava. Não podia ficar ali trancada no reservado até ela desistir – apesar de ser o que eu mais desejava – porque se demorasse, Ve ia estranhar, desconfiar e provavelmente entrar banheiro adentro já prontinha para me matar.
Sem opção, abri a porta lentamente. E dei de cara com a loira encostada no mármore da pia, de braços cruzados.
Minha estratégia foi fingir que não estava acontecendo nada. Impossível. Vivian me puxou pelo braço:
- Vai me ignorar a noite inteira?
Suspirei, absolutamente exasperada. Antes de falar, nem um pouco calma:
- Você tá com a sua mulher, e eu com a minha. O que quer que eu faça?
Surpreendentemente, meu tom de voz agressivo a fez mudar da água para o vinho. Vivian passou os braços ao redor do meu pescoço e disse, fazendo beicinho e jogando charme:
- Não pode nem me olhar?
Naquele momento, fui a prova viva de que a carne é fraca. Olhei para a loira sedutora colada em mim, se jogando em meus braços e não resisti. Dei o que os lábios dela imploravam: os meus.
Estávamos assim, unidas num beijo que mataria uma pessoa asmática, quando com um estrondo, a porta se abriu. Nos separamos num salto. Não rápido o suficiente. Ve ficou ali parada na minha frente, enquanto eu soltava a frase mais clichê e idiota do mundo, porque... minha mente parecia vazia, um grande e imenso vácuo:
- Ve, não é nada disso que você tá pensando... Calma...
Ela chegou a rir. De pura raiva. Antes de gritar:
- Sua filha da puta!
E virar a mão na minha cara.
E Vivian? Não sei. Desapareceu como num passe de mágica. Não me viu catar cavaco.
Sim, pois a bofetada de Ve foi tão forte que chegou a me desequilibrar. Quando voltei a ficar ereta, não teve conversa. Ela me bateu, dessa vez do outro lado.
Repetiu isso cada vez que eu levantei o rosto. A única coisa que cortava o silêncio absoluto era o estalar dos tapas. Contei mais umas cinco vezes antes que Ve parasse de me esbofetear. Ofegante, esbaforida, num misto de fúria e cansaço.
Não consegui dizer nada. Nem podia, não é verdade? Apanhei calada. Sem revidar. Ela tinha a razão, o direito, o motivo. Mesmo sem saber da missa a metade. Estava certíssima. E eu errada.
Antes de sair majestosamente, Ve ainda disse:
- Vou pra casa. Não me apareça lá, a não ser que queira que eu te mate!


- Eu bem que te avisei!
A frase de Sancho contrastava totalmente com a forma carinhosa e protetora que ele me abraçava. Enquanto eu me acabava de tanto chorar.
Ainda estávamos no bar, mas eu não ligava. Precisava colocar para fora, extravasar. Parecia que se não o fizesse, o que eu sentia inflaria a ponto de me explodir ou sufocar. Não que eu ligasse. A idéia de morrer parecia... Um alívio. A única coisa capaz de me proporcionar algum conforto. Diluir no esquecimento a minha dor.
Sim, pois por mais estranho e bizarro que parecesse, naquele instante eu estava sofrendo porque... Era como se uma venda tivesse caído dos meus olhos e eu finalmente percebesse a besteira gigantesca que havia feito.
Amava Ve, e perdê-la seria... Nem conseguia – muito menos queria - imaginar o que.
Não era um vazio, era mais... Uma dor que jorrava? Crescia, expandia, a tal ponto que já não cabia dentro de mim.
E o pior: o estrago estava feito, eu não tinha como negar, muito menos voltar atrás.
Entre os soluços intermináveis, gaguejei:
- E agora? O que eu faço?
Sancho respondeu rápido:
- Vai pra casa!
Sacudi a cabeça negativamente, tentando explicar:
- A Ve disse que me mata...
Ele riu. Olhou para cima, deixando escapar um:
- Ai, ai... Será possível que vou ter que te ensinar?
Que até me fez parar de chorar. Olhei para ele boquiaberta, sem entender nada. Sancho foi obrigado a explicar:
- Queridinha, a sua mulher chegou aqui na mesa jogando a merda no ventilador, não é verdade? Contou tudo pra Maura, que saiu tocando a Vivian a tapas. Pois então... Se dormir fora, ela vai achar que você passou a noite com a sua amante.
Impossível não concordar:
- Tem razão. Nada vai fazer a Ve acreditar que dormi na sua casa.
Sancho completou, com uma sabedoria invejável:
- Te digo mais: se quiser reverter a situação, pode chegar lá pronta pra implorar, suplicar e rastejar. Ainda assim, conhecendo a Verônica, não sei se vai colar.
Foi quando realmente me toquei e parei para pensar: Poderia não ter jeito? Não podia existir essa possibilidade! Tinha que funcionar!
Pedi uma mousse de chocolate para viagem – Ve adorava. Minha primeira tentativa de adoçá-la.
O resto fui pensando no carro, enquanto Sancho me levava para casa.


Entrei cautelosamente. Tudo apagado. Nem sombra de Ve na sala, na cozinha, ou no quarto... Na verdade, ela não estava.
Liguei para o celular dela: desligado.
Comecei a me desesperar.
Repeti mil vezes para mim mesma:
- Calma!
Até resolver tomar um banho e tentar melhorar um pouco a cara – toda inchada de tanto chorar.
Fiquei horas debaixo do chuveiro e nada de Verônica chegar.
Preparei-me para ela de um jeito que nunca havia feito. Prestando atenção em cada detalhe. O perfume que ela mais gostava, o baby doll que ela dizia ser irresistível e que a fazia me agarrar toda vez que eu usava. Deitei na cama e fiquei à espera.
As horas passaram. Levantei e começar a andar em total desespero pela sala. De um lado para o outro, uma dor incrível na boca do estômago, a pulsação acelerada, uma náusea estranha subindo garganta acima. Tensa. Absolutamente angustiada.
Quando amanheceu, finalmente  ouvi o barulho da chave rodando na fechadura. Senti um alívio profundo e... Um nervosismo que me fez correr para o quarto antes que ela abrisse a porta e entrasse.
Fiquei deitada na cama, o coração batendo tão alto que com certeza ela poderia escutar.
Ouvi alguns barulhos na sala. Como se ela esbarrasse nos móveis, embriagada.
Confirmei a impressão assim que Ve entrou no quarto. Completamente trôpega, andando em ziguezague. Bêbada. Como eu nunca havia visto igual.
Atirou os sapatos contra o armário. Fez o mesmo com a bolsa. Olhou-me e falou com uma ironia amarga:
- Ah, você está em casa? E ainda por cima acordada?
Falei o mais doce possível. Como se numa simples frase pudesse mostrar o que sentia:
- Amor... Eu... Tava te esperando... Eu... Fiquei preocupada com você.
Ela riu, e respondeu da mesma forma sarcástica:
- Muita gentileza sua, mas... Não acha um pouco tarde demais?
Era a deixa que eu esperava. Ajoelhei na cama, deixando cair as lágrimas:
- Ve... Por favor, me desculpa... Me perdoa, eu... Foi um erro e... Foi a primeira e última vez e... Eu juro, não vai acontecer mais! Não quero, não posso te perder, porque... Eu  amo você! Muito! De verdade! Eu te amo! Você precisa acreditar!
Ela ficou me olhando. Seríssima. Sem uma palavra. O rosto impassível? Não. Tinha uma expressão que eu não consegui interpretar. Indecifrável.
Continuei chorando. Aproximei-me dela, de joelhos na beirada da cama.
Foi tudo muito rápido? Ou apenas inesperado?
A verdade é que fui totalmente pega de surpresa quando Ve se aproximou e me beijou, de um jeito muito mais do que apaixonado. Quando dei por mim estava deitada na cama, com Ve em cima de mim, minhas roupas e as dela sendo arrancadas.
Eu numa entrega diferente de tudo, que nunca tinha tido para ela. Completamente rendida, encantada, enfeitiçada... Era a primeira vez que cada célula do meu corpo percebia, aceitava e confessava:
- Eu te amo!
Não cansava de repetir. As palavras saíam sem parar. A cada beijo, carícia, gemido. No ofegar da minha respiração descompassada.
Ve estava... Estranha. Era exatamente essa a palavra.
Silenciosa. Logo ela, que nunca, em todas as vezes que tínhamos feito amor, havia ficado calada.
A única coisa que disse foi:
- Não. Deixa que só eu faço.
Quando tentei tocá-la.
Colocou meus braços acima da minha cabeça, me fez segurar na cabeceira da cama, e tomou posse de mim inteira. Sem que eu pudesse – e muito menos quisesse – fazer nada.

Um comentário:

  1. Mery disse...

    Andei ocupada. Saudades de ler Diedra.

    Tava precisando das suas palavras.

    Beijo.
    ◄ Responder Comentário 26 de novembro de 2010 16:38
    Anônimo disse...

    Diedra; estava com saudades dos teus textos, tenho me divertido bastante com essa história ,leve bem humorada,vc é uma de minhas escritoras favoritas. bjs
    rosana
    ◄ Responder Comentário 26 de novembro de 2010 19:28
    Anônimo disse...

    Diedra estava com saudades dos teus textos,estou adorando esta tua história ,muito leve divertida tenho dado boas risadas.Vc é uma das minhas escritoras favoritas. bjs
    Rosana
    ◄ Responder Comentário 26 de novembro de 2010 19:32
    Aninha aruen disse...

    tá cada vez ficando melhor...to adorando e morrendo de curiosidade de saber no que vai dar isso...bjs enormes Di!!!
    ◄ Responder Comentário 26 de novembro de 2010 21:02
    Rê disse...

    Eu não lembro muito bem desse conto, mas se não me engano... a Vê larga uma bomba do tamanho de um bonde agora...

    Muito bom... tô com saudades... tô trabalhando feito escrava... que não é a Isaura, mas quase.

    Bjs...


    ◄ Responder Comentário 26 de novembro de 2010 23:11

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