terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parte 05

O Fácil pode se tornar cada vez mais Difícil

Mulheres... 
Como definir? 
Impossível. 
Poderia usar centenas, milhares, bilhões de palavras sem conseguir ser exata. Nós somos indecifráveis, essa é a verdade.

A proposta de Vivian seria perfeita se não fosse esse fato.

Por que quando, em toda a história da humanidade, se ouviu falar em duas mulheres que conseguissem trepar mais de três vezes sem que nenhuma das duas se apaixonasse?

Eu falo em três porque além, muito além da cabala, o três realmente parece ser o número mágico. 
No caso de sexo e mais nada, é o que basta. Chegando no quatro... Bem, aí já é um caso. Sim, basta fazer sexo com a mesma pessoa quatro vezes para a mulher mais fria começar a se relacionar. Porque feliz ou infelizmente – para mim ainda não está claro – mulheres são seres que criam laços.

Logo, o que aconteceu não era nada inesperado. Passei a ter não uma, mas duas mulheres que não me deixavam em paz.

No Rio eu era a namorada aparentemente exemplar. Apesar de Vivian viver me ligando, mandando mensagens, aparecendo do nada.  Vê não desconfiava dela. Pelo simples fato de Vivian ser casada. E dos muitos programas que fazíamos a quatro. Situação altamente perigosa. Insustentável.

Nas viagens com o espetáculo, Vivian agia como se fosse minha namorada. Com direito a ataque de ciúmes se eu ousasse olhar para o lado. Insuportável.

Por que eu não terminava? Não queria perder Vê.

E Vivian... Eu até tentei. Fui obrigada a desistir, graças a reação dela: uma enxurrada de ameaças. Não chegava a uma Glen Close em “Atração Fatal”, mas o medo que eu sentia era quase igual.

Não que a relação com Vivian fosse insuportável. Muito pelo contrário. Ela era estimulante, sedutora, ousada. Gostava de brincadeirinhas, fantasias, adereços, apetrechos eróticos. De vez em quando se vestia – era figurinista, para ela era fácil – criava personagens. Nossos encontros eram tudo, menos monótonos. E com isso me mantinha interessada.

O que me apavorava era o fato de aos poucos, ela ter se tornado cada vez mais descuidada. A ponto da mulher dela desconfiar.

Enquanto isso, mais uma das ironias infernais da minha vida começava. Verônica cismou que queria casar.

Sabe aquela piadinha: o que duas lésbicas levam no segundo encontro? O caminhão de mudança... Pois é. Pra mim não funcionava.

Na verdade, eu não queria casar. Não sei se por causa das intermináveis brigas e discussões entre meus pais que tinha presenciado antes deles se separarem, ou do fracasso do meu casamento com Cláudia.

Preferia ter a minha casa, meu espaço, me recusava a abrir mão da minha intensa necessidade de trancar portas, poder ficar comigo mesma, tomar decisões sozinha, entre outras coisas que o casamento tornava inviável.

Era uma coisa que desde a infância eu carregava. Como se eu já tivesse nascido consciente da minha total incapacidade de abrir mão da minha individualidade. Tanto que quando brincava de casinha eu sempre era mãe solteira ou divorciada.

Mas naquela época eu desconhecia a persistência, a insistência de que uma mulher decidida é capaz. E o quanto eu ficava manipulável quando estava apaixonada.

E assim, pela segunda vez, cedi. Assinei voluntariamente a ordem para que os grilhões fossem fechados.

Mais ainda quando as viagens do espetáculo terminaram.

A possessividade de Verônica piorou cada vez mais. Quando estava trabalhando telefonava várias vezes para casa, não me deixava em paz.

Num dia em que Sancho atendeu ao telefone, surtou:

- O que ele tá fazendo aí? Você passa mais tempo com ele do que comigo!

Mesmo se tivesse contado até dez teria respondido. Mas talvez não fosse tão enfática:

- Se não tá satisfeita é muito fácil: a gente se separa!

A mudança foi imediata. Com a voz muito doce, se desculpou. Tentou justificar:

- Tô muito estressada, amor.

Porém, cada vez mais as desculpas se tornaram constantes. As palavras deixaram de ser cuidadas e medidas. As agressões e discussões se tornando cotidianas e normais.

O alívio vinha sob a forma das noites que ela passava no hospital. Eu ficava em casa, caso Ve resolvesse – como era usual – ligar para me controlar. Conectava a internet e passava horas nos chats.

Procurando conhecer alguém? Pelo contrário! Ve e Vivian já eram até demais.

Na verdade eu queria – precisava – conversar. Poder falar, contar sem pudores meus medos, dúvidas, mágoas. Descobrir se era só eu ou se no mundo existia mais alguém que compartilhasse minha estranha forma de sentir e pensar.

Infelizmente, a maioria só queria mesmo sexo virtual. Cheguei a experimentar, porém... Achei a coisa mais sem graça. Contato físico para mim era essencial. A única forma que eu conhecia de expressar afetos e obter – por mais efêmero que fosse – o que me faltava.

Num dos inúmeros dias em que eu estava na sala de bate-papo, o interfone começou a tocar.

Estranhei, já era de madrugada. E caso Ve tivesse voltado mais cedo para casa – coisa praticamente impensável – ela não tocaria, usaria a chave.

Atendi, um pouco tensa:

- Oi?

A resposta não me acalmou. Pelo contrário:

- Sou eu. Abre!

- Vivian? – exclamei assustada, antes de completar: - O que você tá fazendo aqui tão tarde?

A resposta foi irritada:

- Morrendo de medo de ser assaltada, já que tô aqui plantada no meio da calçada! Abre logo essa merda!

Obedeci. No automático. Sem saber o que era maior: o pânico ou a curiosidade. Abri a porta, fiquei esperando o elevador chegar.

Vivian surgiu, toda arrumada e perfumada. Beijou-me de leve nos lábios antes de entrar. Esperou que eu fechasse a porta para se pendurar no meu pescoço, dizendo:

- A Maura viajou. Pensei que podíamos aproveitar...

Não achei a menor graça. A esposa dela viajava e ela aparecia de surpresa na minha casa? Aquilo já era um pouco – para não dizer totalmente – demais.

Não tive como disfarçar. Vivian fez beicinho. Reclamou:

- Poxa, pensei que você fosse adorar...

Livrei-me dos braços dela. Minha voz soou absolutamente irritada:

- Você enlouqueceu de vez? E se a Ve estivesse em casa?

Ela riu, com superioridade:

- Meu amor, eu sei exatamente os dias em que a Verônica trabalha. Pode ficar sossegada.

Retruquei, exasperada:

- E se ela tivesse trocado, voltasse ou voltar mais cedo, ou sei lá... Será que você não entende que isso é muito arriscado?

Com um brilho malicioso, provocante, sedutor no olhar, Vivian se aproximou de mim. Colou o corpo no meu, enfiou os dedos em minha nuca e sussurrou:

- Essa é a graça...

Antes de colar os lábios nos meus de um jeito que não me permitia nem pensar em escapar.



Às cinco e meia da manhã, comecei a tentar expulsar Vivian, mas ela não cooperava. Ficou tentando me puxar de volta para a cama, insistindo:

- É cedo, ela não vai chegar antes das sete, quero mais...

Minha vontade era estapeá-la. Mas Vivian já não era muito equilibrada. Se por acaso surtasse e resolvesse esperar Ve, contar para ela ou... Não sabia do que a maluca era capaz.

Respondi, tentando me manter calma:

- Não dá tempo. Preciso eliminar todos os vestígios.

Eu já estava em pé, vestindo as calças, absolutamente estressada. Vivian soltou uma gargalhada, antes de comentar, sem parar de rir da minha cara:

- Sua mulher é o que? Da SWAT?

Pensei alto:

- Quase...

Finalmente, Vivian pareceu levar minha preocupação a sério. Levantou, se vestiu e informou, como se estivesse me fazendo um grande favor:

- Tudo bem. Eu vou pra casa.

Pegou a bolsa e caminhou até a porta, se fazendo de ofendida. Comigo atrás.

Depois de um beijo de despedida, ainda disse:

- Você tem que deixar de ser tão capacho.



Voltei irada para o quarto. Troquei a roupa de cama inteira, varri, joguei cada fio de cabelo loiro privada abaixo.

Enquanto tomava banho, o remorso veio. Terrível opressão no peito. Eu era a pior das mulheres. Uma verdadeira filha da puta!

Trair Ve era uma coisa. Em nossa própria cama, dentro da nossa casa, era muito pior, muito mais pesado. Indesculpável.

Ou será que não tinha diferença? Traição era traição e pronto? Tinha agravante se mudasse de lugar? Fazia-me ser mais infame? Mais do que ser alguém que repetia consciente e propositalmente o erro, sem sequer tentar evitar?

Por mais que me esfregasse, não me sentia limpa. Era como se a sujeira me acompanhasse.

Saí do chuveiro, sequei o cabelo, joguei bom ar no quarto.

Foi me deitar na cama para Ve chegar.

Impossível fingir que estava dormindo. Ela ia perceber e desconfiar. Fiz aquilo que para o meu júri interno, aumentava minha pena ao máximo:

- Oi, amor! Tava te esperando...

Ve olhou em volta. Para o quarto limpo, arrumado e perfumado. A cama novinha em folha onde eu estava deitada, recém saída do banho, e sorriu, com a maior felicidade:

- Surpresa boa, amor!

Morri um pouquinho por dentro com aquela frase. Como se a verdadeira face da minha monstruosidade me apunhalasse, me rasgasse a carne.

Dor que só piorou quando ela se livrou da bolsa e das roupas apressadamente e se atirou em cima de mim com milhares de beijos apaixonados, dizendo:

- Minha mulher maravilhosa! Te amo demais!

Um comentário:

  1. Tibet disse...

    este capitulo foi de prender o folego!e a gente fica aqui esperando ansiosa pelos próximos...
    estava pensando, se houvesse uma trilha sonora...
    ◄ Responder Comentário 22 de novembro de 2010 21:06
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Tibet
    Que bom que não desistiu de ler e que continua gostando!
    Com relação à trilha sonora... Isso é com a Marcela, né? kkk
    BJ super gigantesco, linda!
    ◄ Responder Comentário 22 de novembro de 2010 21:17
    Aninha aruen disse...

    nossa que complicação..rsrsrs.a vida é cheio de coisas loucas assim né,dessas confusões de sentimentos,mas eu acho normal esse tipo de confusão as vezes,ajuda a crescer...bjs enormes Di!!! to adorando a história!!
    ◄ Responder Comentário 22 de novembro de 2010 22:28
    JV disse...

    nossa toh amando a historia!!! =)

    continuaaaa *_*
    ◄ Responder Comentário 23 de novembro de 2010 03:48
    Anna disse...

    Esse é meu segundo comentário sobre essa história...

    Mas quero deixar claro que li tudinho e adorei esse tipo de narrativa!
    Ta demais!

    Valeu menina
    ◄ Responder Comentário 23 de novembro de 2010 20:24
    Chester Perdigão disse...

    "- Minha mulher maravilhosa! Te amo demais!"
    Depois dessa declaração eu ia morrer de remorso!

    está cada vez mais emocionante!*-*
    to ansiosa pro próximo cap. e outra coisa...se tiver trilha sonora eu me apaixono pelo romance como acoteceu com o romance Amor a Qualquer Preço.XD

    bjs
    ◄ Responder Comentário 24 de novembro de 2010 01:20

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