terça-feira, 20 de dezembro de 2011

MANUAL PRÁTICO DE COMO SE PERDER A ALMA

Sexto romance escrito por Diedra Roiz. Postado pela primeira vez de Fevereiro a Julho de 2009.



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Lembrando que... Copiar o texto e apenas trocar o nome das personagens e/ou detalhes da história não é fanfiction, muito menos adaptação, é plágio. E plágio é crime! Por favor, não façam isso, ok?


SINOPSE:
Confissões e reflexões de uma lésbica sobre sua vida amorosa e sexual, relatando sempre de forma crítica e bem humorada todos os relacionamentos que teve.




MÚSICA QUE INSPIROU A HISTÓRIA:
 







PARTE 01

A PRIMEIRA VEZ PODE SER FATAL

Certo que eu já nasci meio retardada. Claro. Como explicar o tempo absurdo para descobrir do que eu realmente gostava?
Não poderia ter sido aos 6 anos de idade, quando me recusei a fazer a primeira comunhão única e exclusivamente porque não suportava a idéia de usar aquele vestidinho branco cheio de babados?
Aos 12, quando eu tinha uma queda – para não dizer um tombo - pela minha melhor amiga? 
Tão na cara... 
Não pra mim.
Ou aos 18, quando eu adorava a ex do meu namorado?
Não, claro que não. Teve que ser muito mais tarde.
“Não fomos educadas para pensar nessa possibilidade.” – é o que sempre me diz minha amiga Carla, querendo desculpar minha falta total de percepção, gosto, tato, olfato, qualquer tipo de sentido que todo ser humano normal parece ter de forma inata.
Bom, pra mim nada nunca foi nem nunca será fácil.
Isso me disseram os búzios num terreiro que um dos meus melhores amigos freqüentava.
Por que eu acredito?
Porque ela também disse que eu precisava entender que a vida não era só trabalho. E isso era a pura verdade...
Então, se não foi aos 6, aos 12, aos 18... Foi ser aos 24.
Antes tarde do que nunca, era isso que eu deveria pensar? Como se esse tipo de pensamento conformista pudesse ajudar?
Na verdade, a primeira mulher da minha vida apareceu... Do nada.
Cláudia. 
O nome era tão lindo, interessante e instigante quanto ela.
Óbvio que naquela altura eu já havia recebido algumas propostas de mulheres. Mas nunca tinha me interessado. Pelo menos por nenhuma das que me cantaram.
Talvez faltasse nelas aqueles olhos que pareciam esconder verdades, promessas de coisas incríveis, inimagináveis...
Ou simplesmente não tivessem aquele toque que conseguia fazer eu desejar me abrir inteira, me desnudar das roupas, barreiras, mostrar a minha alma...
Brega, não é? Um tanto quanto piegas. 
É fato.
Mas já dizia Fernando Pessoa: “todas as cartas de amor são ridículas”.
Em especial aos olhos de quem sofre por esse cárcere privado que as pessoas também costumam chamar de casamento ou namoro.
Tudo bem, confesso que não agüento essa mania que alguns casais têm de esfregar a felicidade nojenta deles em nossas caras.
Ah, que pensamento tão Iago!
Mas voltando à Cláudia.
Engraçado... Eu lembrava de ter visto Cláudia no primeiro período da faculdade. No trote, para ser mais exata. Ela não era da minha turma. Nada que me chamasse a atenção. Tanto que não era uma memória daquelas que se guarda. E sim daquelas que buscamos e recuperamos mais tarde. Quando a pessoa passa a ter significado.
Então, no terceiro período... 
Mudei para a turma dela. Mas Cláudia estava fora do Brasil. Na Inglaterra, eu soube mais tarde.
Estava eu sentada na cantina. Concentrada num livro de Stanislavski. A movimentação e barulho excessivos – até mesmo para uma faculdade de teatro – chamou minha atenção. Levantei os olhos do livro e a vi.
Apesar de rodeada de pessoas, a presença dela foi a única que consegui captar.
E ainda assim, apesar de todos os meus sentidos se aguçarem, não foi nesse momento que percebi de que forma a figura de Cláudia me interessava.
Para que isso acontecesse muitos dias se passaram. Foi preciso uma centena de pequenos detalhes que me deixaram cismada. E mesmo depois do dia em que comecei a me questionar de verdade, a resposta demorou a ser dada.
Veio em forma da mão dela pousada íntima e casualmente na minha coxa, enquanto falava coisas que eu não conseguia escutar. Toda a minha atenção concentrada no ardor que aquele toque me causava.
Da mão pousava em minha perna para os beijos no meu quarto foi apenas um passo. Um convite que fiz sem saber de onde tirei coragem. E que ela não entendeu de imediato. Olhou-me absolutamente surpresa, antes de dizer:
- Mas você... Você é hetero.
A forma como ela disse a palavra...
Me fez pensar pela primeira vez que o preconceito é uma via de mão dupla. Mas naquele momento, foi como se minha lentidão se tornasse passado.
Eu tinha pressa.
E não hesitei em falar:
- Isso é só um detalhe.
Ah, ela me olhou de cima a baixo. De um jeito que me fez... Muito mais do que arrepiar. A mulher era algo. Tão irresistível quanto a minha vontade.
Incrivelmente, ela ainda não parecia convencida. Ou talvez... Bom, nessa hora minha insegurança começou a gritar: “Ela não tá interessada!”
Como se lesse pensamentos, ela deixou escapar:
- Não é isso.
Antes de completar:
- Não sei se eu devo fazer você.
Só um minutinho. Pequena pausa para o comentário inevitável: "Me fazer? O que era aquilo? Crônicas vampirescas? Afe!"
Diante da minha cara evidente de quem não estava entendendo nada, ela tentou explicar:
- Ser sua primeira mulher... Não sei se quero essa responsabilidade.
Responsabilidade? Era só sexo, ora!
Ok. Uma lésbica politicamente correta.
Ou ela estava sugerindo que... Poderia se tornar... Algo mais?
A possibilidade não me assustou. Na verdade nem parei pra pensar. Simplesmente porque até aquele momento não fazia a menor idéia de que algum dia alguém poderia me tirar dos meus limites tão confortáveis.
Talvez tenha conseguido começar a vislumbrar isso quando dos beijos passamos às vias de fato. Tudo muito mais rápido do que eu estava acostumada, mas... Assustadoramente lento perto do ritmo em que o meu interior pulsava.
Ela foi surpreendentemente carinhosa e delicada. Completamente diferente do que eu esperava. Conseguiu me virar pelo avesso enquanto eu apenas tateava.
Na escuridão das cortinas fechadas e das luzes que ela insistiu em deixar totalmente apagadas. 
O que na verdade era o que menos importava, porque... Ainda que houvesse luz e com uma enorme força de vontade eu conseguisse abrir os olhos... Improvável que pudesse enxergar algo.
Já estava perdida. Imersa na percepção de que até então eu tinha vivido à margem. Pensando que migalhas eram incríveis porque nunca tinha provado algo melhor.
Ainda hoje, quando penso naquele momento - apesar de diversas experiências tão boas quanto, melhores ou mais especiais em diferentes formatos, lugares e linguagens... – ele continua sendo... Absolutamente mágico.
Apesar da manhã seguinte quase sem palavras. 
Acho que não dormimos.
Me lembro de amanhecer abraçada com ela, acariciando o braço ao redor de mim com um sentimento estranho, meio abobalhada.
O que quer que fosse, foi imediatamente quebrado pela luminosidade. Ela levantou, dizendo:
- Preciso ir.
E começou a se vestir rápido. Sem me olhar.
Insisti, ou melhor, pedi pra que ela ficasse. Mas a resposta foi quase agressiva:
- Vamos esquecer o que aconteceu. Foi um erro e não vai se repetir, tá?
Péra... Calma lá... 
Não era eu quem deveria dizer isso? Minha lentidão sempre me atrapalhando... A ponto de deixar que ela roubasse a minha fala.
Depois disso, o que mais eu poderia dizer ou fazer? Nada.
Só acompanhá-la até a porta e voltar pro quarto tentando colocar a cabeça no lugar. Em vão, diga-se de passagem.
Com o passar dos dias ficou fácil entender, apesar de ser dolorosamente difícil aceitar a verdade: pela primeira vez na minha vida eu estava apaixonada.
E a partir daquele momento, só queria, só pensava, só desejava... Cláudia.
O que eu fiz? A coisa mais idiota, claro. 
Escrevi uma carta. Um poema, pra ser mais exata. Que pedi pra um amigo gay que tínhamos em comum – entregar pra ela numa festa da faculdade.
Ele voltou com uma cara muito sem graça. Perguntei:
- E aí?
E ele:
- Ela rasgou sem ler. E mandou eu te falar que não quer nada com você. Que é melhor você ficar com um cara.
Nem eu sei medir o tamanho da minha raiva. Grande o bastante pra fazer bobagem.
Em questão de minutos estava fazendo exatamente como ela havia mandado. Agarrada, aos beijos, com um cara da faculdade de música. Baterista, eu acho.
Vi quando ela passou por nós pela primeira vez. Parou para olhar. Depois se afastou rápido. Repetiu umas três vezes. Passava, parava, olhava, depois se afastava.
As mãos do carinha aos poucos se tornaram mais ousadas. E ele acabou sussurrando no meu ouvido:
- Vamos pra minha casa?
Ainda estava totalmente possuída pela raiva. Só podia, porque... Concordei de imediato. Caminhei com o tal cara de mãos dadas. Mas antes de chegar no portão senti meu braço ser puxado. Um toque inconfundível, que me fez arrepiar. Olhei pra ela, que apenas disse:
- Precisamos conversar.
Eu não sabia se aceitava ou recusava. Puta com ela, mas aliviada. Apesar de não saber muito bem o que diabos ela poderia querer conversar.
Absolutamente imprevisível. Pra saber, seria preciso deixar ela falar.
Na verdade, a decisão acabou não sendo minha. Cláudia me arrastou para um canto, sem que eu tivesse tempo de concordar. Com um olhar furioso soltou a frase quase gritada:
- O que você tá fazendo?
Ela estava... Enciumada? Bom, no mínimo alterada.
Eu adorei, claro. Senti um prazer quase sádico ao falar:
- O que você me mandou fazer: estou ficando com um cara.
Ela me segurou pelos braços. O simples contato fez com que tudo se tornasse... Chamas, lava, brasas... Tão difícil mensurar... Ela chegou a gaguejar:
- Eu... Você... Você tá querendo me sacanear!
Ela ali desarmada, quase frágil. A única coisa que eu conseguia pensar era em como queria que ela me beijasse.
Provoquei abertamente ao responder:
- Sacanear? Por que? Você não disse que não queria nada?
Quanto mais os lábios dela se aproximavam, mais o ar parecia faltar. Meus olhos acompanharam o movimento que eles fizeram ao falar:
- Você sabe que não é verdade.
Antes de se colarem nos meus de uma forma absolutamente fantástica.

Parte 02

Terminar e manter a linha pode ser uma impossibilidade

Os beijos na festa da faculdade resultaram num namoro de dois anos absolutamente invejável. Com algumas brigas e desentendimentos. Verdade. Mas nada que perturbasse realmente a nossa deliciosa, apaixonada e cúmplice intimidade.

Foi quando surgiu a decisão de casar. Morar junto... Muito mais do que comprar roupas de cama, mesa e banho...

É, foi catastrófico. Pra ser mais precisa: um ano de desastre.

Difícil entender realmente quando a pessoa passa de maravilhosa, excitante e linda para insuportável. Mas pode acontecer. É um fato. E quando aconteceu comigo, eu não soube o que fazer. Não que eu ache que tivesse como consertar, mas... Bom, eu nem cheguei a tentar.

Voltei a ser retardada? Seria uma ótima maneira de me desculpar. Na verdade era um alívio tão grande quando ela não estava, que nem reparei que Cláudia ficava muito tempo fora de casa, saía muito à noite e cada vez voltava mais tarde.

Até o dia em que esfregou a separação na minha cara. Ela já tinha outra. E incrivelmente, ao contrário do normal, fui trocada por uma mulher dez anos mais velha. Poderia simplesmente aceitar minha total e completa desvantagem, mas também seria  fácil demais.

Existe separação sem lágrimas? Sem noites mal dormidas, lavagem de roupa suja, dedos apontados, mágoas?

De quem é a culpa?

Como se isso importasse.

Talvez uma tentativa de romper um último tipo de vínculo ou laço que possa ter sobrevivido ao holocausto do mal estar.

Daí mais coisas horríveis, como discussões exacerbadas para se decidir quem fica com um CD ou um livro. Claro que não precisa ser assim. Mas no meu caso, foi.

E por isso, jurei pra mim mesma que nunca, jamais voltaria a casar.

Corpos e objetos separados, passei para uma segunda fase: a de estar absolutamente perdida. Sem saber o que sentia, o que queria, o que pensava.

Nessas horas os amigos são tudo. E foram. Não me deixavam ficar sozinha em casa. E apesar de todos os meus protestos, recusas e inseguranças, me convenceram a ir a uma boate.

Era a primeira vez que eu entrava solteira numa boate gay e... Tá, eu estava apavorada.

No fundo achava que nunca mais alguém se interessaria por mim.

De verdade. A separação tinha feito a minha auto-estima ir para o buraco. Me sentia um... Capacho? Não, capachos são fortes e firmes. Estava mais para pano de chão velho e rasgado.

Pois então... Fiquei sentada, com uma Margherita Frozen na minha frente, sem nem saber por onde começar a reconstruir a minha vidinha tão bombardeada. Mas se a Europa se reergueu depois de duas guerras mundiais, porque não eu depois de uma única mulher, não é verdade?

Um dos meus amigos resolveu me ajudar:

- Olha aquela ali. Não para de te olhar.

Realmente, a garota me olhava. E até que não era nada mal. Na verdade, ela até se parecia um pouco com a Cláudia.

- E aí? Gostou?

Olhei para o meu amigo, intrigada. Incrível como ele falava como um vendedor de eletrodomésticos ou coisa que o valha. Fiz que sim. Ele se levantou, chegou perto da menina e... Voltou com ela atrás.

Então era simples assim? Era escolher e pegar, como num supermercado? Não sei porque, mas aquilo não me empolgava. Mas umas Margheritas a mais me deram coragem e vontade de encarar.

Depois da primeira, uma segunda, uma terceira, uma quarta, uma quinta... Se tornou fácil. Corpos sem rostos muito definidos. Nomes que eu dificilmente lembrava. Uma única noite cada. Sexo casual e mais nada.

Aquilo era como tentar preencher vazios com bolas infláveis. Na hora em que sopramos elas se enchem de ar e ocupam o espaço, mas depois, rapidamente esvaziam, vencidas pela pressão, e voltam a dar lugar ao vácuo.

Para os meus amigos menos íntimos, eu estava curada. Para os que me conheciam bem, minha incapacidade de me relacionar era clara.

Foi numa noite igual a todas as outras, que uma possibilidade de mudança se anunciou.

Tinha combinado me encontrar com uma garota que pediu meu telefone na véspera, enquanto a com quem eu estava ficando ia ao banheiro.

Entrei com um dos meus amigos, quase um Sancho Pança – preciso deixar claro, porque se parecer que tô chamando ele de gordo, o viado me mata: não por causa da barriga, mas por ser meu fiel escudeiro – quando alguém me chamou a atenção.

Além de raro – normalmente eu ficava peneirando, me esforçando com ajuda de muito álcool a achar graça em quem quer que fosse – era um tipo que eu nunca sequer olhava.

Morena, cabelos pretos curtinhos. Olhos da mesma cor, de um brilho quase surreal. E um sorriso... nunca tinha visto um tão bonito. Estava acompanhada, mas... Grudou os olhos em mim de forma descarada. A garota que estava com ela percebeu, mas não disse nada.

Sentei com meu amigo numa das mesas. Ele não conseguiu deixar de comentar:

- Amiga, você acabou de ser devorada pela moreninha. Quem sabe não é o destino que bate à sua porta?

Diante de uma frase dessas – só podia ter vindo de um viado – a única coisa que pude fazer foi soltar um irônico e mal humorado:

- Ha ha ha...

Não adiantou. Ele insistiu:

- Ela é bem interessante, viu?

Fiz uma careta, seguida de um:

- Não é o meu tipo.

Ele riu. E sentenciou:

- Exatamente por isso. Quem sabe acerta se mudar o alvo?

Antes que eu pudesse responder, vi uma loirinha se aproximar. A perspicácia do meu amigo – e por ele me conhecer demais – o fez fazer um sinal como quem diz: “é essa aí”. Olhei melhor, achei que ele tinha razão. Era a garota com quem eu tinha marcado. Na verdade não me lembrava direito, mas... Ela veio direto pra mim, sorrindo, e dizendo:

- Desculpe o atraso.

Encerrando o caso.

A loirinha se aproximou, e ao invés de dois beijinhos me cumprimentou encostando os lábios nos meus. Rápida e prática. Felizmente. Não estava muito para bla bla bla.

A loirinha sentou do meu lado, na mesma hora em que dois magníficos olhos verdes pararam na minha frente, com um sorriso simpático:

- Oi!

Olhei pro meu amigo, claro. Ele sussurrou pra que só eu ouvisse:

- Sexta passada.

E levantou, dizendo:

- Vou no balcão. Tô sem paciência de esperar. Alguém quer algo?

Só eu respondi:

- Margherita Frozen.

E ele:

- Claro.

Assim que Sancho se afastou, a olhinhos verdes se sentou no lugar dele, do meu outro lado. Ok, eu estava cercada. Nada mal... Duas de uma vez... Eu dava conta do recado. Preencheria mais espaços, ou talvez os balões esvaziassem mais rápido, quem sabe? Não custava experimentar.

Sorri para as duas, acho que entenderam a minha mensagem. E pareceram gostar. Então meu amigo voltou do bar. Com a moreninha atrás.

Sinceramente? Por essa eu não esperava...

Menos ainda que ela estivesse segurando a minha Margherita Frozen. Sancho tentou explicar:

- Ela gentilmente se ofereceu pra me ajudar.

A morena parou em pé ao meu lado, se inclinou sensualmente colocando o copo na mesa, olhou bem dentro dos meus olhos e disse:

- Pelo visto você tá muito ocupada. Não vai poder me dar o tipo de atenção que eu quero. Mas não esquenta. Ainda nos falamos antes de você sair.

Deu-me uma piscada absolutamente safada. Depois se afastou, voltando pra mesa onde a ficante? Presa da noite? Namorada não era, senão já teria feito um escândalo – calma e pacientemente a esperava.

A conversa e os beijos – a dois e a três, num exemplo de análise combinatória perfeito - na mesa transcorreram tranqüilamente. Acabamos decidindo ir pra casa da loirinha. Antes de sair, informei às meninas que ia ao banheiro. Passei pela morena, que me olhou significativamente... E entrei na fila.

Ir ao banheiro numa boate gay pode ser estratégico, perigoso ou proveitoso. Depende da intenção, do dia, do nível etílico em que você se encontra, das companhias e principalmente do seu estado civil... Ou seja: como tudo na vida, é relativo.

No meu caso, era como um xeque mate. Nem eu nem a morena tínhamos saída. Tudo absolutamente previsível.

Em questão de segundos, senti a mão quente no meu pescoço. Antes que eu terminasse de me virar, a morena me puxou pela cintura e me beijou gulosamente. O primeiro movimento causou um arrepio. O segundo foi totalmente correspondido. Em ambos os casos: deliciosa!

Ela sussurrou no meu ouvido:

- Infelizmente hoje tô acompanhada... Vamos ter que ficar só nos beijinhos. Apesar de eu querer muito mais.

Uau! Incrível... A morena era uma predadora fantástica. Segurança e autoconfiança eram as palavras-chave. De um estilo que me deixou... Muito interessada.

Ela continuou, me entregando um cartão:

- Meu liga.

Bom, eu também não ia ficar atrás:

- Não quero seu telefone.

Ela levantou uma sobrancelha, com um sorriso intrigado, mas divertido ao perguntar:

- Não?

- Pra quê? Não vou ligar.

 Ela riu. Com um prazer claro. Antes de falar:

- Então me dá o seu, linda.

Uma pequena pausa. Enquanto eu dizia os números e ela gravava no celular. Olhou-me profundamente ao completar:

- Eu vou ligar.

Colou a boca novamente na minha. De um jeito embriagante, sedutor, voraz. Depois voltou para a mesa dela e não me olhou mais. Toda a atenção voltada para a garota que a acompanhava.

Preferi fingir que isso não me incomodava. Que não sentia nada. Nenhum tipo de despeito ou ferida no meu ego e vaidade. Não estava mesmo muito interessada em verdades.

Ocupada que estava em perseguir ilusões como se não fossem meras imagens falsas.

Não fui ao banheiro. Não estava com vontade. Despedi-me do meu amigo, me juntei às garotas que me esperavam, e saí com as duas da boate sem olhar para trás.

Parte 03

Baixar a guarda pode causar estragos irrecuperáveis

O dia seguinte me encontrou deitada no meio das duas meninas, que ainda dormiam. Demorei um tempo pra me lembrar onde estava. Na casa da loirinha, claro! Em Niterói. Outra cidade. Mesmo de ônibus, eu estaria em casa em no máximo 40 minutos, mas...

Ai!

A distância que o tesão da véspera tinha feito ser pequena agora parecia enorme. Em grande parte graças à ressaca.

Vesti-me sem pressa. Era sábado. Não tinha nada para fazer, mas também não estava nem um pouco a fim de ficar. Todo e qualquer tipo de interesse tinha se esgotado.

Além disso, detestava aquela coisinha manhã seguinte, a obrigação de se ter algo pra falar, tentar ser simpática e fingir que aquilo tinha mais significado do que usar um copo descartável.

Eu sei. Parece frio, insensível, execrável.  E é, de fato. Mas não estou me propondo a agradar, e sim, a dizer a verdade. Pequenos flashes da putrefata face de um tempo onde amar as coisas e usar as pessoas é muito mais fácil do que o contrário.

Por mais que isso seja... Aquele pequeno segredinho inconfessável guardado no fundo da gaveta mais escondida do nosso armário.

Saí do prédio sem ter noção de onde estava. Mas perguntar é a forma mais certa de se chegar a qualquer lugar. Em minutos estava no ponto de ônibus esperando o 996, que me deixaria na porta de casa.

Foi quando o meu celular começou a tocar. Uma voz incrivelmente animada disse do outro lado:

- Oi, linda! É a Verônica.

Verônica? Não fazia idéia de quem era, por isso não disse nada. Esperando que alguma coisa que ela dissesse matasse a charada. O que aconteceu muito mais do que rápido:

- Te disse ontem que ia ligar.

A morena! Claro! O ônibus surgiu, fiz sinal. Ele parou, entrei, passei pela roleta e peguei o troco enquanto escutava:

- Só que infelizmente, ainda não vai ser hoje. Nem essa semana, pra falar a verdade. Vou trabalhar direto. Senão você não me escapava.

Não tive como deixar de rir. O que era aquilo? Alguma tática inusitada? Ligar-me pra dizer que não ia poder me encontrar? Estava funcionando, porque... Despertou-me uma curiosidade absolutamente anormal:

- Você é o que? Algum tipo de escrava?

Foi a vez dela rir do outro lado. De um jeito que me incitava. Depois respondeu:

- Quase. Sou instrumentadora cirúrgica.

Fiquei um pouco impressionada. Afinal, o simples fato de cortar um bife cru me deixava enjoada... Deixei escapar um:

- Uau!

Que nos fez rir juntas. Então completei – sem bem entender porque, mas foi incontrolável:

- Não vai ter nem um tempinho?

Uma pausa. Onde ela pareceu consultar uma agenda mental. Ou pesar os prós e os contras, quem sabe? Antes de responder:

- Não acho prudente te encontrar em momentos onde provavelmente vou estar um bagaço...

Mais uma risada compartilhada. E então ela completou:

- A não ser que você aceite me encontrar pra almoçar.

Aquele era um convite um tanto quanto... Inusitado. Muito diferente do que eu esperava e estava habituada.

Implicava em várias coisas que para mim no momento pareciam impossíveis, complicadas, inviáveis. Ficar cara a cara com aquela mulher numa mesa, à luz do dia, sem nem estar alta, conseguindo escutar tudo que ela falasse. Só de pensar já me apavorava.

- Ah, vamos lá... Eu deixo você escolher o lugar.

Estranhamente, alguma coisa naquele tom de voz quase hipnótico que ela usava me fez ter vontade de concordar. E foi o que fiz. Da forma mais bizarra: sem hesitar.



No dia seguinte, almoçamos. E foi surpreendente. Ela era de uma inteligência... Sagaz.

A conversa fluiu, às vezes divertida, outras provocante, mas o tempo inteiro completamente à vontade, como se já nos conhecêssemos. Parece clichê, mas a pura verdade.

Quando terminamos, ela fez questão de pagar:

- Eu convidei.

E como eu continuasse a protestar:

- Na próxima você paga.

Espertamente deixando a certeza de um novo encontro no ar.



Mais duas semanas, mais dois almoços corridos em brechas que ela conseguia do trabalho.

Sexo nada. Apenas beijos – calientes, nem um pouco comportados, que me deixavam em brasa, mas sem finalmentes, porque... Quando começava a chegar aonde eu queria, ela parava - nos banheiros dos restaurantes  aumentando a vontade imensa de algo mais.

O que estava acontecendo, o que ela pretendia, afinal?

Não sei se todo mundo é assim, mas... Dizer que eu não posso ter ou fazer qualquer coisa é a melhor forma de me instigar. Não é como não gostar de coisas fáceis, é algo muito mais compulsivo do que isso.

Um profundo amor por desafios aliado a um não acreditar em impossibilidades.

Pois então... Ponto pra morena.

A espera, o desejo insatisfeito e os encontros absurdamente excitantes alimentavam um interesse e uma curiosidade que estavam me enlouquecendo.

Normalmente eu trepava antes de me apaixonar. Nunca o contrário. Apaixonar-me? Como assim? Realmente, o tesão não resolvido que eu sentia por Verônica estava me deixando insana já...

Não que eu tivesse mudado a minha vida e passado a ser uma celibatária. Nem pensar!

Continuava pegando horrores nas boates. Mas estava nas mãos dela. Indiscutível...

O maior exemplo disso: nos falávamos por telefone todos os dias. Incrível!

Pensar em e desejar Verônica passaram a fazer parte da minha rotina de uma forma surpreendentemente simples. Sobre... Natural. Sem que eu resistisse nem questionasse. Pelo contrário, muito me agradava.

Depois do nosso quarto almoço, estávamos no banheiro – Ah, pra variar... Provavelmente os casais heteros, que podem se beijar e se pegar a vontade, não sabem a importância nem o significado dos banheiros públicos para gays e lésbicas.

Apartes à parte: estávamos no banheiro. O corpo dela comprimindo o meu contra a parede do reservado, as mãos por baixo das roupas, nossas peles absurdamente ardentes e arrepiadas, quando ela interrompeu a exploração deliciosa e perfeita que fazia com a língua e os lábios na minha boca para sussurrar:

- Amanhã a noite não vou trabalhar...

E me olhou significativamente nos olhos. Deixando implicitamente acertado. Na noite seguinte, o mistério terminava. Ou apenas começava?



Sancho passou lá em casa por volta das 22h.

A bicha era supersticiosa, tinha todo um ritual antes de sair. Por isso sempre passava na minha casa pra “esquentar”. Nosso aquecimento era simples: Cuba Livre bem forte pra dar uma calibrada, ele colocava um CD, começava a dançar – eu sempre ria horrores, afinal de contas, aquele viado todo arrumadinho, cheio de gel no cabelo, super perfumado, com um copo na mão, rebolando sem parar no meu quarto, era no mínimo engraçado – e depois fazia um negócio super estranho – mas quem era eu pra duvidar da crendice alheia? Principalmente se parecia dar certo? – acendia um incenso horrível, daqueles que chega a ser fedido de tão doce: Cupido. Sim, esse era o nome, pode acreditar! Pois então... ele pegava esse incenso e passava no corpo inteiro, se benzendo, sei lá... Depois passava em mim e... Voilá! Prontos e batizados!

Auto sugestão ou verdade, o negócio funcionava, porque nós nunca saíamos da boate desacompanhados.

Depois dessa simpatia toda, entramos na boate onde Verônica e eu tínhamos marcado. Ela ainda não tinha chegado. Não que estivesse atrasada. A bicha apressada tinha me obrigado a chegar meia hora mais cedo.

Como eu não acredito em perda de tempo, fiz muito mais do que esperar. Estava olhando em volta, fazendo o reconhecimento das possibilidades quando... Dei de cara com uma garota que eu detestava. Porque ela dava em cima da Cláudia.

Ela estava me olhando e sorriu. Não sorri de volta, na verdade cheguei a virar a cara. Mas ela se aproximou, estranhamente simpática:

- Oi!

- Oi.

Respondi, nada entusiasmada e ainda de cara fechada. Ela prosseguiu:

- Você e a Cláudia... Se separaram, né?

Tem momentos em que percebemos perfeitamente o quanto a realidade é uma ilusão. Quando todo e qualquer tipo de verdade parece ser tão... Absolutamente surreal.

No caso, a garota era um exemplo de falta de tato total. Minha resposta foi seca e rápida:

- É.

- Que ótimo!

Foi a resposta i-na-cre-di-tá-vel!

Tudo bem, ela estava feliz por meu casamento ter acabado abrindo caminho pra ela investir na minha ex, mas... Não podia ao menos disfarçar?

Antes que pudesse expressar o que estava pensando, veio a frase bombástica, que eu não esperava:

- Quem sabe agora você me dá bola?

Como assim? Alguma coisa ali estava muito errada. Minha cara de perplexidade deve ter sido indisfarçável. Porque ela disse:

- Vai dizer que você não sabe?

Saber o que? Onde eu estava? Em “O Processo” de Kafka?

- A Cláudia chegou a me ameaçar...

Eu ri. Sem querer. Do quanto eu era retardada. Realmente, eu nunca tinha percebido. Na verdade eu sempre a evitava. Porque pra mim, ela estava interessada na Cláudia. Aliás, a própria Cláudia tinha me dito.

De uma só vez, todas as peças do quebra-cabeça se encaixaram. Não sabia se batia palmas pra Cláudia – tinha que admitir que tinha sido uma jogada de mestre! – ou a matava. Nenhuma das duas, claro. Que se danasse a Cláudia. Ela era passado.

Preferi olhar pra garota, pela primeira vez de verdade. Com um sorriso que deixava claro que poderia rolar.

- A Cláudia me disse que se eu chegasse perto de você me arrebentava.

- Engraçado. Ela me disse que você estava a fim dela.

Fomos aproximando nossas bocas lentamente:

- Que filha da puta!

- Escrota, mas genial.

- Você ainda é apaixonada por ela?

- Isso importa?

- Na verdade...

Ela sussurrou uma última palavra:

- Não.

Antes que nossos lábios se colassem.



Porque será que tem momentos em que a gente sabe que está fazendo merda, mas não consegue evitar?

Parece que uma força muito maior – aquela enganosa sensação de prazer e satisfação imediata – que nos deixa completamente desprovidos de forças para lutar. Exatamente esses acabam sendo aqueles momentos que sentimos vontade de voltar atrás para mudar.

Mas se voltássemos não seria uma coisa tipo “Peggy Sue, seu passado a espera” ? A ilusão não nos sugaria novamente e repetiríamos tudo igual?

No meu caso, eu ainda não sabia, mas... A repetição de momentos como esse passaria a fazer parte da minha vida. Algo impossível de evitar.

No meio dos beijos que trocava com a tal garota, lembrei de Verônica. Abri os olhos, apenas para... Descobrir que ela estava parada na minha frente, me olhando com uma expressão indecifrável.

Na mesma hora me afastei da outra menina. Que me olhou sem entender nada. Sussurrei:

- Tô acompanhada.

E ela fez uma cara... Nada positiva, pra dizer a verdade. Nem dei tempo pra que ela falasse o que pensava. Despedi-me rapidamente.

Estava um pouco sem graça. Não arrependida, e sim... Como um ladrão que sente remorso não pelo que fez, mas por ter sido flagrado.

Aproximei-me de Verônica. Ela apenas sorriu. Ficou em silêncio, assim como eu. Puxou-me pela mão. De um jeito nada delicado. Entramos no banheiro, e depois num dos reservados.

Ah, o ato de não falar...

Quando a comunicação dispensa palavras. Como naquele momento.

Verônica me empurrou contra a parede com força. Podia sentir a raiva por trás da forma quase agressiva com que ela me tocava.

A boca no meu pescoço de um jeito que ia deixar marcas. Aquilo me deixou absolutamente excitada. A sensação de ser desejada como um pedaço de carne.

Ou talvez... por me sentir usada, abusada, dominada. Tratada sem um pingo de consideração ou cuidado. Meu prazer tão evidente que ela sussurrou:

- Gosta de ser tratada como puta, né?

Era uma pergunta? Ou uma afirmação?

Fosse o que fosse, não queria nem conseguia falar. Com ela ajoelhada na minha frente, a boca e os dedos mergulhados dentro de mim de uma forma que tornou os gemidos impossíveis de sufocar. A mão que apertei contra a  boca foi totalmente ineficaz.

Mas ela insistiu:

- Gosta?

Silêncio. E uma ordem:

- Responde!

Não tive como deixar de suspirar:

- Gosto...

A partir daquele momento, tudo se tornou... Absolutamente intenso, cheio do mais profundo e primitivo desejo... mas muito menos do que eu esperava.

Porque... podíamos ter feito daquele jeito em todos aqueles reservados em que tínhamos nos esfregado sem que a coisa se consumasse.

Esperar e imaginar um mês inteiro tinha me feito voltar a acreditar.

Achar que seria mais especial do que uma transa rápida e meio sadomasoquista dentro de um banheiro.

Parte 04

A Mentira pode se tornar uma Necessidade

Dizer, afirmar ser verdadeiro aquilo que se sabe falso.

Dissimular a verdade.

Dar informação falsa.

Causar ilusão.

Enganar, iludir, não revelar, esconder, ocultar a verdade.

Existem muitas formas de se evitar a palavra “mentira”. Nenhuma de não praticá-la. Na verdade, é até fácil fazer com que ela se torne... nossa própria vida.

O perigo é a muralha protetora da ignorância ruir. Ou os véus da omissão, preguiça, resignação e comodismo voarem. Um retrato de Dorian Gray. Assim pode ser a realidade revelada.

Curioso como a verdade pode ser temível. Ver a nós mesmos. Enxergar.  Principalmente quando a cegueira é tão mais fácil.

Depois de me comer daquele jeito no banheiro da boate, Verônica desapareceu. Não me ligou mais.

E eu?

Debati-me a semana inteira, como um peixe no anzol.

Por que?

Algo inconfessável, inevitável, que preferi não nomear.

O resultado?

Acabei telefonando pra ela, claro. Odiando aquele diabo de esquizofrenia patética e ridícula que me guiava.

Ela foi fria. Monossilábica. Mas concordou em sair comigo. Não para almoçar. Novamente à noite, numa boate.

E então, 6ª feira à noite - após Sancho e seu ritual – ficamos outra vez cara a cara.

Dessa vez ela chegou primeiro. E já estava bastante íntima de uma garçonete totalmente gata.

Não que fosse problema. Naquele momento eu realmente não acreditava em monogamia, muito menos em fidelidade. Exclusividade era tudo o que eu não queria, porque se tivesse, também seria obrigada a dar.

Mas então porque aquele incômodo um tanto quanto... desconfortável?

Quando me viu, ela veio direto pra mim. Com aquele sorriso espetacular. Não me deixou falar nada. Colou a boca na minha de uma forma absolutamente voraz. Correspondi com uma vontade maior ainda. Afinal de contas, a única coisa que eu tinha conseguido fazer com ela naquele banheiro tinha sido gozar. Mas aquela noite eu não ia deixar barato. Queria... Digamos que... pagar na mesma moeda seria... ideal.



Qualquer outra pessoa diria sem hesitar que aquela noite foi linda. O começo de tudo, digna de ser lembrada, etc e tal,  mas... na verdade foi quando a tênue linha com um precipício embaixo onde a partir de então eu seria obrigada a me equilibrar começou a se desenhar.

Indiscutível que Vê – foi como depois da noite fatídica passei a chamá-la – era... uhm... Palavras são tão imprecisas...

Como explicar que ela sabia como ninguém se entregar inteiramente em minhas mãos e no momento seguinte tomar as rédeas da situação?

Além de na cama... afe!

Em poucas palavras: sexualmente, para Vê não existiam limites.

Mas era muito, mas muito mais do que isso. Como um filme de terror, onde ao invés de fugir, a personagem propositalmente se encaminha na direção de onde veio o mais terrível de todos os ruídos.

Com uma precisão cirúrgica, ela me levava a sensações que eu não conseguia manter apenas no plano físico.

Se eu estava apaixonada? Num primeiro momento, me recusei a pensar, a acreditar, e a confessar.

Só percebi que o volante da minha vida não estava mais em minhas mãos quando já tinha mudado completamente de direção.

Então, eu já tinha almoçado na casa da tia dela, conhecido os pais, os irmãos, os avós... Mesmo sem saber como e quando, estávamos namorando.

Mas o pavor que eu sentia era tão menor do que o prazer...

Foi o que fortaleceu a relação.

E voltamos então à primeira pergunta: estava eu apaixonada? Não tinha como dizer que não. Mas não era, nem de longe, como a paixão que eu tinha sentido por Cláudia. Era mais calma. Menos exagerada. Completamente confortável. Pelo menos da minha parte.

Porque assim que nosso relacionamento ficou oficialmente estabelecido, Vê passou a surtar.

Será possível alguém achar que o fato de vigiar, desconfiar, ficar em cima de uma outra pessoa 24 horas por dia pode evitar algo?

Vamos lá: trair ou não é uma questão de escolha subjetiva, um direito adquirido quase. Nada passível de uma 3ª pessoa – por mais que seja interessada - controlar.

É quase um comercial: não adianta tomar conta, tem que acreditar.

No final, o que acontece é que, além da perseguição insana dar idéias e despertar vontades, tem como efeitos colaterais a irritação, o estresse, o desgaste,  e aquela sensação de que “já que estou levando a fama...”

É, aí deitar na cama se torna ridiculamente fácil.

Se fosse um slogan, seria: Ciúmes - a melhor forma de acelerar o processo de uma outra pessoa começar a olhar para os lados.

Bom... Uma panela de pressão num fogo alto demais inevitavelmente explode.

Claro que Vê não sabia cozinhar.

Queimava-se inteira na fogueira da possessividade. Atormentava-me a ponto de eu me sentir uma presidiária.

“Onde você foi?”

“Com quem?”

“Quem estava lá?”

“Que horas chegou em casa?”

E revirava minha bolsa, queria a senha do meu e-mail, tentava entrar no meu MSN, vasculhava meu celular a procura de... sei lá!

Quem era essa insegura louca e o que tinha feito com a mulher confiante que tanto me encantava?

Não nego que meu passado me condenava. Mas eu era solteira, o que ela esperava?

O fato de estar me comportando, “andando na linha” a ponto de meus amigos me sacanearem e meu esforço não estar valendo de nada passou a me exasperar. Começou a me deixar... muito cansada.

E como na vida nada é por acaso, o espetáculo em que eu estava trabalhando terminou a temporada no Rio de Janeiro e começou a viajar.

Depois de uma verdadeira tempestade - em que tive que bater o pé e peitar que eu iria mesmo se para isso tivéssemos que terminar - estava eu em Blumenau.

Sancho também estava – eu disse que éramos inseparáveis – no elenco e no mesmo quarto. Compramos uma vodka e uma coca cola no supermercado. Pro ritual, é claro.

Tá, eu sei que nada justifica, mas... era a primeira vez em muito tempo que eu me sentia livre, ou melhor: viva de verdade. Como se numa câmara de gás eu voltasse a ter ar para respirar.

Já entrei na boate mal intencionada. Isso faz toda a diferença.

O figurino – nem muito arrumado, nem muito largado – o perfume – quanto mais doce e feminino melhor – e a entrada – sou boa demais pra essa merda de lugar, mas... se alguém souber como chegar sou fácil – são fundamentais.

Mas de verdade?

Existe algo que nossa pele exala quanto estamos à procura de carne. As pessoas sentem de imediato.

Uma loira de cabelos curtinhos nos recebeu na porta da tal boate. Muito sorridente, me estendeu um flyer. Mas não soltou. Ficamos segurando aquele pedaço de papel e nos encarando, enquanto ela falava:

- Assisti seu espetáculo.

Sorri de volta. Inocentemente. Só querendo ser simpática:

- Gostou?

A resposta foi imediata:

- Foi impossível prestar atenção.

O tom que ela usou... Provocante, sedutor, malicioso quase. Conseguiu me deixar interessada. Mas não ia demonstrar, claro. Fingi não estar entendendo nada:

- Achou chato?

Ela não desviou o olhar. Inclinou um pouco a cabeça, sorriu, umedecendo os lábios, depois falou, no mesmo tom de antes:

- Não consegui parar de te olhar.

 

Quando saímos da boate, eu já estava pra lá de alta. Ainda assim podia sentir minhas mãos e meu nariz congelarem.

Fui andando ao lado da loira. Viramos a esquina da rua de palmeiras gigantes, olhei pro relógio que marcava: zero graus?

Como boa carioca, para mim onze graus já era um frio mortal!

Suspirei desanimada.

Não tinha rolado nada além de beijos a noite inteira. Afinal de contas, a garota trabalhava lá. Era promoter da boate.

Sancho tinha ganhado no par ou ímpar, ou seja: ia levar o carinha com quem estava pro quarto do hotel. E pra completar a desgraça: a loira morava com a tia – não podia me levar para casa - e não tinha carro.

Bom, a cidade era dela, eu não conhecia nada. Deixei que me guiasse. Bastou segurar a minha mão pra garota dizer:

- Nossa, você tá gelada!

- Tô contando com você pra me esquentar...

Rimos juntas – foi infame, vamos combinar - um monte de fumaça saindo entre as gargalhadas.

Continuamos a andar. Atravessamos uma ponte, andamos o que para mim pareceu uma eternidade. E finalmente chegamos num lugar que ela chamava de praia, mas... sinceramente? Era tipo uma pracinha com um anfiteatro e um barquinho de cimento na beira do rio.

Ela me puxou pra dentro do anfiteatro. Entre duas paredes, mas aberto nas laterais. O vento era de matar. Atravessava-me.

Claro que foi colar a boca na dela pro calor aumentar. Cada vez mais. No começo ela reclamou das minhas mãos frias, mas depois a temperatura subiu, junto com a do corpo dela. Quando minha mão finalmente a tocou onde eu queria, ouvimos vozes. Nos afastamos, ajeitando as roupas. Xingando mentalmente, claro.

Eram três skatistas aborrecentes. Fumando um baseado. Já tinha amanhecido. O que queria dizer que... Talvez conseguisse um quarto vago.

Chegamos no hotel em questão de segundos. Fui direto pro salão onde serviam o café. Deixei a loira esperando na recepção. A única pessoa conhecida que vi foi Vivian, a figurinista do espetáculo. Com quem eu não tinha a menor intimidade. Sabia que ela era entendida e casada. Nada mais. Meu desespero me deixou totalmente cara de pau:

- Tem alguém no seu quarto?

Ela me olhou de cima a baixo. Antes de responder:

- Não, por que?

E eu:

- Me empresta a chave?

Não precisei explicar mais nada. Ela só disse:

- Pensei que você tivesse namorada.

Não respondi. Limitei-me a um:

- Não vou demorar.



Blumenau foi a primeira de muitas cidades. E a loira a primeira de muitas minhocas – garotas da terra – que eu pegava.

Minhas escapadas fizeram minha relação melhorar. Eu estava indubitavelmente mais calma. E Vê, obviamente, de nada desconfiava.

Aqui, nesse momento, posso estar parecendo completamente canalha. Por não sentir culpa, remorso, nem me martirizar como uma boa alma faz.

Por que eu deveria me sentir mal com algo que estava fazendo meu namoro finalmente funcionar? Se eu nunca pensei em terminar com Vê, foi porque... estava apaixonada.

Não conseguir viver sufocada nem me anular, sentir tesão por outras mulheres não queria dizer o contrário. O que mata é esse maniqueísmo ocidental. Essa mania de certo e errado, bom e mau, preto e branco que ignora toda uma nuance intermediária de relatividades.

Eu a amava. De verdade. Ou era apenas mais uma das muitas inverdades que eu cultivava?

Depois daquela manhã em Blumenau, Vivian se tornou minha amiga. E percebi que ela também não era tão fiel quanto aparentava. Dava sim suas saidinhas, só que a discrição dela era insuperável.

Estávamos em Varginha, quando Vivian me chamou pra ir ao quarto dela, dizendo que tinha um assunto urgente pra conversar.

Recebeu-me com uma taça de vinho. Normal. Ela adorava. Tinha o hábito de sempre ter uma garrafa no quarto.

Sentei do lado dela na cama, curiosíssima. Ela olhou dentro dos meus olhos, de um jeito que me fez entender antes mesmo de escutar:

- Nós duas somos muito parecidas. Gostamos de sexo. Nunca vamos confundir as coisas nem nos apaixonar uma pela outra. Podemos ser amantes. Que tal?

Uma proposta dessas, vinda de uma mulher daquelas... Como recusar?