terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parte 02

Terminar e manter a linha pode ser uma impossibilidade

Os beijos na festa da faculdade resultaram num namoro de dois anos absolutamente invejável. Com algumas brigas e desentendimentos. Verdade. Mas nada que perturbasse realmente a nossa deliciosa, apaixonada e cúmplice intimidade.

Foi quando surgiu a decisão de casar. Morar junto... Muito mais do que comprar roupas de cama, mesa e banho...

É, foi catastrófico. Pra ser mais precisa: um ano de desastre.

Difícil entender realmente quando a pessoa passa de maravilhosa, excitante e linda para insuportável. Mas pode acontecer. É um fato. E quando aconteceu comigo, eu não soube o que fazer. Não que eu ache que tivesse como consertar, mas... Bom, eu nem cheguei a tentar.

Voltei a ser retardada? Seria uma ótima maneira de me desculpar. Na verdade era um alívio tão grande quando ela não estava, que nem reparei que Cláudia ficava muito tempo fora de casa, saía muito à noite e cada vez voltava mais tarde.

Até o dia em que esfregou a separação na minha cara. Ela já tinha outra. E incrivelmente, ao contrário do normal, fui trocada por uma mulher dez anos mais velha. Poderia simplesmente aceitar minha total e completa desvantagem, mas também seria  fácil demais.

Existe separação sem lágrimas? Sem noites mal dormidas, lavagem de roupa suja, dedos apontados, mágoas?

De quem é a culpa?

Como se isso importasse.

Talvez uma tentativa de romper um último tipo de vínculo ou laço que possa ter sobrevivido ao holocausto do mal estar.

Daí mais coisas horríveis, como discussões exacerbadas para se decidir quem fica com um CD ou um livro. Claro que não precisa ser assim. Mas no meu caso, foi.

E por isso, jurei pra mim mesma que nunca, jamais voltaria a casar.

Corpos e objetos separados, passei para uma segunda fase: a de estar absolutamente perdida. Sem saber o que sentia, o que queria, o que pensava.

Nessas horas os amigos são tudo. E foram. Não me deixavam ficar sozinha em casa. E apesar de todos os meus protestos, recusas e inseguranças, me convenceram a ir a uma boate.

Era a primeira vez que eu entrava solteira numa boate gay e... Tá, eu estava apavorada.

No fundo achava que nunca mais alguém se interessaria por mim.

De verdade. A separação tinha feito a minha auto-estima ir para o buraco. Me sentia um... Capacho? Não, capachos são fortes e firmes. Estava mais para pano de chão velho e rasgado.

Pois então... Fiquei sentada, com uma Margherita Frozen na minha frente, sem nem saber por onde começar a reconstruir a minha vidinha tão bombardeada. Mas se a Europa se reergueu depois de duas guerras mundiais, porque não eu depois de uma única mulher, não é verdade?

Um dos meus amigos resolveu me ajudar:

- Olha aquela ali. Não para de te olhar.

Realmente, a garota me olhava. E até que não era nada mal. Na verdade, ela até se parecia um pouco com a Cláudia.

- E aí? Gostou?

Olhei para o meu amigo, intrigada. Incrível como ele falava como um vendedor de eletrodomésticos ou coisa que o valha. Fiz que sim. Ele se levantou, chegou perto da menina e... Voltou com ela atrás.

Então era simples assim? Era escolher e pegar, como num supermercado? Não sei porque, mas aquilo não me empolgava. Mas umas Margheritas a mais me deram coragem e vontade de encarar.

Depois da primeira, uma segunda, uma terceira, uma quarta, uma quinta... Se tornou fácil. Corpos sem rostos muito definidos. Nomes que eu dificilmente lembrava. Uma única noite cada. Sexo casual e mais nada.

Aquilo era como tentar preencher vazios com bolas infláveis. Na hora em que sopramos elas se enchem de ar e ocupam o espaço, mas depois, rapidamente esvaziam, vencidas pela pressão, e voltam a dar lugar ao vácuo.

Para os meus amigos menos íntimos, eu estava curada. Para os que me conheciam bem, minha incapacidade de me relacionar era clara.

Foi numa noite igual a todas as outras, que uma possibilidade de mudança se anunciou.

Tinha combinado me encontrar com uma garota que pediu meu telefone na véspera, enquanto a com quem eu estava ficando ia ao banheiro.

Entrei com um dos meus amigos, quase um Sancho Pança – preciso deixar claro, porque se parecer que tô chamando ele de gordo, o viado me mata: não por causa da barriga, mas por ser meu fiel escudeiro – quando alguém me chamou a atenção.

Além de raro – normalmente eu ficava peneirando, me esforçando com ajuda de muito álcool a achar graça em quem quer que fosse – era um tipo que eu nunca sequer olhava.

Morena, cabelos pretos curtinhos. Olhos da mesma cor, de um brilho quase surreal. E um sorriso... nunca tinha visto um tão bonito. Estava acompanhada, mas... Grudou os olhos em mim de forma descarada. A garota que estava com ela percebeu, mas não disse nada.

Sentei com meu amigo numa das mesas. Ele não conseguiu deixar de comentar:

- Amiga, você acabou de ser devorada pela moreninha. Quem sabe não é o destino que bate à sua porta?

Diante de uma frase dessas – só podia ter vindo de um viado – a única coisa que pude fazer foi soltar um irônico e mal humorado:

- Ha ha ha...

Não adiantou. Ele insistiu:

- Ela é bem interessante, viu?

Fiz uma careta, seguida de um:

- Não é o meu tipo.

Ele riu. E sentenciou:

- Exatamente por isso. Quem sabe acerta se mudar o alvo?

Antes que eu pudesse responder, vi uma loirinha se aproximar. A perspicácia do meu amigo – e por ele me conhecer demais – o fez fazer um sinal como quem diz: “é essa aí”. Olhei melhor, achei que ele tinha razão. Era a garota com quem eu tinha marcado. Na verdade não me lembrava direito, mas... Ela veio direto pra mim, sorrindo, e dizendo:

- Desculpe o atraso.

Encerrando o caso.

A loirinha se aproximou, e ao invés de dois beijinhos me cumprimentou encostando os lábios nos meus. Rápida e prática. Felizmente. Não estava muito para bla bla bla.

A loirinha sentou do meu lado, na mesma hora em que dois magníficos olhos verdes pararam na minha frente, com um sorriso simpático:

- Oi!

Olhei pro meu amigo, claro. Ele sussurrou pra que só eu ouvisse:

- Sexta passada.

E levantou, dizendo:

- Vou no balcão. Tô sem paciência de esperar. Alguém quer algo?

Só eu respondi:

- Margherita Frozen.

E ele:

- Claro.

Assim que Sancho se afastou, a olhinhos verdes se sentou no lugar dele, do meu outro lado. Ok, eu estava cercada. Nada mal... Duas de uma vez... Eu dava conta do recado. Preencheria mais espaços, ou talvez os balões esvaziassem mais rápido, quem sabe? Não custava experimentar.

Sorri para as duas, acho que entenderam a minha mensagem. E pareceram gostar. Então meu amigo voltou do bar. Com a moreninha atrás.

Sinceramente? Por essa eu não esperava...

Menos ainda que ela estivesse segurando a minha Margherita Frozen. Sancho tentou explicar:

- Ela gentilmente se ofereceu pra me ajudar.

A morena parou em pé ao meu lado, se inclinou sensualmente colocando o copo na mesa, olhou bem dentro dos meus olhos e disse:

- Pelo visto você tá muito ocupada. Não vai poder me dar o tipo de atenção que eu quero. Mas não esquenta. Ainda nos falamos antes de você sair.

Deu-me uma piscada absolutamente safada. Depois se afastou, voltando pra mesa onde a ficante? Presa da noite? Namorada não era, senão já teria feito um escândalo – calma e pacientemente a esperava.

A conversa e os beijos – a dois e a três, num exemplo de análise combinatória perfeito - na mesa transcorreram tranqüilamente. Acabamos decidindo ir pra casa da loirinha. Antes de sair, informei às meninas que ia ao banheiro. Passei pela morena, que me olhou significativamente... E entrei na fila.

Ir ao banheiro numa boate gay pode ser estratégico, perigoso ou proveitoso. Depende da intenção, do dia, do nível etílico em que você se encontra, das companhias e principalmente do seu estado civil... Ou seja: como tudo na vida, é relativo.

No meu caso, era como um xeque mate. Nem eu nem a morena tínhamos saída. Tudo absolutamente previsível.

Em questão de segundos, senti a mão quente no meu pescoço. Antes que eu terminasse de me virar, a morena me puxou pela cintura e me beijou gulosamente. O primeiro movimento causou um arrepio. O segundo foi totalmente correspondido. Em ambos os casos: deliciosa!

Ela sussurrou no meu ouvido:

- Infelizmente hoje tô acompanhada... Vamos ter que ficar só nos beijinhos. Apesar de eu querer muito mais.

Uau! Incrível... A morena era uma predadora fantástica. Segurança e autoconfiança eram as palavras-chave. De um estilo que me deixou... Muito interessada.

Ela continuou, me entregando um cartão:

- Meu liga.

Bom, eu também não ia ficar atrás:

- Não quero seu telefone.

Ela levantou uma sobrancelha, com um sorriso intrigado, mas divertido ao perguntar:

- Não?

- Pra quê? Não vou ligar.

 Ela riu. Com um prazer claro. Antes de falar:

- Então me dá o seu, linda.

Uma pequena pausa. Enquanto eu dizia os números e ela gravava no celular. Olhou-me profundamente ao completar:

- Eu vou ligar.

Colou a boca novamente na minha. De um jeito embriagante, sedutor, voraz. Depois voltou para a mesa dela e não me olhou mais. Toda a atenção voltada para a garota que a acompanhava.

Preferi fingir que isso não me incomodava. Que não sentia nada. Nenhum tipo de despeito ou ferida no meu ego e vaidade. Não estava mesmo muito interessada em verdades.

Ocupada que estava em perseguir ilusões como se não fossem meras imagens falsas.

Não fui ao banheiro. Não estava com vontade. Despedi-me do meu amigo, me juntei às garotas que me esperavam, e saí com as duas da boate sem olhar para trás.

2 comentários:

  1. Para ler os comentários sobre este capítulo acesse:
    http://www.diedraroiz.com/2010/11/manual-pratico-de-como-se-perder-alma_12.html#comments

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  2. Aninha aruen disse...

    oii Diii!!! adorei,duas de uma vez??? interessante de vez em qd...rsrsrs mas prefiro algo mais sério..rrss to adorando o conto,to curiosa aqui imaginando q parte é real ,q parte ñ..rsrsr bjs enormes!!!
    ◄ Responder Comentário 12 de novembro de 2010 23:18
    Chester Perdigão disse...

    "- Pelo visto você tá muito ocupada. Não vai poder me dar o tipo de atenção que eu quero. Mas não esquenta. Ainda nos falamos antes de você sair."
    Depois dessa eu perco até o rumo!!XD

    Até parece que eu não ia gostar!^^
    ta maravilhoso *-*
    Bjs
    ◄ Responder Comentário 13 de novembro de 2010 17:54
    Rê disse...

    Digamos que esta entranto em uma fase na qual as atitudes são completamente diferentes das quais eu costumo nortear a minha vida.

    Mas tudo na vida são experiências, às vezes boas, outras nem tanto... mas é desse somatório que se constrói a nossa passagem por aki.

    Posso até não concordar com as atitudes... mas o conto tá muito bom... mesmo...


    ◄ Responder Comentário 13 de novembro de 2010 21:42
    DIEDRA ROIZ disse...

    @Aninha aruen
    Amigaaaaaaaaaa
    hahaha
    Tb prefiro bem outra coisa, mas pra chegar nisso às vezes é necessário experimentar algo mais, né?
    Vai adivinhando, pq eu é que não vou confessar! kkk
    BJ IMENSO!
    ◄ Responder Comentário 14 de novembro de 2010 11:28
    Rose Marie disse...

    Nossa!!! Tá maravilhoso! Vou acompanhar com certeza.
    Bjs
    ◄ Responder Comentário 14 de novembro de 2010 20:03
    Aninha aruen disse...

    kkkkkk verdade,as vezes é preciso extravazar um pouco ,concordo,na vida tem q ter esses momentos tbm alguma vez, e pode deixar,ñ precisa confessar ñ,eu vou imaginando aqui...kkkkkkkkkk bjão!!!!!
    ◄ Responder Comentário 14 de novembro de 2010 21:02

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