terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parte 04

A Mentira pode se tornar uma Necessidade

Dizer, afirmar ser verdadeiro aquilo que se sabe falso.

Dissimular a verdade.

Dar informação falsa.

Causar ilusão.

Enganar, iludir, não revelar, esconder, ocultar a verdade.

Existem muitas formas de se evitar a palavra “mentira”. Nenhuma de não praticá-la. Na verdade, é até fácil fazer com que ela se torne... nossa própria vida.

O perigo é a muralha protetora da ignorância ruir. Ou os véus da omissão, preguiça, resignação e comodismo voarem. Um retrato de Dorian Gray. Assim pode ser a realidade revelada.

Curioso como a verdade pode ser temível. Ver a nós mesmos. Enxergar.  Principalmente quando a cegueira é tão mais fácil.

Depois de me comer daquele jeito no banheiro da boate, Verônica desapareceu. Não me ligou mais.

E eu?

Debati-me a semana inteira, como um peixe no anzol.

Por que?

Algo inconfessável, inevitável, que preferi não nomear.

O resultado?

Acabei telefonando pra ela, claro. Odiando aquele diabo de esquizofrenia patética e ridícula que me guiava.

Ela foi fria. Monossilábica. Mas concordou em sair comigo. Não para almoçar. Novamente à noite, numa boate.

E então, 6ª feira à noite - após Sancho e seu ritual – ficamos outra vez cara a cara.

Dessa vez ela chegou primeiro. E já estava bastante íntima de uma garçonete totalmente gata.

Não que fosse problema. Naquele momento eu realmente não acreditava em monogamia, muito menos em fidelidade. Exclusividade era tudo o que eu não queria, porque se tivesse, também seria obrigada a dar.

Mas então porque aquele incômodo um tanto quanto... desconfortável?

Quando me viu, ela veio direto pra mim. Com aquele sorriso espetacular. Não me deixou falar nada. Colou a boca na minha de uma forma absolutamente voraz. Correspondi com uma vontade maior ainda. Afinal de contas, a única coisa que eu tinha conseguido fazer com ela naquele banheiro tinha sido gozar. Mas aquela noite eu não ia deixar barato. Queria... Digamos que... pagar na mesma moeda seria... ideal.



Qualquer outra pessoa diria sem hesitar que aquela noite foi linda. O começo de tudo, digna de ser lembrada, etc e tal,  mas... na verdade foi quando a tênue linha com um precipício embaixo onde a partir de então eu seria obrigada a me equilibrar começou a se desenhar.

Indiscutível que Vê – foi como depois da noite fatídica passei a chamá-la – era... uhm... Palavras são tão imprecisas...

Como explicar que ela sabia como ninguém se entregar inteiramente em minhas mãos e no momento seguinte tomar as rédeas da situação?

Além de na cama... afe!

Em poucas palavras: sexualmente, para Vê não existiam limites.

Mas era muito, mas muito mais do que isso. Como um filme de terror, onde ao invés de fugir, a personagem propositalmente se encaminha na direção de onde veio o mais terrível de todos os ruídos.

Com uma precisão cirúrgica, ela me levava a sensações que eu não conseguia manter apenas no plano físico.

Se eu estava apaixonada? Num primeiro momento, me recusei a pensar, a acreditar, e a confessar.

Só percebi que o volante da minha vida não estava mais em minhas mãos quando já tinha mudado completamente de direção.

Então, eu já tinha almoçado na casa da tia dela, conhecido os pais, os irmãos, os avós... Mesmo sem saber como e quando, estávamos namorando.

Mas o pavor que eu sentia era tão menor do que o prazer...

Foi o que fortaleceu a relação.

E voltamos então à primeira pergunta: estava eu apaixonada? Não tinha como dizer que não. Mas não era, nem de longe, como a paixão que eu tinha sentido por Cláudia. Era mais calma. Menos exagerada. Completamente confortável. Pelo menos da minha parte.

Porque assim que nosso relacionamento ficou oficialmente estabelecido, Vê passou a surtar.

Será possível alguém achar que o fato de vigiar, desconfiar, ficar em cima de uma outra pessoa 24 horas por dia pode evitar algo?

Vamos lá: trair ou não é uma questão de escolha subjetiva, um direito adquirido quase. Nada passível de uma 3ª pessoa – por mais que seja interessada - controlar.

É quase um comercial: não adianta tomar conta, tem que acreditar.

No final, o que acontece é que, além da perseguição insana dar idéias e despertar vontades, tem como efeitos colaterais a irritação, o estresse, o desgaste,  e aquela sensação de que “já que estou levando a fama...”

É, aí deitar na cama se torna ridiculamente fácil.

Se fosse um slogan, seria: Ciúmes - a melhor forma de acelerar o processo de uma outra pessoa começar a olhar para os lados.

Bom... Uma panela de pressão num fogo alto demais inevitavelmente explode.

Claro que Vê não sabia cozinhar.

Queimava-se inteira na fogueira da possessividade. Atormentava-me a ponto de eu me sentir uma presidiária.

“Onde você foi?”

“Com quem?”

“Quem estava lá?”

“Que horas chegou em casa?”

E revirava minha bolsa, queria a senha do meu e-mail, tentava entrar no meu MSN, vasculhava meu celular a procura de... sei lá!

Quem era essa insegura louca e o que tinha feito com a mulher confiante que tanto me encantava?

Não nego que meu passado me condenava. Mas eu era solteira, o que ela esperava?

O fato de estar me comportando, “andando na linha” a ponto de meus amigos me sacanearem e meu esforço não estar valendo de nada passou a me exasperar. Começou a me deixar... muito cansada.

E como na vida nada é por acaso, o espetáculo em que eu estava trabalhando terminou a temporada no Rio de Janeiro e começou a viajar.

Depois de uma verdadeira tempestade - em que tive que bater o pé e peitar que eu iria mesmo se para isso tivéssemos que terminar - estava eu em Blumenau.

Sancho também estava – eu disse que éramos inseparáveis – no elenco e no mesmo quarto. Compramos uma vodka e uma coca cola no supermercado. Pro ritual, é claro.

Tá, eu sei que nada justifica, mas... era a primeira vez em muito tempo que eu me sentia livre, ou melhor: viva de verdade. Como se numa câmara de gás eu voltasse a ter ar para respirar.

Já entrei na boate mal intencionada. Isso faz toda a diferença.

O figurino – nem muito arrumado, nem muito largado – o perfume – quanto mais doce e feminino melhor – e a entrada – sou boa demais pra essa merda de lugar, mas... se alguém souber como chegar sou fácil – são fundamentais.

Mas de verdade?

Existe algo que nossa pele exala quanto estamos à procura de carne. As pessoas sentem de imediato.

Uma loira de cabelos curtinhos nos recebeu na porta da tal boate. Muito sorridente, me estendeu um flyer. Mas não soltou. Ficamos segurando aquele pedaço de papel e nos encarando, enquanto ela falava:

- Assisti seu espetáculo.

Sorri de volta. Inocentemente. Só querendo ser simpática:

- Gostou?

A resposta foi imediata:

- Foi impossível prestar atenção.

O tom que ela usou... Provocante, sedutor, malicioso quase. Conseguiu me deixar interessada. Mas não ia demonstrar, claro. Fingi não estar entendendo nada:

- Achou chato?

Ela não desviou o olhar. Inclinou um pouco a cabeça, sorriu, umedecendo os lábios, depois falou, no mesmo tom de antes:

- Não consegui parar de te olhar.

 

Quando saímos da boate, eu já estava pra lá de alta. Ainda assim podia sentir minhas mãos e meu nariz congelarem.

Fui andando ao lado da loira. Viramos a esquina da rua de palmeiras gigantes, olhei pro relógio que marcava: zero graus?

Como boa carioca, para mim onze graus já era um frio mortal!

Suspirei desanimada.

Não tinha rolado nada além de beijos a noite inteira. Afinal de contas, a garota trabalhava lá. Era promoter da boate.

Sancho tinha ganhado no par ou ímpar, ou seja: ia levar o carinha com quem estava pro quarto do hotel. E pra completar a desgraça: a loira morava com a tia – não podia me levar para casa - e não tinha carro.

Bom, a cidade era dela, eu não conhecia nada. Deixei que me guiasse. Bastou segurar a minha mão pra garota dizer:

- Nossa, você tá gelada!

- Tô contando com você pra me esquentar...

Rimos juntas – foi infame, vamos combinar - um monte de fumaça saindo entre as gargalhadas.

Continuamos a andar. Atravessamos uma ponte, andamos o que para mim pareceu uma eternidade. E finalmente chegamos num lugar que ela chamava de praia, mas... sinceramente? Era tipo uma pracinha com um anfiteatro e um barquinho de cimento na beira do rio.

Ela me puxou pra dentro do anfiteatro. Entre duas paredes, mas aberto nas laterais. O vento era de matar. Atravessava-me.

Claro que foi colar a boca na dela pro calor aumentar. Cada vez mais. No começo ela reclamou das minhas mãos frias, mas depois a temperatura subiu, junto com a do corpo dela. Quando minha mão finalmente a tocou onde eu queria, ouvimos vozes. Nos afastamos, ajeitando as roupas. Xingando mentalmente, claro.

Eram três skatistas aborrecentes. Fumando um baseado. Já tinha amanhecido. O que queria dizer que... Talvez conseguisse um quarto vago.

Chegamos no hotel em questão de segundos. Fui direto pro salão onde serviam o café. Deixei a loira esperando na recepção. A única pessoa conhecida que vi foi Vivian, a figurinista do espetáculo. Com quem eu não tinha a menor intimidade. Sabia que ela era entendida e casada. Nada mais. Meu desespero me deixou totalmente cara de pau:

- Tem alguém no seu quarto?

Ela me olhou de cima a baixo. Antes de responder:

- Não, por que?

E eu:

- Me empresta a chave?

Não precisei explicar mais nada. Ela só disse:

- Pensei que você tivesse namorada.

Não respondi. Limitei-me a um:

- Não vou demorar.



Blumenau foi a primeira de muitas cidades. E a loira a primeira de muitas minhocas – garotas da terra – que eu pegava.

Minhas escapadas fizeram minha relação melhorar. Eu estava indubitavelmente mais calma. E Vê, obviamente, de nada desconfiava.

Aqui, nesse momento, posso estar parecendo completamente canalha. Por não sentir culpa, remorso, nem me martirizar como uma boa alma faz.

Por que eu deveria me sentir mal com algo que estava fazendo meu namoro finalmente funcionar? Se eu nunca pensei em terminar com Vê, foi porque... estava apaixonada.

Não conseguir viver sufocada nem me anular, sentir tesão por outras mulheres não queria dizer o contrário. O que mata é esse maniqueísmo ocidental. Essa mania de certo e errado, bom e mau, preto e branco que ignora toda uma nuance intermediária de relatividades.

Eu a amava. De verdade. Ou era apenas mais uma das muitas inverdades que eu cultivava?

Depois daquela manhã em Blumenau, Vivian se tornou minha amiga. E percebi que ela também não era tão fiel quanto aparentava. Dava sim suas saidinhas, só que a discrição dela era insuperável.

Estávamos em Varginha, quando Vivian me chamou pra ir ao quarto dela, dizendo que tinha um assunto urgente pra conversar.

Recebeu-me com uma taça de vinho. Normal. Ela adorava. Tinha o hábito de sempre ter uma garrafa no quarto.

Sentei do lado dela na cama, curiosíssima. Ela olhou dentro dos meus olhos, de um jeito que me fez entender antes mesmo de escutar:

- Nós duas somos muito parecidas. Gostamos de sexo. Nunca vamos confundir as coisas nem nos apaixonar uma pela outra. Podemos ser amantes. Que tal?

Uma proposta dessas, vinda de uma mulher daquelas... Como recusar?

Um comentário:

  1. Anônimo disse...

    Adorei...

    Está desculpada Diedra, vc tem crédito...
    ◄ Responder Comentário 20 de novembro de 2010 22:04
    Tibet disse...

    Senti sua falta, que bom que por bons motivos!
    ◄ Responder Comentário 21 de novembro de 2010 05:10
    Aninha aruen disse...

    adorei esse capitulo,engraçado q algumas pessoas qd ñ são traidas desconfiam até da sombra...e qd são, ñ desconfiam de nada...vejo isso acontecer direto..insegurança demais é convite pra traição,pq afinal ninguem aguenta né,ser vigiada o tempo todo,as vezes uma coisa errada é preciso pra q o certo aconteça,ou pra nos sentirmos melhor... bjss enormes Di!! :)
    ◄ Responder Comentário 21 de novembro de 2010 09:22
    Anônimo disse...

    Olá, Diedra!

    Eu gostaria de saber como faço para entrar em contato com Drika Sullivan, pois estou fazendo um documentário sobre visibilidade homossexual nos espaços públicos e gostaria de musicar o texto que ela fez e vc postou no parada lésbica.

    Grata,
    Meg.
    ◄ Responder Comentário 21 de novembro de 2010 18:59
    Anônimo disse...

    Diedra,

    Na sua opinião, as lésbicas traem mais do q as héteros?
    Eu sei q isso é só um conto, mas o tema é recorrente nos contos q leio pela net. Fico pensando...
    ◄ Responder Comentário 22 de novembro de 2010 14:41
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Anônimo
    Oi Linda!
    Td bem?
    Só posso te agradecer, né?
    Muito, mas muito obrigada mesmo!
    BJ super imenso!
    ◄ Responder Comentário 22 de novembro de 2010 18:10
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Tibet
    Felizmente, muito mais do que bons!
    BJ ultra imenso!
    ◄ Responder Comentário 22 de novembro de 2010 18:11
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Aninha aruen
    Amiga,
    É como eu sempre digo: há de se confiar no próprio taco, né?
    kkk
    BJ mega imenso!
    ◄ Responder Comentário 22 de novembro de 2010 18:12
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Anônimo
    Oi Meg!
    Td bem?
    Tenho ela nos meus amigos do orkut, dá uma olhadinha lá, ok?
    Desculpe, não é má vontade, só um enorme excesso de trabalho... Tipo assim, ó: se respirar não fosse involuntário, eu não sei onde arrumaria tempo pra inspirar e expirar... kkk
    BJ hiper imenso!
    ◄ Responder Comentário 22 de novembro de 2010 18:14
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Anônimo
    Na minha opinião, é impossível generalizar seres humanos. Existem vários e infinitos tipos de heteros e de les. Não existem duas pessoas iguais, né? Pessoas são pessoas. Cada qual absolutamente singular e diversa. Assim, umas traem mais, outras menos, outras sequer traem. Independentemente de orientação sexual, raça, cor, gênero. Também existem fases. A mesma pessoa transita por diversos estados, a única certeza na vida é que nada é definitivo...
    Traindo ou não traindo, faço minhas as palavras de Miranda em A TEMPESTADE:
    "Oh, maravilha! Que criaturas tão belas!
    Como o ser humano é lindo! Admirável mundo novo que possui pessoas como estas!”
    Não me leve a mal, please!
    Ando Shakespeariana demais assim mesmo, eita! kkk
    BJ muito mais do que imenso!
    ◄ Responder Comentário 22 de novembro de 2010 18:24
    Chester Perdigão disse...

    Está mais que perdoada!^^
    eu tbm estou sumida! ai quando vc atrasa eu consigo acompanhar!XD

    maaaaaas adorei esse cap.
    agora sobre traição...como disse a Aninha aruen, quando a pessoa não é traida ela desconfia de tudo e quando é não percebe nada.

    bjs

    obs: Se ela recusar eu aceito a proposta da Vivian! o/
    ◄ Responder Comentário 24 de novembro de 2010 01:07

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