terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parte 03

Baixar a guarda pode causar estragos irrecuperáveis

O dia seguinte me encontrou deitada no meio das duas meninas, que ainda dormiam. Demorei um tempo pra me lembrar onde estava. Na casa da loirinha, claro! Em Niterói. Outra cidade. Mesmo de ônibus, eu estaria em casa em no máximo 40 minutos, mas...

Ai!

A distância que o tesão da véspera tinha feito ser pequena agora parecia enorme. Em grande parte graças à ressaca.

Vesti-me sem pressa. Era sábado. Não tinha nada para fazer, mas também não estava nem um pouco a fim de ficar. Todo e qualquer tipo de interesse tinha se esgotado.

Além disso, detestava aquela coisinha manhã seguinte, a obrigação de se ter algo pra falar, tentar ser simpática e fingir que aquilo tinha mais significado do que usar um copo descartável.

Eu sei. Parece frio, insensível, execrável.  E é, de fato. Mas não estou me propondo a agradar, e sim, a dizer a verdade. Pequenos flashes da putrefata face de um tempo onde amar as coisas e usar as pessoas é muito mais fácil do que o contrário.

Por mais que isso seja... Aquele pequeno segredinho inconfessável guardado no fundo da gaveta mais escondida do nosso armário.

Saí do prédio sem ter noção de onde estava. Mas perguntar é a forma mais certa de se chegar a qualquer lugar. Em minutos estava no ponto de ônibus esperando o 996, que me deixaria na porta de casa.

Foi quando o meu celular começou a tocar. Uma voz incrivelmente animada disse do outro lado:

- Oi, linda! É a Verônica.

Verônica? Não fazia idéia de quem era, por isso não disse nada. Esperando que alguma coisa que ela dissesse matasse a charada. O que aconteceu muito mais do que rápido:

- Te disse ontem que ia ligar.

A morena! Claro! O ônibus surgiu, fiz sinal. Ele parou, entrei, passei pela roleta e peguei o troco enquanto escutava:

- Só que infelizmente, ainda não vai ser hoje. Nem essa semana, pra falar a verdade. Vou trabalhar direto. Senão você não me escapava.

Não tive como deixar de rir. O que era aquilo? Alguma tática inusitada? Ligar-me pra dizer que não ia poder me encontrar? Estava funcionando, porque... Despertou-me uma curiosidade absolutamente anormal:

- Você é o que? Algum tipo de escrava?

Foi a vez dela rir do outro lado. De um jeito que me incitava. Depois respondeu:

- Quase. Sou instrumentadora cirúrgica.

Fiquei um pouco impressionada. Afinal, o simples fato de cortar um bife cru me deixava enjoada... Deixei escapar um:

- Uau!

Que nos fez rir juntas. Então completei – sem bem entender porque, mas foi incontrolável:

- Não vai ter nem um tempinho?

Uma pausa. Onde ela pareceu consultar uma agenda mental. Ou pesar os prós e os contras, quem sabe? Antes de responder:

- Não acho prudente te encontrar em momentos onde provavelmente vou estar um bagaço...

Mais uma risada compartilhada. E então ela completou:

- A não ser que você aceite me encontrar pra almoçar.

Aquele era um convite um tanto quanto... Inusitado. Muito diferente do que eu esperava e estava habituada.

Implicava em várias coisas que para mim no momento pareciam impossíveis, complicadas, inviáveis. Ficar cara a cara com aquela mulher numa mesa, à luz do dia, sem nem estar alta, conseguindo escutar tudo que ela falasse. Só de pensar já me apavorava.

- Ah, vamos lá... Eu deixo você escolher o lugar.

Estranhamente, alguma coisa naquele tom de voz quase hipnótico que ela usava me fez ter vontade de concordar. E foi o que fiz. Da forma mais bizarra: sem hesitar.



No dia seguinte, almoçamos. E foi surpreendente. Ela era de uma inteligência... Sagaz.

A conversa fluiu, às vezes divertida, outras provocante, mas o tempo inteiro completamente à vontade, como se já nos conhecêssemos. Parece clichê, mas a pura verdade.

Quando terminamos, ela fez questão de pagar:

- Eu convidei.

E como eu continuasse a protestar:

- Na próxima você paga.

Espertamente deixando a certeza de um novo encontro no ar.



Mais duas semanas, mais dois almoços corridos em brechas que ela conseguia do trabalho.

Sexo nada. Apenas beijos – calientes, nem um pouco comportados, que me deixavam em brasa, mas sem finalmentes, porque... Quando começava a chegar aonde eu queria, ela parava - nos banheiros dos restaurantes  aumentando a vontade imensa de algo mais.

O que estava acontecendo, o que ela pretendia, afinal?

Não sei se todo mundo é assim, mas... Dizer que eu não posso ter ou fazer qualquer coisa é a melhor forma de me instigar. Não é como não gostar de coisas fáceis, é algo muito mais compulsivo do que isso.

Um profundo amor por desafios aliado a um não acreditar em impossibilidades.

Pois então... Ponto pra morena.

A espera, o desejo insatisfeito e os encontros absurdamente excitantes alimentavam um interesse e uma curiosidade que estavam me enlouquecendo.

Normalmente eu trepava antes de me apaixonar. Nunca o contrário. Apaixonar-me? Como assim? Realmente, o tesão não resolvido que eu sentia por Verônica estava me deixando insana já...

Não que eu tivesse mudado a minha vida e passado a ser uma celibatária. Nem pensar!

Continuava pegando horrores nas boates. Mas estava nas mãos dela. Indiscutível...

O maior exemplo disso: nos falávamos por telefone todos os dias. Incrível!

Pensar em e desejar Verônica passaram a fazer parte da minha rotina de uma forma surpreendentemente simples. Sobre... Natural. Sem que eu resistisse nem questionasse. Pelo contrário, muito me agradava.

Depois do nosso quarto almoço, estávamos no banheiro – Ah, pra variar... Provavelmente os casais heteros, que podem se beijar e se pegar a vontade, não sabem a importância nem o significado dos banheiros públicos para gays e lésbicas.

Apartes à parte: estávamos no banheiro. O corpo dela comprimindo o meu contra a parede do reservado, as mãos por baixo das roupas, nossas peles absurdamente ardentes e arrepiadas, quando ela interrompeu a exploração deliciosa e perfeita que fazia com a língua e os lábios na minha boca para sussurrar:

- Amanhã a noite não vou trabalhar...

E me olhou significativamente nos olhos. Deixando implicitamente acertado. Na noite seguinte, o mistério terminava. Ou apenas começava?



Sancho passou lá em casa por volta das 22h.

A bicha era supersticiosa, tinha todo um ritual antes de sair. Por isso sempre passava na minha casa pra “esquentar”. Nosso aquecimento era simples: Cuba Livre bem forte pra dar uma calibrada, ele colocava um CD, começava a dançar – eu sempre ria horrores, afinal de contas, aquele viado todo arrumadinho, cheio de gel no cabelo, super perfumado, com um copo na mão, rebolando sem parar no meu quarto, era no mínimo engraçado – e depois fazia um negócio super estranho – mas quem era eu pra duvidar da crendice alheia? Principalmente se parecia dar certo? – acendia um incenso horrível, daqueles que chega a ser fedido de tão doce: Cupido. Sim, esse era o nome, pode acreditar! Pois então... ele pegava esse incenso e passava no corpo inteiro, se benzendo, sei lá... Depois passava em mim e... Voilá! Prontos e batizados!

Auto sugestão ou verdade, o negócio funcionava, porque nós nunca saíamos da boate desacompanhados.

Depois dessa simpatia toda, entramos na boate onde Verônica e eu tínhamos marcado. Ela ainda não tinha chegado. Não que estivesse atrasada. A bicha apressada tinha me obrigado a chegar meia hora mais cedo.

Como eu não acredito em perda de tempo, fiz muito mais do que esperar. Estava olhando em volta, fazendo o reconhecimento das possibilidades quando... Dei de cara com uma garota que eu detestava. Porque ela dava em cima da Cláudia.

Ela estava me olhando e sorriu. Não sorri de volta, na verdade cheguei a virar a cara. Mas ela se aproximou, estranhamente simpática:

- Oi!

- Oi.

Respondi, nada entusiasmada e ainda de cara fechada. Ela prosseguiu:

- Você e a Cláudia... Se separaram, né?

Tem momentos em que percebemos perfeitamente o quanto a realidade é uma ilusão. Quando todo e qualquer tipo de verdade parece ser tão... Absolutamente surreal.

No caso, a garota era um exemplo de falta de tato total. Minha resposta foi seca e rápida:

- É.

- Que ótimo!

Foi a resposta i-na-cre-di-tá-vel!

Tudo bem, ela estava feliz por meu casamento ter acabado abrindo caminho pra ela investir na minha ex, mas... Não podia ao menos disfarçar?

Antes que pudesse expressar o que estava pensando, veio a frase bombástica, que eu não esperava:

- Quem sabe agora você me dá bola?

Como assim? Alguma coisa ali estava muito errada. Minha cara de perplexidade deve ter sido indisfarçável. Porque ela disse:

- Vai dizer que você não sabe?

Saber o que? Onde eu estava? Em “O Processo” de Kafka?

- A Cláudia chegou a me ameaçar...

Eu ri. Sem querer. Do quanto eu era retardada. Realmente, eu nunca tinha percebido. Na verdade eu sempre a evitava. Porque pra mim, ela estava interessada na Cláudia. Aliás, a própria Cláudia tinha me dito.

De uma só vez, todas as peças do quebra-cabeça se encaixaram. Não sabia se batia palmas pra Cláudia – tinha que admitir que tinha sido uma jogada de mestre! – ou a matava. Nenhuma das duas, claro. Que se danasse a Cláudia. Ela era passado.

Preferi olhar pra garota, pela primeira vez de verdade. Com um sorriso que deixava claro que poderia rolar.

- A Cláudia me disse que se eu chegasse perto de você me arrebentava.

- Engraçado. Ela me disse que você estava a fim dela.

Fomos aproximando nossas bocas lentamente:

- Que filha da puta!

- Escrota, mas genial.

- Você ainda é apaixonada por ela?

- Isso importa?

- Na verdade...

Ela sussurrou uma última palavra:

- Não.

Antes que nossos lábios se colassem.



Porque será que tem momentos em que a gente sabe que está fazendo merda, mas não consegue evitar?

Parece que uma força muito maior – aquela enganosa sensação de prazer e satisfação imediata – que nos deixa completamente desprovidos de forças para lutar. Exatamente esses acabam sendo aqueles momentos que sentimos vontade de voltar atrás para mudar.

Mas se voltássemos não seria uma coisa tipo “Peggy Sue, seu passado a espera” ? A ilusão não nos sugaria novamente e repetiríamos tudo igual?

No meu caso, eu ainda não sabia, mas... A repetição de momentos como esse passaria a fazer parte da minha vida. Algo impossível de evitar.

No meio dos beijos que trocava com a tal garota, lembrei de Verônica. Abri os olhos, apenas para... Descobrir que ela estava parada na minha frente, me olhando com uma expressão indecifrável.

Na mesma hora me afastei da outra menina. Que me olhou sem entender nada. Sussurrei:

- Tô acompanhada.

E ela fez uma cara... Nada positiva, pra dizer a verdade. Nem dei tempo pra que ela falasse o que pensava. Despedi-me rapidamente.

Estava um pouco sem graça. Não arrependida, e sim... Como um ladrão que sente remorso não pelo que fez, mas por ter sido flagrado.

Aproximei-me de Verônica. Ela apenas sorriu. Ficou em silêncio, assim como eu. Puxou-me pela mão. De um jeito nada delicado. Entramos no banheiro, e depois num dos reservados.

Ah, o ato de não falar...

Quando a comunicação dispensa palavras. Como naquele momento.

Verônica me empurrou contra a parede com força. Podia sentir a raiva por trás da forma quase agressiva com que ela me tocava.

A boca no meu pescoço de um jeito que ia deixar marcas. Aquilo me deixou absolutamente excitada. A sensação de ser desejada como um pedaço de carne.

Ou talvez... por me sentir usada, abusada, dominada. Tratada sem um pingo de consideração ou cuidado. Meu prazer tão evidente que ela sussurrou:

- Gosta de ser tratada como puta, né?

Era uma pergunta? Ou uma afirmação?

Fosse o que fosse, não queria nem conseguia falar. Com ela ajoelhada na minha frente, a boca e os dedos mergulhados dentro de mim de uma forma que tornou os gemidos impossíveis de sufocar. A mão que apertei contra a  boca foi totalmente ineficaz.

Mas ela insistiu:

- Gosta?

Silêncio. E uma ordem:

- Responde!

Não tive como deixar de suspirar:

- Gosto...

A partir daquele momento, tudo se tornou... Absolutamente intenso, cheio do mais profundo e primitivo desejo... mas muito menos do que eu esperava.

Porque... podíamos ter feito daquele jeito em todos aqueles reservados em que tínhamos nos esfregado sem que a coisa se consumasse.

Esperar e imaginar um mês inteiro tinha me feito voltar a acreditar.

Achar que seria mais especial do que uma transa rápida e meio sadomasoquista dentro de um banheiro.

Um comentário:

  1. Aninha aruen disse...

    que pegação...adorei esse capitulo,todo mundo(ou quase) tem uma fase de pegar geral né,faz parte... bjão enorme!!!!
    ◄ Responder Comentário 15 de novembro de 2010 21:23
    Bri disse...

    Muito bom o começo de história =]
    ◄ Responder Comentário 15 de novembro de 2010 22:19
    Chester Perdigão disse...

    mulher...que cagada MOOOOONSTRA a nega fez!!!
    beija outra sendo que estava esperando uma é pra caga no mundo mesmo!!! pedi pra morre!
    *o* se chamada de puta tbm não é algo agradável...maaaaaas quero saber a continuação!*-*

    bom...pensa em uma pessoa curiosa...multiplica por 10. Agora vc sabe como eu me sinto, só de esperar o próximo cap.XD
    Beijinhos e uma ótima semana.
    ◄ Responder Comentário 16 de novembro de 2010 00:24
    Tibet disse...

    oi!com essas voltas e reviravoltas fico aguardando os próximos capitulos... ansiosa!personagens fortes e linguagem direta mesclam esta com outras estórias que a memória vai linkando... e me pego rindo durante o dia ...
    ◄ Responder Comentário 16 de novembro de 2010 09:36
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Aninha aruen
    É amiga,
    Não sei se faz parte, tem gente que nunca entra nessa. Mas com certeza, acontece nas melhores famílias... rsrs
    BJ super gigante!
    ◄ Responder Comentário 22 de novembro de 2010 18:27
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Bri
    Brigadíssimo, linda!
    BJ ultra gigante!
    ◄ Responder Comentário 22 de novembro de 2010 18:27
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Chester Perdigão
    Desculpe,
    Eu atrasei o capítulo, afe!
    Mas putz!
    Tá difícil dar conta, viu?
    To me esforçando, juro!
    Espero que não desista da história...
    BJ mega gigante!
    ◄ Responder Comentário 22 de novembro de 2010 18:29

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